Espaço  da responsabilidade da Comissão Política Concelhia de Odivelas do Partido Socialista

11

As encruzilhadas da Segurança Social

Miguel Cabrita

Sábado, 28 de Outubro de 2006

 

1.

Os sistemas de protecção social estão hoje sujeitos a intensas pressões, não só em Portugal mas em toda a Europa. Pressões que são internas, por via do envelhecimento (que coloca grandes dificuldades ao financiamento das pensões). Mas, também, pressões externas: a competição globalizada impõe à Europa aquilo a que se tem chamado um clima de "austeridade permanente", bem expresso nos problemas do défice e nos objectivos - inescapáveis - do  Pacto de Estabilidade e Crescimento.

Em Portugal, há pelo menos dez anos que a "reforma" da Segurança Social está em cima da mesa. Em 1996, o então ministro Ferro Rodrigues lançou a Comissão do Livro Branco que nos anos seguintes haveria de dar origem à perspectivação de caminhos possíveis de reforma. Os primeiros passos dessa reforma foram dados em 2001, num acordo com os parceiros sociais que abriu as portas à mudança. Porém, nos anos seguintes, sob Governo PSD/CDS, e apesar da retórica privatizadora e de uma Lei de Bases, nada foi feito. Pior: a conjugação da degradação da situação económica com a inacção política conduziu a uma antecipação em vários anos dos cenários de desequilíbrio financeiro do sistema.

Foi neste contexto que a reforma da segurança social, que já era urgente, se tornou inadiável, tendo como base medidas como: o cálculo de toda a carreira contributiva (e não apenas dos melhores dos últimos anos), introduzindo mais transparência; aceleração da convergência entre regimes, e em especial entre a função pública e o sector privado, condição elementar de equidade; introdução de um factor de sustentabilidade nas pensões, para defender a saúde do sistema; criação de uma fórmula de actualização das pensões, protegendo-as da manipulação política; entre vários outros elementos.

2. 

À semelhança do que aconteceu nos países com histórias de êxito na mudança dos seus modelos sociais, o Governo optou por conceber esta reforma com base num processo de diálogo de vários meses. Este método foi anunciado na Assembleia da República a todos os partidos e conduzido na Comissão Permanente de Concertação Social com os parceiros sociais, em busca de um consenso tão alargado quanto possível.

Em questões tão decisivas e que têm implicações sobre várias gerações, os consensos alargados são decisivos para o êxito das políticas e para a sua durabilidade. Espanta, por isso, que os partidos da oposição tenham escolhido ficar de fora do acordo que foi possível estabelecer entre representantes de empregadores e estruturas sindicais.

O PSD, que aliás tinha saído do Governo pouco mais de um ano antes, optou pelo silêncio durante meses, quem sabe na convicção de que o acordo não seria possível. Mas ele aconteceu mesmo e foi já em cima da conclusão das suas linhas gerais que Marques Mendes anunciou que "ia apresentar" uma proposta. É o que se chama ficar "fora de jogo" por escolha própria.

Já o PCP, optou pela solução mais fácil: explorar eventuais descontentamentos, lançar campanhas de rua e, no fundo, assumir a postura mais conservadora, a de não mudar nada.

Mas reflictamos um pouco sobre cada as posições destes partidos.

3.

Descontando o fracasso em toda a linha nos timings, o que dizer da "proposta concreta" do PSD?

O essencial reside na criação de contas individuais de capitalização para cada pessoa a partir de parte das suas contribuições para o sistema. Isto é, em vez de o dinheiro que cada um de nós vai descontando, todos os meses, para a segurança social servir para fazer face às despesas que o sistema tem hoje (i.e., nomeadamente pagar as pensões aos actualmente reformados), parte do dinheiro seria "guardado" em contas individuais cujo dinheiro seria usado para pagar, num futuro distante, a parte correspondente da reforma a cada cidadão.

