
A Cimeira EU/África do próximo sábado pode, e deve ser, uma viragem no relacionamento entre a margem norte e sul do Mediterrâneo. Saiba-se consolidar este passo e empreender os seguintes, desta longa caminhada conjunta, no sentido de enfrentar os desafios que a ambos os lados têm em comum, não perdendo de vista os principais beneficiados desta união: os fustigados povos africanos.
Lisboa recebe, no próximo sábado, a segunda Cimeira União Europeia/África, onde estarão presentes representantes ao mais alto nível de quase uma centena de países e instituições europeias e africanas.
Depois de sete anos de interregno – a primeira ocorreu no Cairo, Egipto, em 2000, presidia então o nosso País ao Conselho Europeu da UE, como agora – o encontro de sábado revela-se importante para o futuro das relações entre os dois continentes.
E, são mais os assuntos que o lado norte e sul do Mediterrâneo têm em comum do que aqueles que os distanciam.
As migrações são uma matéria prioritária para ambos, pelos impactos provocados quer nos países de origem quer nos países de acolhimento. E, associado aos fluxos migratórios estão o desenvolvimento económico e social, em especial dos países africanos, ainda muito precários em inúmeros casos, ao mesmo tempo que as questões das alterações climáticas associadas a estas vertentes são importantes. Não menos relevante e pertinente é o combate a epidemias, como a malária, a tuberculose ou a SIDA, manifestamente preocupantes em várias regiões de África, pelas milhões de pessoas que todos os dias têm a sua vida colocada em xeque.
É evidente que as questões históricas, leia-se coloniais, ainda estão muito presentes. Afinal, muitos países africanos são independentes há pouco mais de meio século. No caso das antigas colónias portuguesas há pouco mais de três décadas.
A presença de Robert Mugabe, Presidente do Zimbabué (antiga Rodésia), tem merecido um protagonismo ímpar, visto que o Primeiro-Ministro britânico, Gordon Brown, disse não se sentar à mesma mesa com este político africano, e por isso não comparece nem se faz representar. Isto porque Londres não transige e não esquece as perseguições que o regime de Harare cometeu a cidadãos britânicos no Zimbabué. Expulsando britânicos das suas propriedades. Antigos colonos que tinham, mesmo após a independência, garantido produtividade para o país e assegurado bens alimentares básicos.
O Zimbabué é hoje um dos piores exemplos mundiais em termos de estabilidade, com uma taxa de desemprego na ordem dos 80% e uma inflação superior a 3000%. Não me enganei, é mesmo mais de três mil!
Mugabe é apenas um dos casos mais mediáticos, mas outros há que não deixarão deixar de merecer atenção, como o “recuperado para a Comunidade Internacional” Presidente da Líbia, Mouammar Kadhafi.
Obviamente, o encontro pode ficar enredado na interpretação das “qualidades” de muitos líderes africanos, mas se tudo ficar reduzido às virtudes de cada um, dificilmente se darão passos de compromisso mútuo. E estes são os mais importantes: envolver e responsabilizar.
Da Cimeira poderão sair várias directrizes, mas se o encontro apenas produzir meras intenções e objectivos que não comprometem nada nem ninguém, este será um momento falhado.
Para já, esta Cimeira de Lisboa tem a grande virtude de reunir praticamente todos os responsáveis políticos europeus e africanos.
Este é um mérito da Presidência portuguesa da UE, depois de vários anos sem reunir. Agora, espera-se que se dê o primeiro e firme passo. Resta consolidá-lo e prosseguir a longa caminhada, que ambos precisam e devem dar em conjunto. E os grandes beneficiados desta caminhada serão os povos africanos, os que precisamente mais têm sofrido.
A solidariedade que tanto costuma ser enunciada, precisa de se efectivar, de vez.