Espaço semanal, com publicação aos Sábados,  da responsabilidade da Concelhia de Odivelas do CDS/ Partido Popular

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Carta Aberta
ao Sr. Luís Salmonete Vice-presidente da Comissão Política Concelhia do Partido Social Democrata de Odivelas

Francisco Vieira

Sábado, 05 de Agosto de 2006

- Estão verdes essas uvas.
Verdes não servem para nada!

Jean de La Fontaine, A Raposa e as Uvas

1. Por razões que desconheço, o Sr. Salmonete, vice-presidente da Comissão Política Concelhia de Odivelas do Partido Social Democrata (PSD), entendeu, por bem, insultar os militantes, isto é, os membros do Partido Popular CDS/PP, afirmando que, «no CDS/PP é normal, não ter bem a certeza daquilo que se diz». E fê-lo, utilizando o espaço político do seu partido, para, com tal acto, oferecer-lhe uma dimensão que de outra forma, naturalmente, não teria. [1]

Pela importância política não posso deixar passar em claro, o ocorrido. Não sei, pessoalmente, o que é que o Sr. Salmonete tem contra mim, uma vez que não o conheço. Quanto muito, poderei ter visto o seu nome ou a sua fotografia num qualquer folheto de propaganda eleitoral, mas, não mais do que isso.

Na minha qualidade de militante do PP, naturalmente que me considerei atingido na dignidade que seria suposta estar preservada quando o debate político é efectuado de uma forma  elevada e séria e com o civismo que se exige aos eleitores.

2. O que é extraordinário é que o vice-presidente de uma comissão política concelhia se permita vilipendiar os membros de um partido que é companheiro de coligação em 60 autarquias do nosso país.

Ora, quer o Sr. Salmonete aprecie ou não, se o PSD se permitiu acordar fazer 60 coligações, a nível local, com pessoas, que, nas suas palavras «não têm bem a certeza daquilo que dizem», é porque, a ser verdade o que afirma, nisso viu algum interesse ou porque disso tinha necessidade ou porque essas eram as excepções aconselhadas - e isto reflecte alguma fragilidade política – ou então, sejamos claros, porque não é verdade, o que se permitiu escrever e isso retira-lhe, a si, seriedade e credibilidade políticas.

3. Mas, se o Sr. escreveu, através do seu cargo partidário e num espaço político bem definido partidariamente, é porque terá pretendido, porventura, dar uma cobertura política oficial.

E parece tê-la obtido. Quando o autor visado, Miguel Xara-Brasil, se pronunciou sobre o ocorrido, desafiou a direcção do PSD de Odivelas a esclarecer a situação criada, o que encontrou foi o silêncio. Não se sabe se o presidente da Comissão Política Concelhia de Odivelas do PSD, Sr. Fernando Ferreira, concorda ou não com as afirmações do Sr. Salmonete, mas, não é conhecido publicamente qualquer desmentido.

Enfim, se o Sr. Salmonete tivesse escrito a título individual, a questão era outra, como muito bem saberá. Continuaria a ser pouco séria, deselegante e grave, porque não corresponde à verdade, mas ficaria apenas a contas com o nível da sua elevação pessoal.

Porque não pretendo, por qualquer forma, entrar no domínio do insulto pessoal, considero esta questão encerrada a título individual.

4. A questão tem, no entanto, contornos políticos, muito bem definidos. E o Sr. Salmonete sabe-o, porque afirma que

nunca desejámos, [não está sozinho, portanto] em Odivelas, uma aliança com o CDS/PP, logo, nunca vimos com entusiasmo a aliança de governação que foi feita com um partido da chamada “direita”. (sublinhado meu)[2]

Admito que o Sr. Salmonete possa estar a falar verdade e a ser sincero. Como não o conheço, tenho e devo conceder-lhe o benefício da dúvida, que, na situação anterior, não teve a delicadeza de proporcionar.

5. E aqui, Sr. Salmonete, estamos numa situação deveras curiosa e de que me permito pedir a sua particular atenção. Tal como o Sr. Salmonete, pessoalmente não concordo com uma coligação entre o Partido Popular e o Partido Social Democrata, pelas mais diversas razões. E, não é de hoje,. Estão, no essencial contidas em textos publicados na Coluna às Direitas, no jornal Diário de Odivelas.[3]

De facto, em Março deste ano, já me permitia escrever que o

Partido Popular precisa de ser, no País e no Parlamento, [e, por extensão, nas autarquias, e, logo, em Odivelas] uma alternativa reconhecida pelos portugueses, em que estes possam confiar, com um programa claro, com termos políticos e sociais da Direita e alternativos à governação socialista e social-democrata.[4]

6. E adiantava, como razão para justificar o meu ponto de vista, que

sempre que o Partido virou ao “centro” ou acasalou com o PSD, descaracterizou-se e perdeu influência e... votos. Sempre que o Partido virou à “direita” ou se afastou das grilhetas com o PSD, ganhou espaço próprio, foi compreendido pelo eleitorado e... ganhou votos. É uma lição simples.

