Paulo Portas ao assumir a sua nova liderança do Partido Popular prometeu dar nova resposta ao que a esquerda sempre defendeu como território seu. A cultura e a ciência podem e devem também ser áreas em que a direita pode intervir. Mas porquê esta actual obsessão política pela ciência ?
Todos sabemos a importância que a ciência tem hoje em dia. Longe da imagem do cientista lunático (1) a importância social e económica da ciência para a humanidade é absolutamente fundamental. Desde a electrónica à escova de dentes a ciência e a sua filha a tecnologia movimenta biliões de euros todo o ano e emprega uns bons milhões de pessoas por todo o mundo. Se o(a) leitor(a) deste texto tiver filhos, sabe que em princípio estarão melhor equipados para enfrentar o mercado de trabalho se estes seguiram uma área científico-tecnológica – medicina, farmácia, engenharias mecânica, civil, ambiente ou mesmo as ditas ciências puras como matemática, física e química.

Ilustração 1 – Taxa de sobrevivência de crianças com cancro ao longo da última metade do século 20.
Para perceber melhor esta dimensão vital da ciência observe-se a ilustração acima. Representa a taxa de sobrevivência em crianças com tumores malignos ao longo das várias décadas do século 20. Como químico, dá-me mais alento verificar que com o advento da quimioterapia na década de ’60 começou a haver melhorias significativas na esperança de vida das pessoas.
Não será de todo um espanto que o governo e mesmo os políticos em geral queiram vencer o atraso tecnológico que o país ainda atravessa. No entanto há um problema que se encerra na maneira como se investe o dinheiro e é aí que quero chegar.

Ilustração 2 – Descubra as diferenças daquele gosto amargo: Cacau (Teobromina) à esquerda e café (cafeína) à direita.
De acordo com o documento do governo ‘Compromisso com a Ciência’ difundido o ano passado, o governo tenciona aumentar a dotação do Orçamento de Estado do Ministério para a Ciência Tecnologia e Ensino Superior com um acréscimo de 250 mega-euros devendo o mesmo ser feito para os anos 2008 e 2009. Ora como é sabido, o dinheiro não se reproduz e o financiamento para o ensino superior sai prejudicado com isso porque ao aumentar por um lado não se aumenta do outro. Se bem que o plano prevê uma triplicação do financiamento privado, este não diz como o vai incentivar. O orçamento para o ensino superior baixa neste ano e com isto, muitas universidades vêm-se forçadas a congelar bolsas de investigação para pagar salários e despesas correntes. Como será que neste jogo financeiro os estudantes universitários se sentirão ?
A OCDE diz claramente que é necessário Portugal investir no seu ensino superior para poder formar cientistas e técnicos competitivos no contexto europeu. Como fazer omeletas sem ovos? Como se pode esperar que um governo invista na ciência sem começar pela base? Não sou apologista dos milhões nem que o fazer melhor implica gastar mais mas há que definir equitativamente as prioridades para que os objectivos traçados sejam consistentes.
(1) A expressão lunático deriva a propósito da Lunar Society. A Lunar Society era formada por um conjunto de cientistas, industriais e técnicos britânicos no século 18, entre eles James Watt (o inventor da máquina a vapor) e Joseph Priestley (o descobridor do oxigénio) que se encontravam regularmente em Birmingham para discutir as inovações técnicas do seu quotidiano. Chamava-se a Lunar Society porque só tinham tempo para se encontrar à noite e como havia, na altura, pouca iluminação pública escolhiam fazê-lo apenas nas noites de lua cheia por consideração a quem viesse a pé. O termo lunático no entanto continua a ser pejorativo.
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