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Espaço
semanal, com publicação aos Sábados, da
responsabilidade da Concelhia de Odivelas do CDS/
Partido Popular |
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27 |
Carta
Aberta
ao
Sr. Luís Salmonete Vice-presidente da Comissão
Política Concelhia do Partido Social Democrata de Odivelas |
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Francisco Vieira |
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Sábado, 05
de Agosto de 2006 |
-
Estão verdes essas uvas.
Verdes
não servem para nada!
Jean
de La Fontaine,
A Raposa e as Uvas
1.
Por razões que desconheço, o Sr. Salmonete,
vice-presidente da Comissão Política Concelhia de
Odivelas do Partido Social Democrata (PSD), entendeu, por bem,
insultar os militantes, isto é, os membros do Partido Popular
CDS/PP, afirmando que, «no
CDS/PP é normal, não ter bem a certeza daquilo que se diz».
E fê-lo, utilizando o espaço político do seu
partido, para, com tal acto, oferecer-lhe uma dimensão que de
outra forma, naturalmente, não teria. [1]
Pela
importância política não posso deixar passar em
claro, o ocorrido. Não sei, pessoalmente, o que é que o
Sr. Salmonete tem contra mim, uma vez que não o conheço.
Quanto muito, poderei ter visto o seu nome ou a sua fotografia num
qualquer folheto de propaganda eleitoral, mas, não mais do que isso.
Na
minha qualidade de militante do PP, naturalmente que me considerei
atingido na dignidade que seria suposta estar preservada quando o
debate político é efectuado de uma forma elevada
e séria e com o civismo que se exige aos eleitores.
2.
O que é extraordinário é que o vice-presidente
de uma comissão política concelhia se permita
vilipendiar os membros de um partido que é companheiro de
coligação em 60 autarquias do nosso país.
Ora,
quer o Sr. Salmonete aprecie ou não, se o PSD se permitiu
acordar fazer 60 coligações, a nível local, com
pessoas, que, nas suas palavras «não
têm bem a certeza daquilo que dizem»,
é porque, a ser verdade o que afirma, nisso viu algum
interesse ou porque disso tinha necessidade ou porque essas eram as
excepções aconselhadas - e isto reflecte alguma
fragilidade política ou então, sejamos claros,
porque não é verdade, o que se permitiu escrever e isso
retira-lhe, a si, seriedade e credibilidade políticas.
3.
Mas, se o Sr. escreveu, através do seu cargo partidário
e num espaço político bem definido partidariamente,
é porque terá pretendido, porventura, dar uma cobertura
política oficial.
E
parece tê-la obtido. Quando o autor visado, Miguel
Xara-Brasil, se pronunciou sobre o ocorrido, desafiou a
direcção do PSD de Odivelas a esclarecer a
situação criada, o que encontrou foi o silêncio.
Não se sabe se o presidente da Comissão Política
Concelhia de Odivelas do PSD, Sr. Fernando Ferreira, concorda ou
não com as afirmações do Sr. Salmonete, mas,
não é conhecido publicamente qualquer desmentido.
Enfim,
se o Sr. Salmonete tivesse escrito a título individual, a
questão era outra, como muito bem saberá. Continuaria a
ser pouco séria, deselegante e grave, porque não
corresponde à verdade, mas ficaria apenas a contas com o
nível da sua elevação pessoal.
Porque
não pretendo, por qualquer forma, entrar no domínio do
insulto pessoal, considero esta questão encerrada a
título individual.
4.
A questão tem, no entanto, contornos políticos, muito
bem definidos. E o Sr. Salmonete sabe-o, porque afirma que
nunca
desejámos,
[não está sozinho, portanto] em
Odivelas, uma aliança com o CDS/PP, logo, nunca vimos com
entusiasmo a aliança de governação que foi feita
com um partido da chamada direita.
(sublinhado meu)[2]
Admito
que o Sr. Salmonete possa estar a falar verdade e a ser sincero.
Como não o conheço, tenho e devo conceder-lhe o
benefício da dúvida, que, na situação
anterior, não teve a delicadeza de proporcionar.
5.
E aqui, Sr. Salmonete, estamos numa situação deveras
curiosa e de que me permito pedir a sua particular
atenção. Tal como o Sr. Salmonete, pessoalmente
não concordo com uma coligação entre o Partido
Popular e o Partido Social Democrata, pelas mais diversas
razões. E, não é de hoje,. Estão, no
essencial contidas em textos publicados na Coluna
às Direitas,
no jornal Diário
de Odivelas.[3]
De
facto, em Março deste ano, já me permitia escrever que o
Partido
Popular precisa de ser, no País e no Parlamento, [e,
por extensão, nas autarquias, e, logo, em Odivelas]
uma alternativa reconhecida pelos portugueses, em que estes possam
confiar, com um programa claro, com termos políticos e sociais
da Direita e alternativos à governação
socialista e social-democrata.[4]
6.
