No seguimento do artigo escrito a semana passada pelo meu querido amigo Luís Costa, desejo ainda em sintonia com o mesmo tema da liberdade em todas as suas vertentes acrescentar um tópico que considero relevante para discussão.
Vivemos numa época de circunstâncias muito particulares no qual travamos uma guerra, acima de tudo ideológica, não contra uma nação ou nações mas contra um conjunto de pessoas que pretendem subverter o nosso estilo de vida e até moldá-lo de acordo com as suas necessidades.
Curioso assim que sejamos forçados a criar um falso mea culpa que nos impele a suprimir manifestações religiosas com receio de ofender outras sensibilidades confessionais, e a testemunhar diplomatas europeus a pedirem perdão na praça pública pela publicação de caricaturas que não são da sua autoria nem foram de todo sancionadas por nenhum governo ou entidade comunitária.
Ironicamente este deficit de liberdade que impomos a nós mesmos, ocidentais, para restringir a ofensa maliciosa e suprimir o ódio racial mesmo antes do 11 de Setembro começa agora a ser usado contra o próprio ocidente como arma ideológica.
Como foi amplamente noticiado na imprensa internacional (Telegraph, Spectator), o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad promoveu uma conferência no mês passado intitulada “Revisão do Holocausto: Visão Global” na qual se propunha “desmistificar” a visão do Holocausto Nazi na Europa e a dar voz a pessoas que, segundo o regime do Teerão, são silenciadas pelo ocidente, por terem a intenção de provar que o holocausto é simplesmente um mito ou que foi um ponto menos relevante do que nos é mostrado nos livros de história. Ahmadinejad salientou ainda aos oradores, no seu discurso de abertura, que “o Irão é o vosso lar e o lar de todos os que desejam liberdade no mundo [...] aqui podem exprimir livremente a vossa opinião numa atmosfera amigável”. Entre os oradores estavam presentes o americano David Duke, antigo líder do Ku Klux Klan, o escritor francês Georges Thiel, condenado a uma pena de prisão no seu país natal por disseminar teorias históricas que negam o holocausto, e uma seita de judeus anti-cionistas.
Na perspectiva do ocidental comum o evento passou nos media como algo folclórico, estupidificante e ofensivo. Claramente o regime de Teerão, com um dos piores índices de liberdade de associação e discurso livre no mundo árabe, tem uma agenda propagandista anti-Israel e que para este fim explora engenhosamente este filão de pessoas racistas. Mas na perspectiva de qualquer cidadão do Médio Oriente abre-se uma caixa de Pandora que até agora não tinha sido revelada: Afinal o mundo ocidental também não é livre! Pois se houvesse completa liberdade de expressão não haveria necessidade de proibir simbologia Nazi, propaganda anti-zionista ou de encarcerar pessoas como David Irving, que recentemente cumpriu uma pena de 3 anos de prisão na Áustria por escrever textos que refutam o holocausto.
O Irão desta forma quer assumir o seu cargo de superpotência local no Médio Oriente, não só com as suas aspirações nucleares, mas também reclamando para si o estatuto de contra-poder ao bloco EUA/Israel. Isto é concerteza algo que muitos na opinião pública árabe e muçulmana já terão pensado ou posto em evidência.
O que eu quero no fim de tudo isto concluir é o seguinte: Que estilo de liberdade queremos para nós mesmos ? Podemo-nos realmente intitular de livres ? Se por um lado queremos ser o bastião da liberdade – e eu acredito que, apesar de todos os nossos pecados de consciência, o somos – então precisamos de exorcizar todos os nossos fantasmas do passado e do presente e permitir que todos sem excepção tenham a liberdade de escrever o que pensam por muito absurdo, ridículo ou ofensivo nos pareça. Se não houver incentivo ao crime, à violência, ou o intuito de difamar qualquer indivíduo deve expressar as suas opiniões da maneira menos constrangida possível.
E quando falo exorcizar os nossos fantasmas falo tanto no bom como no mau. As maiorias religiosas não se devem inibir de manifestar com receio de ofender quem quer que seja. A liberdade de imprensa estende-se à ofensa e ao mau gosto se uma equipa editorial o considerar necessário. As pessoas têm o direito de serem politicamente incorrectas tal como os que pensarem o contrário têm a oportunidade de contrapor com os seus pontos de vista.
Senão arriscamo-nos a perder a nossa superioridade moral não só perante nós mesmos mas também perante os olhos da comunidade islâmica que sentirá menos respeito pela sociedade ocidental se esta for encarada como o reverso da medalha do regime de Teerão.
Porque se a liberdade não for a nossa principal bandeira ideológica na guerra contra o terrorismo então torna-se difícil explicar à opinião pública mundial, em particular à do mundo árabe, a causa pela qual nós lutamos e pela qual morrem soldados no Iraque e no Afeganistão.
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