A imprensa regional e o sufoco de cada edição

Tal como a imprensa nacional, aquela que dá a cara pela sua região vive com as dificuldades de uma competitividade que muitas vezes é um verdadeiro sufoco, mas enquanto uma tem por detrás grandes grupos económicos, a outra vive da publicidade mitigada ou da força do poder regional instituído!

Apesar de tudo, a Imprensa regional vai sobrevivendo, usando métodos muito parecidos com aqueles usados pelos jornais de expansão nacional ou, somente, de uma grande expansão. Ou seja, o corte sistemático nas despesas, o uso e abuso de uma redacção diminuta e super utilizada, com orçamentos verdadeiramente reduzidos.

A função do jornalista compara-se, muitas vezes, ao do “pau para toda a obra”, ainda por cima batendo-se contra uma concorrência a todos os níveis.

 


A Imprensa regional vive num sufoco, entre restrições orçamentais e a publicidade mitigada.

Todavia, não pertencem os órgãos de informação onde trabalham a grandes grupos económicos, verdadeiros latifúndios da Informação, que, subtilmente, vão tecendo as notícias, valendo-se de uma auto censura do jornalista e uma obediência a princípios editorais adaptados à função do próprio órgão informativo.

Há uma Imprensa tutelada por grandes grupos económicos e que vivem da sua sombra.


Correr atrás da notícia e da publicidade

Neste concelho de Odivelas existem vários órgãos regionais, pertencentes a empresas de informação e afins.
O grande problema é que sobrevivem em precária forma orçamental, o que os deixa, muitas vezes, à mercê de interesses políticos, apesar da independência a que se propõem e que vão usando com a honestidade jornalística possível e louvável.


Há contudo, uma independência que não obriga o estatuto editorial a uma posição fora de um contexto ideológico.

O jornalista vai até ao fundo da rua ou corre todo o concelho.

No estrangeiro, não são raros os jornais que não escondem a sua conotação de pensamento filosófico e politico e nem por isso deixam de ser considerados independentes. É que do meu ponto de vista, essa independência se torna mais real se a notícia, sem prejuízo da opinião expressa, do comentário que ela possa conter, for rigorosa e não manipulada.

Não engana o leitor, não vende “gato por lebre”, conta a história, colhida com todo o profissionalismo, ainda que seja ao fundo da rua ou numa correria louca, no caso da Imprensa regional, pelo concelho.

O outro lado da independência e a liberdade de imprensa

Contar, informar, de uma forma livre, mas, todavia, sensata, não obrigada à vénia nem ao cuidado com o melindre político ou outros.

Do ponto de vista do cronista, não é obrigatória esvaziar a notícia do seu conteúdo, tirando a dinâmica informativa em favor de uma rigidez tendente a demonstrar uma imparcialidade total. Não está em causa a opinião do jornalista, essa não é a forma de noticiar, mas qual a razão porque não poderá ficar subjacente o contexto filosófico que o estatuto editorial deve prever?

Na maioria dos casos, a Carta Universal dos Direitos humanos é um instrumento manipulado.

É que o falso rigor informativo, fabricado e tutelado, faz lembrar aqueles que defendem a Carta Universal dos Direitos Humanos nos artigos de conveniência e de subserviência a uma opção de classe, sem ter em conta o todo do documento, esquecendo o objectivo do mesmo, afinal, negando-o sub-repticiamente, usando-o, no fundo, fazendo dele um instrumento manipulador.

É por isso, que entendo, que, muitas vezes, em algumas situações, o cinismo e a hipocrisia informativa são o lado escondido daquilo que se convencionou chamar de liberdade de Imprensa!

O Estado e a imprensa regional

Sou um simples escriba, que já fez muito jornalismo e que sabe o quanto é doloroso não ter sabido interpretar as regras. Liberdade de Imprensa, de opinião, esbarra muitas vezes com o sustentáculo último do periódico e com a mão de ferro de quem o chama seu.

Mas gostaria de dizer, que, numa opinião muito pessoal, a Imprensa regional é importantíssima, pois contempla as histórias que em outros órgãos de Comunicação Social ficam por conta de critérios concorrenciais, portanto, ignoradas.

Aqui, há que ter em conta as responsabilidades do Estado, não deixando que estas fontes informativas sufoquem, na correria do jornalista que não consegue chegar a toda a parte.

Por outro lado, a super dependência da publicidade gerada pelo Poder económico instalado na região, tende a privilegiar espaços que bem poderiam, muitas vezes, ser utilizados como uma tribuna onde se pudesse tratar de assuntos de uma ordem muito mais formativa e menos lançada para a notícia directa, nua e crua, sem a discussão que merece.

O caderno temático é uma forma de informar, formando, criando um pólo de discussão e de reflexão.

Mas é assim, hoje em dia, a Imprensa regional, talvez a tábua de salvação para alguns profissionais, muito poucos, pois os orçamentos são demasiado pequenos para dar ao jornal regional a amplitude que deveria ter de uma forma a conhecermos um pouco mais a nossa terra e não estarmos sujeitos, quase sempre, aos bastidores de uma política onde os “nós” dos partidos e das vereações são desamarrados, sem que se possa, no órgão regional, debater problemas, chamar a atenção, olhar o que se passa, dar um pouco de forma filosófica e ideológica à maneira e ao modo como os cidadãos vêem a vida e sentem o que os rodeia.

Os Cadernos Regionais

Esta é uma das lacunas da Imprensa regional, que passa por a não publicação de cadernos temáticos, voltados para uma determinada direcção abrangente de um tema de discussão possível e que leva até ao leitor uma ideia para, em casa, ler e reler, pensar e criar uma opinião esclarecida.

Um caderno sobre o PDM é uma forma de informar, formando.

A educação, o desporto, os bairros sociais, os clandestinos, a urbanização, o PDM, a imigração, a clandestinidade, o problema dos toxicodependentes, a pobreza, a concorrência e as grandes superfícies, os despedimentos, o impacte das leis governamentais no contexto das regiões, o desporto, o quotidiano em certo e determinado concelho.

Estes são temas que merecem quatro páginas distintas, se quisermos estar ao lado da defesa de uma Imprensa regional actuante e dinâmica, formativa e informativa, uma verdadeira tribuna regional, na pista de todos os problemas nacionais!

Nota ao leitor

Esta foi a última crónica de Opções de Classe – Crónica de Um Dia Qualquer.

Dentro de quinze dias, sempre às quintas-feiras, este espaço passará a ser ocupado por uma nova rubrica do mesmo cronista e que se intitulará DO PAÍS À REGIÃO e terá a periodicidade semanal.

23 de Junho de 2007

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