Já há concerteza muitos cidadãos que se saturaram de toda a parafernália e de toda a propaganda associada ao referendo de dia 11 de Fevereiro. Eu sou um deles. Saturei-me dos golpes baixos e do fundamentalismo de ambos os lados. Sinto-me incomodado com quem tem muitas certezas neste debate.
Ao contrário do que afirma o prof. Marcelo Rebelo de Sousa, sei piamente que este processo referendário está contaminado politicamente. O Bloco de Esquerda com o seu radicalismo usual faz desta questão uma conquista feminista para além de ideológica. O PCP com a sua postura anticlerical quer silenciar os prelados do norte para não “manipularem” a opinião pública. O PSD apesar de se manter neutro, tem muitos militantes seus empenhados na campanha pelo não. O Partido Popular (desculpem-me mas nunca gostei da sigla CDS) é fiel a si próprio e às suas raízes ideológicas e maioritariamente apoia o não.
Nestes últimos tempos não tenho visto nada que divida o país como o tema do aborto.
Põe-se em questão se há vida no útero da mãe antes da mãe. O conceito de vida nestas circunstâncias é de tal modo arbitrário e subjectivo que ponho em dúvida se realmente a resposta pode ser dada em termos científicos.
"Há vida ou não nas 10 semanas ?" não é uma pergunta muito científica logo a resposta nunca pode ser muito científica.
Se o coração bate ou não, ou se há actividade neuronal são perguntas científicas. O resto está ainda em branco por responder.
As respostas que nós pretendemos ainda continuam a precisar de conceitos metafísicos, éticos, morais e religiosos ou de princípios e pressupostos que são inteiramente pessoais e do âmbito da consciência individual.
Posto isto não irei fazer campanha nestas linhas nem pelo sim nem pelo não. Tenho demasiado respeito pela inteligência das pessoas para lhes tentar convencer de alguma coisa que mexe tão fundo com a sua concepção da vida. Há quem ainda esteja indeciso é certo. Mas ainda acredito que as pessoas têm noção da sua responsabilidade e dever cívico para se tentarem informar sobre a decisão moral que é dada aos portugueses para resolver e que não deve ser tomada de ânimo leve.
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