(...)

Começa a ganhar força aquele ditado (adaptado) de que com o PSD “nem bom vento nem bom casamento”. Sempre que nos juntamos ao PSD ou emagrecemos ou saímos mal dispostos ou adoecemos. Triste sina.[5]

De facto, o eleitorado compreendeu, muito claramente, nas Eleições Legislativas de 2002 (antes, portanto, do governo PSD-CDS/PP), que o slogan “único voto útil é no PP”, era justo e correcto e votou no Partido popular, impedindo a maioria absoluta do PSD, provando, assim, que há eleitorado à “direita” com vontade e programa próprios.

E também compreendeu nas Eleições Legislativas de 2005 (depois do governo PSD-CDS/PP), o mau serviço que o PP prestou à nação ao participar e apoiar um governo que, globalmente, apresentava uma imagem de má governação.

E a “direita” que apoiara e votara no PP em 2002, resolveu desertar, em grande parte para a abstenção. Os estragos da aliança com o PSD foram bem visíveis, estendendo-se até às autárquicas, como Odivelas é um bom exemplo.

7. Quando o PP se assumiu claramente como um partido de “direita” em 1992 – ao abandonar o “centro”, passando de “Partido do Centro Democrático e Social” para “Partido Popular” - nas eleições seguintes, de 1995, passou de cerca de 250.000 para mais de 530.000 votos e de 5 para 15 deputados. Quer isto dizer, Sr. Salmonete, que os votos do Partido Popular se encontram à “direita” e não ao “centro”.

E concluía, no citado artigo, queria

O PP não pode pretender viver na sombra do PSD à espera de migalhas que o poder possa oferecer. Os portugueses, têm que saber que o PP e o PSD são diferentes e devem conhecer as diferenças. O PP tem espaço político, ideológico e doutrinário, que deve ser assumido com toda a clareza.[6]

Por outro lado, em Maio de 2006, em A Companhia dos lobos, escrevia que

o Partido Popular está hoje entalado entre o nacionalismo radical do Partido Nacional Renovador (PNR) e a social-democracia do Partido Social-Democrata (PSD). É o seu espaço e daí não deve sair, alargá-lo sim, mas não sair, se quiser sobreviver e crescer.[7]

9. Quanto ao nível autárquico, basta tão só referir Paulo Portas, em 2001 e Maria José Nogueira Pinto, em 2005, que fizeram as suas campanhas eleitorais de uma forma politicamente empenhada e séria. E, por isso, o eleitorado de Lisboa soube compreendê-los e apoiá-los com o seu voto. Foram ambos eleitos e a maioria absoluta do PSD escapou-se. A Direita sabe o que é realmente o “voto útil”.

Estes são dois grandes exemplos do que é saber estar em minoria, mas, consciente das suas convicções pessoais e políticas, com o sentido do dever e dedicação à causa pública.

Logo, Sr. Salmonete, há “direita” que sabe aquilo que quer e quando tem condições, expressa-o. Se não tem, abstem-se ou escolhe votar em branco ou nulo. Como aconteceu em Outubro de 2005, em Odivelas.

De facto, nas Eleições Autárquicas de 2005, houve menos 456 inscritos. PSD+PP perdem 2097 votos. PS+PCP+BE+PH ganham 665 votos. Os Brancos+Nulos aumentam 1313. Creio não ser necessária uma máquina de calcular, Sr. Salmonete.[8]

10. Se é verdade que «nunca desejaram em Odivelas uma aliança com o CDS/PP, (...) um partido da chamada “direita”, então, estão no bom caminho. Porque não é possível aceitar politicamente uma aliança com um partido que

    1.  Se permite desvalorizar outro partido que foi parceiro de coligação governamental e actual parceiro de cerca de 60 coligações autárquicas;

2.  Só fazem coligações porque precisam dos votos da tal “direita” para ganhar, e depois nem reconhecem nem agradecem o esforço alheio insubstimável na vitória;[9]

3.  Se assumem, em simultâneo, como oposição e estão no poder, em governação conjunta do município com os socialistas. É o tal 2 em 1, agora em fórmula política.

Não venham depois dizer ao Povo de Odivelas que não têm nada a ver com a governação e com as deliberações que viabilizaram, porque soará a falso.

