
Perfeito, perfeito, perfeito…
Era haver uma Democracia com Liberdade de Expressão não controlada pelos Governos nem por centrais de verborreia ideológica
Lamento. Não foi de certeza a figura mais importante da História de Portugal, quando há um D. João II ou D. Afonso Henriques
João Rebelo, deputado do CDS-PP e candidato à Câmara Municipal de Odivelas em 2005, em Correio da Manhã, 27/03/2007
Nem Salazar nem Cunhal voltam para a semana. Tal como D. Sebastião nunca voltou.
Rui Ramos, em Público, 31/01/2007
Quando as elites intelectuais de um país acham que o povo desse país é, no fundo, um bocado estúpido, até que ponto podem elas próprias ser, digamos sinceramente democráticas?
Pedro Magalhães, em Público, 02/04/2007
Um acontecimento das últimas semanas manteve entretidos e motivados alguns dos nossos analistas e comentadores. Refiro-me, é claro, ao programa Os Grandes Portugueses.
A exemplo de outros canais de televisão estrangeiros, a RTP, ao adoptar no nosso país este modelo da BBC, pretenderia prestar homenagem àquele que melhor ilustraria as qualidades da personalidade que os portugueses livremente escolhessem como o Grande Português. Para tanto, engendrou-se uma votação através da Internet, telefone e SMS, a pagar pelo votante.
È claro que apenas alguns portugueses se prestaram a esta jogatana e se permitiram dispender sessenta cêntimos para, segundo a propaganda oficial televisiva, votar naquele que lhe apetecesse. Que até podia ser “em si” (sic). Escusado será dizer que os brincalhões destas coisas apareceram e vieram gozar com a malta.
Alguém estava à espera, nestas condições, de uma eleição ou simplesmente uma votação séria, verdadeira e fiável? Só aqueles que acreditam que é possível votar pagando. Melhor do que esta mentira só votar recebendo, ao estilo de “pago para ver (o seu voto”. Oh, santa ingenuidade!
Mas, o mais grave disto tudo é que uns quantos incautos quase tantos como os que deliberadamente os enganaram. Ou então, estavam à espera que os seus apaniguados pela calada e de forma militante, votando em bloco, trouxessem no milagre das urnas a vitória do seu Sebastião.
Desde muito cedo se percebeu, como claramente o notou Pacheco Pereira, a mentira que se preparava e por isso os portugueses não se mobilizaram. Após a votação e o apuramento dos 10 finalistas, com a escolha de um Álvaro Cunhal e o afastamento, por exemplo, de um Mário Soares, que se percebeu a falta de transparência e seriedade do programa, concurso ou “espectáculo”, como a RTP gosta de referir.
Era por demais evidente que estava encontrado o vencedor. Faltava, apenas, conhecer quem estaria mais disposto a gastar dinheiro pelo seu ídolo: os extremistas da direita ou da esquerda. Pela votação final, ficou a perceber-se que os saudosistas e os descontentes do regime numa manifestação de força, perante a falta de interesse dos tele-espectadores portugueses impuseram-se à mobilização comunista. A algumas semanas do fim já se conhecia o perfil do vencedor: um ditador. Alguns portugueses tinham votado estava pago!
Álvaro Barreirinhas Cunhal e António de Oliveira Salazar foram eleitos e até dispuseram de tempo de antena. Tudo isto numa televisão pública de um regime democrático! Se «houve a apologia do fascismo» [com a vitória de Salazar], como pretendeu Odete Santos no final do programa, houve, igualmente, o branqueamento do comunismo. É que se houve uma vitória de Salazar no concurso, digamos assim, é porque existe liberdade de expressão em Portugal. Mas, não esqueçamos que o 2º lugar de Cunhal e a apresentação do programa sobre o ex-secretário-geral do PC, constituem, igualmente, a apologia de alguém que pretendeu e lutava por substituir uma ditadura por outra. Acaso Cunhal tivesse chegado ao poder e instaurado a “ditadura do proletariado”, como defendia e suprimido as eleições, estaríamos nós, agora, em 2007, a ver este programa em liberdade?
Se é verdade que Salazar teve 65.000 votos, Cunhal recebeu mais de 30.000 votos, o que é bem revelador da vontade falta de liberdade que os seus 100.000 votos potenciam. Só que todos sabemos que estes votos estão multiplicados pelas chamadas telefónicas efectuadas, e, essas não correspondem, na realidade a 100.000 pessoas, nem sequer a metade delas. Mas anda uma vontade totalitária aí à solta, lá isso anda, visível ou camuflada.
Um barrete foi o que estes brincalhões nos quizeram enfiar. E, houve, muitos ingénuos que gostaram de o enfiar, como as seguintes afirmações o comprovam: «Reflecte uma incultura geral dos portugueses» (Vítor Ramalho) ou «sinal de mal-estar» (Ângelo Correia), ou ainda, «o que não deixa de ser significativo é que um grande número de portugueses, tenha investido tanto esforço, tanto tempo e algum dinheiro para conseguir que Salazar [vencesse]» José Vítor Malheiros).
Mas, santas criaturas, será que ninguém viu que esta brincadeira, de mau gosto é certo, não é senão, uma brincadeira que aprendizes de ditaduras nos resolveram pregar. Acaso, a Constituição da República, a nossa, a democrática, fosse isso mesmo, e estivesse liberta dos resquícios da tralha ideológica esquecida do gonçalvismo e do PREC e o exemplo húngaro, que proíbe a apologia do fascismo e do comunismo, tivesse sido seguido e o problema não existiria.
Mas, temos que reconhecer, que sermos democráticos, significa coexistir com estas excrecências totalitárias. A Democracia deve permitir a Liberdade de Expressão de todas as formas de pensamento, mas, nem todos estão dispostos a aceitar isso, à esquerda e à direita, em nome da sua visão estreita da sua concepção da vida e do mundo.
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