E adiantava, como razão para justificar o meu ponto de vista, que
sempre
que o Partido virou ao centro ou acasalou
com o PSD, descaracterizou-se e perdeu influência e... votos.
Sempre que o Partido virou à direita ou se afastou
das grilhetas
com o PSD, ganhou espaço próprio, foi compreendido pelo
eleitorado e... ganhou votos. É uma lição simples.
(...)
Começa
a ganhar força aquele ditado (adaptado) de que com o PSD
nem bom vento nem bom casamento. Sempre que nos juntamos
ao PSD ou emagrecemos
ou saímos
mal dispostos ou adoecemos.
Triste sina.[5]
De
facto, o eleitorado compreendeu, muito claramente, nas
Eleições Legislativas de 2002 (antes, portanto, do
governo PSD-CDS/PP), que o slogan
único voto útil é no PP, era justo e
correcto e votou no Partido popular, impedindo a maioria absoluta do
PSD, provando, assim, que há eleitorado à
direita com vontade e programa próprios.
E
também compreendeu nas Eleições Legislativas de
2005 (depois do governo PSD-CDS/PP), o mau serviço que o PP
prestou à nação ao participar e apoiar um
governo que, globalmente, apresentava uma imagem de má governação.
E
a direita que apoiara e votara no PP em 2002, resolveu desertar,
em grande parte para a abstenção. Os estragos da
aliança com o PSD foram bem visíveis, estendendo-se
até às autárquicas, como Odivelas é um
bom exemplo.
7.
Quando o PP se
assumiu claramente como um partido de direita em 1992
ao abandonar o centro, passando de Partido
do Centro Democrático e Social para Partido
Popular - nas
eleições seguintes, de 1995, passou de cerca de
250.000 para mais de 530.000 votos e de 5 para 15 deputados.
Quer isto dizer, Sr. Salmonete, que os votos do Partido Popular se
encontram à direita e não ao centro.
E
concluía, no citado artigo, queria
O
PP não pode pretender viver na sombra do PSD à espera
de migalhas que o poder possa oferecer. Os portugueses, têm que
saber que o PP e o PSD são diferentes e devem conhecer as
diferenças. O PP tem espaço político,
ideológico e doutrinário, que deve ser assumido com
toda a clareza.[6]
Por
outro lado, em Maio de 2006, em A
Companhia dos lobos,
escrevia que
o
Partido Popular está hoje entalado
entre o nacionalismo radical do Partido Nacional Renovador (PNR) e a social-democracia
do Partido Social-Democrata (PSD). É o seu espaço e
daí não deve sair, alargá-lo sim, mas não
sair, se quiser sobreviver e crescer.[7]
9.
Quanto ao nível autárquico, basta tão só
referir Paulo Portas,
em 2001 e Maria
José Nogueira Pinto,
em 2005, que fizeram as suas campanhas eleitorais de uma forma
politicamente empenhada e séria. E, por isso, o eleitorado de
Lisboa soube compreendê-los e apoiá-los com o seu voto.
Foram ambos eleitos e a maioria absoluta do PSD escapou-se. A Direita
sabe o que é realmente o voto útil.
Estes
são dois grandes exemplos do que é saber estar em
minoria, mas, consciente das suas convicções pessoais e
políticas, com o sentido do dever e dedicação
à causa pública.
Logo,
Sr. Salmonete, há direita que sabe aquilo que
quer e quando tem condições, expressa-o. Se não
tem, abstem-se ou escolhe votar em branco ou nulo. Como aconteceu em
Outubro de 2005, em Odivelas.
De
facto, nas Eleições Autárquicas de 2005, houve
menos 456 inscritos. PSD+PP perdem 2097 votos. PS+PCP+BE+PH ganham
665 votos. Os Brancos+Nulos aumentam 1313. Creio não ser
necessária uma máquina de calcular, Sr. Salmonete.[8]
10.
Se é verdade que «nunca
desejaram em Odivelas uma aliança com o CDS/PP, (...) um
partido da chamada direita,
então, estão no bom caminho. Porque não é
possível aceitar politicamente uma aliança com um
partido que
1. Se
permite desvalorizar outro partido que foi parceiro de
coligação governamental e actual parceiro de cerca de
60 coligações autárquicas;
2. Só
fazem coligações porque precisam dos votos da tal
direita para ganhar, e depois nem reconhecem nem
agradecem o esforço alheio insubstimável na vitória;[9]
3. Se
assumem, em simultâneo, como oposição e
estão no poder, em governação conjunta do
município com os socialistas. É o tal 2 em 1, agora em
fórmula política.