Ao contrário do que possa pensar, não é preocupação fundamental do PP entrar a todo o custo na vereação municipal, mas, dignificá-la com a qualidade, o rigor e a competência que o município e os munícipes exigem, e, digamo-lo, com muita franqueza, que, por vezes, andam arredios dos Paços do Concelho.

O facto de o PP não ter qualquer vereador na autarquia e ter perdido o seu deputado na Assembleia Municipal, não significam que o Partido seja dispensável ao concelho ou não deva participar no município. O futuro se encarregará de conformar a sua importância.

11. Acaso o Sr. Salmonete se deu conta que se tivesse sido proposta e aceite uma coligação entre o PSD e o PP, o presidente da Comissão Política Concelhia de Odivelas do PSD, Sr. Fernando Ferreira – que defendeu que «é o momento de mudar»[10] - poderia estar sentado numa cadeira ao lado da actual, na vereação municipal? A cadeira ficou à distância de 2500 votos. E quanto à Junta de Freguesia de Odivelas, a presidência poderia ter sido do PSD, numa tal aliança com uma “direita” que não entusiasma o Sr. Salmonete.

E esta é uma pergunta ingénua. Se era possível o PSD “ganhar”, ou se preferir, “ter mais votos do que os outros”, porque não fez isso? É claro que não é “por não ter a certeza”, como fomos apodados, que não agiram de forma diferente. Queriam provar que era possível ganhar, sozinhos, a Presidência da Câmara e a Presidência da Assembleia Municipal, sem o contributo da “direita”? Então está provado que não é possível.[11]

Em Odivelas, há mais de 10 anos que a transferência de votos, nas autárquicas, se faz sempre à esquerda, entre o PS, PCP, e, agora, o BE. Se o PS perde votos é sempre o PCP a ganhar e não o PSD. Porque será? Basta consultar os resultados das eleições autárquicas para ver o quão difícil é esse objectivo político. Mas, isso é com a secção local de Odivelas do PSD.

Sr. Salmonete, não é com a ironia que os argumentos triunfam. É, isso sim, com a humildade política, que amiúde os partidos do bloco central, no poder em Odivelas, nos enchem os ouvidos. Mas essa prática é, pelos vistos, noutras paragens.

As eleições de 2009 nos dirão a cor das uvas. Não temos pressa porque a paciência é uma virtude.

Odivelas, 31 de Julho de 2006

O Autor pode ser contactado em favieira@gmail.com

PS (Post Scriptum, para que conste)

No dia em que devia entregar este texto, saiu no jornal Público, um artigo do deputado do PSD, Pedro Duarte, Nova Vida para o PSD. No essencial, Pedro Duarte, defende que o “desafio” - como lhe chama - do PSD, deve ser «a rejeição de um PSD amarrado a dogmas conservadores, enclausurado à direita e a afirmação de um PSD reformador e liderante na sociedade, protagonista de um novo centro-esquerda».[12]

Depois de ler a prosa de Pedro Duarte lembrei-me dos Dupond e Dupond. Porque será?


[1]Luis Salmonete, Xara és um Alien?, em Partido Social Democrata, «espaço da responsabilidade da concelhia de Odivelas do Partido Social Democrata», Diário de Odivelas, 18 Junho[?] 2006

[2]Luis Salmonete, idem.

[3]Coluna às Direitas, «espaço semanal, com publicação aos sábados, da responsabilidade da concelhia de Odivelas, do Partido Popular CDS/PP». Disponível online em diariodeodivelas.com/cd.htm.

[4]Quo Vadis Partido Popular?, em Coluna às Direitas, no Diário de Odivelas, 4 Março 2006. Disponível online em diariodeodivelas.com/cd7.htm.

[5]Quo Vadis Partido Popular?, idem.

[6]Ibidem.

[7]A Companhia dos Lobos, em Coluna às Direitas, no Diário de Odivelas, 21 Maio 2006. Disponível em diariodeodivelas.com/cd17.htm.

[8] Resultados das Eleições Autárquicas de 2001 e 2005, em www.stape.pt e www.anmp.pt.

[9]Ver, p.ex., Democratas-cristãos irritados com “lapso” de Marques Mendes, em Diário de Notícias, 14 Outubro 2005. Disponível em dn.sapo.pt.

[10] É o momento de mudar, entrevista a Fernando Ferreira, candidato do PSD à Câmara Municipal de Odivelas, em Nova Odivelas, 22 Junho 2005.

[11] Ver Não atingimos os objectivos, Declaração da Comissão Política Concelhia do PSD de Odivelas, Outubro 2005.

[12] Pedro Duarte, Nova vida para o PSD, em Púbico, 4 Agosto 2006.

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