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Pois é. Dantes é que era bom. Os sindicatos controlados pelo governo fascista (desculpem, pelo Estado Novo, não quero ofender ninguém...) não promoviam greves. Até porque era proibido, não era? Mas agora não. As greves são "um direito inalienável nesta democracia que temos", dizem até os bem instalados na vida, ou que como tal se julgam.
A grande chatice é que há quem exerça esse direito, o que para certa gente é inconcebível. Então com um governo que tão bem zela pelos direitos e interesses dos trabalhadores, roubando-lhes nos salários, no direito à saúde e à educação, destruindo miseravelmente a protecção social aos mais desfavorecidos, haverá alguma justificação para se fazer greve? E logo agora, que o défice está nos três por cento e Portugal, com o inenarrável papagaio Sócrates à frente, até está muito bem visto pelas elites europeias? Que horror!!! As centrais sindicais são mesmo inconvenientes.
De vez em quando, até aquela que foi fundada pelos partidos da direita (PS incluído) não tem outro remédio, perante a pouca vergonha exuberantemente exibida pelos governos que a suportam, senão aderir a uma ou outra luta, sob pena de ficar sem margem de manobra para continuar a enganar os trabalhadores seus filiados.
A conclusão é óbvia. Os direitos existem na lei, mas não para serem exercidos. Se o Sr. Primeiro-ministro for inaugurar uma latrina a qualquer recanto deste país e tiver um magote de gente a bater palmas, a manifestação, que nem precisa de ser comunicada previamente às autoridades, é uma forma linda e muito bem aceite pelos muitos senhores Castros deste país. Mas se um qualquer sector profissional que se sinta, com toda a razão, a ser esbulhado por aquela excelência, ali se apresentar a protestar, aqui d’El rei, o direito existe mas não deve ser exercido, é uma falta de respeito por sua excelência.
Engraçado que, a este respeito, O Sr. Sócrates atreveu-se a dizer, aquando de uma manifestação de professores que o afrontou, que não confundia os professores com os sindicalistas a soldo do Partido Comunista. (Mas onde será que eu já ouvi isto várias vezes, já lá vão mais de quarenta anos?)
A grande gaita é que os tais sindicalistas foram eleitos pelos professores que representam, em eleições democráticas (através de voto secreto e tudo, vejam lá!!!). Portanto, têm a mesma representatividade, perante os professores, que o Sr. Primeiro-ministro tem perante os portugueses. Eu até direi que têm mais, porque a direcção do Sindicato não precisou de mentir aos associados para se fazer eleger. O que não se pode dizer do Sr. Primeiro-ministro.
Talvez o seu problema seja esse. A má consciência decorrente da burla que praticou na campanha eleitoral que o levou a ser eleito. O que não pode, porque ultrapassa os limites da pouca-vergonha, é avaliar os outros por si próprio.
E pronto. Os trabalhadores da Administração Pública vão fazer greve no dia 30, com excepção daqueles mais influenciáveis pelas ameaças do poder (compreensível pela precariedade do seu emprego, que tem como um dos objectivos exactamente esse, o receio de exercer livremente os seus direitos), dos lambe-botas tradicionais e dos oportunistas do costume.
São os tais que não lutam e, porque não lutam, já perderam Pelo menos em dignidade, se é que todos sabem o que isso é…
Adventino Amaro

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