Não
venham depois dizer ao Povo de Odivelas que não têm
nada a ver com a governação e com as
deliberações que viabilizaram, porque soará a falso.
Ao
contrário do que possa pensar, não é
preocupação fundamental do PP entrar a todo o custo na
vereação municipal, mas, dignificá-la com a
qualidade, o rigor e a competência que o município e os
munícipes exigem, e, digamo-lo, com muita franqueza, que, por
vezes, andam arredios dos Paços do Concelho.
O
facto de o PP não ter qualquer vereador na autarquia e ter
perdido o seu deputado na Assembleia Municipal, não significam
que o Partido seja dispensável ao concelho ou não deva
participar no município. O futuro se encarregará de
conformar a sua importância.
11.
Acaso o Sr. Salmonete se deu conta que se tivesse sido proposta e
aceite uma coligação entre o PSD e o PP, o presidente
da Comissão Política Concelhia de Odivelas do PSD, Sr.
Fernando Ferreira que defendeu que
«é o momento de mudar»[10]
- poderia estar sentado numa cadeira ao lado da actual, na
vereação municipal? A cadeira ficou à
distância de 2500 votos. E quanto à Junta de Freguesia
de Odivelas, a presidência poderia ter sido do PSD, numa tal
aliança com uma direita que não entusiasma
o Sr. Salmonete.
E
esta é uma pergunta ingénua. Se era possível o
PSD ganhar, ou se preferir, ter mais votos do que
os outros, porque não fez isso? É claro que
não é por não ter a certeza, como
fomos apodados, que não agiram de forma diferente. Queriam
provar que era possível ganhar, sozinhos, a Presidência
da Câmara e a Presidência da Assembleia Municipal, sem o
contributo da direita? Então está provado
que não é possível.[11]
Em
Odivelas, há mais de 10 anos que a transferência de
votos, nas autárquicas, se faz sempre à esquerda, entre
o PS, PCP, e, agora, o BE. Se o PS perde votos é sempre o PCP
a ganhar e não o PSD. Porque será? Basta consultar os
resultados das eleições autárquicas para ver o
quão difícil é esse objectivo político.
Mas, isso é com a secção local de Odivelas do PSD.
Sr.
Salmonete, não é com a ironia que os argumentos
triunfam. É, isso sim, com a humildade política, que
amiúde os partidos do bloco
central, no
poder em Odivelas, nos enchem os ouvidos. Mas essa prática
é, pelos vistos, noutras paragens.
As
eleições de 2009 nos dirão a cor das uvas.
Não temos pressa porque a paciência é uma virtude.
Odivelas,
31 de Julho de 2006
O
Autor pode ser contactado em favieira@gmail.com
PS (Post
Scriptum, para
que conste)
No
dia em que devia entregar este texto, saiu no jornal Público,
um artigo do deputado do PSD, Pedro Duarte, Nova
Vida para o PSD.
No essencial, Pedro Duarte, defende que o desafio - como
lhe chama - do PSD, deve ser «a
rejeição de um PSD amarrado a dogmas conservadores,
enclausurado à direita e a afirmação de um PSD
reformador e liderante na sociedade, protagonista de um novo centro-esquerda».[12]
Depois
de ler a prosa de Pedro Duarte lembrei-me dos Dupond e Dupond.
Porque será?
[2]Luis
Salmonete, idem.
[3]Coluna
às Direitas, «espaço
semanal, com publicação aos sábados, da
responsabilidade da concelhia de Odivelas, do Partido Popular CDS/PP».
Disponível online em diariodeodivelas.com/cd.htm.
[4]Quo
Vadis Partido Popular?,
em Coluna
às Direitas,
no Diário de Odivelas, 4 Março 2006. Disponível
online em diariodeodivelas.com/cd7.htm.
[5]Quo
Vadis Partido Popular?,
idem.
[6]Ibidem.
[7]A
Companhia dos Lobos,
em Coluna
às Direitas,
no Diário de Odivelas, 21 Maio 2006. Disponível em diariodeodivelas.com/cd17.htm.
[8]
Resultados das Eleições Autárquicas de 2001 e
2005, em www.stape.pt
e www.anmp.pt.
[9]Ver,
p.ex., Democratas-cristãos
irritados com lapso de Marques Mendes,
em Diário
de Notícias,
14 Outubro 2005. Disponível em dn.sapo.pt.
[10]
É o momento de mudar,
entrevista a Fernando Ferreira, candidato do PSD à
Câmara Municipal de Odivelas, em Nova
Odivelas, 22
Junho 2005.
[11] Ver
Não atingimos os objectivos,
Declaração da Comissão Política
Concelhia do PSD de Odivelas, Outubro 2005.
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