O princípio da "capitalização", em si, nada tem de errado. O sistema, em vez de se estruturar numa lógica de "repartição" por todos e de solidariedades entre gerações e entre os membros do sistema (contribuintes e beneficiários), passaria a ser mais "individualizado". Podemos ou não gostar dessa opção, mas a esse nível a questão é fundamentalmente ideológica.

Subsiste, porém um "pequeno" problema prático. É que o dinheiro que seria "desviado" para essas contas individuais é essencial para se conseguir pagar as reformas dos pensionistas de agora. O sistema é jovem, acumulou reservas relativamente curtas e gera actualmente poucos ou nenhuns excedentes. Como tal, todos os recursos são necessários para fazer face aos compromissos assumidos; e, como é óbvio, o Estado não pode deixar de pagar as pensões das pessoas.

Ora, se parte do dinheiro das contribuições passa a ser desviado para uma conta cujos fundos só serão usados no longo prazo, o Estado tem forçosamente de gerar receitas alternativas para o presente e para as décadas que aí vêm antes de os fundos de capitalização serem mobilizáveis. É este o problema dos chamados "custos de transição" de um sistema para o outro.

O Estado teria de encontrar meios para sustentar estes custos de transição. E, perante este dilema, o PSD não tem dúvidas: o Estado deveria contrair dívida pública no montante necessário para cobrir o défice gerado (!). Uma solução simples, mas completamente irresponsável. Primeiro, porque estamos a falar dos descontos de milhões de pessoas e, por isso, de várias dezenas de pontos percentuais do PIB acumuladas ao longo dos anos (dependendo o cálculo da parte das contribuições que é subtraída ao sistema de repartição). No plano económico e do endividamento do Estado, seria tremendo.

Segundo, porque Bruxelas nunca aceitaria semelhante operação, nomeadamente no quadro dos estreitos limites hoje em dia impostos em termos orçamentais aos países. Se andamos a lutar palmo a palmo por décimas do défice, como poderíamos avançar de um momento para ou outro valores de endividamento que provavelmente andariam na casa das dezenas?

Mas, em terceiro lugar, mesmo que tudo isto fosse viável do ponto de vista Europeu e do ponto de vista económico, não deixa de ser espantoso que o partido que denuncia o "monstro" (que em larga medida criou), que critica o excessivo peso do Estado e os seus gastos, que insiste na retórica da necessidade de um Estado mais pequeno, afinal esteja disposto a, num piscar de olhos ditado pela conveniência do momento, embarcar na aventura de contrair uma dívida monstruosa para vigorar ao longo de décadas, uma dívida de grande valor acumulado e correspondentes juros. Sem cuidar sequer de explicar, aliás, como ela seria paga, daqui por muitos anos, pelas futuras gerações.

É tempo de ser claro: a opção entre um sistema de capitalização, um sistema de repartição ou um sistema misto deve ser ponderada. Mas quando os custos de transição de um sistema para outro põem em causa a sustentabilidade daquele que existe e/ou a sustentabilidade das finanças públicas, essa variável não pode deixar de ser incluída na análise. Como todos os bons princípios, a "capitalização" só pode ser levado à letra se e até onde se conseguir provar que as consequências são positivas; ou pelo menos se for possível provar que não são negativas, nem põem em causa um sistema que é de todos.

É este o dilema do PSD. No estado actual da discussão, a insistência de Marques Mendes não é mais do que uma teimosia táctica, com base num enviesamento ideológico da questão de fundo. Não é aceitável que discutamos o futuro das pensões de várias gerações de portugueses em tal base&ldots;e, aparentemente, sem se preocupar em fazer contas, ou pelo menos em tirar delas as devidas ilações. 

4.

O PCP tem optado por outra estratégia. Propostas novas, poucas ou nenhumas se conhecem: apenas a velha "defesa" do sistema na base de que "as pensões não podem baixar", como se lê em cartazes nas ruas.

Vários equívocos: primeiro, as pensões não vão baixar. Nem as que hoje são pagas (essas não sofrem alterações), nem as das pessoas que virão a receber no futuro. Vão, simplesmente, crescer menos do que cresceriam se nada fosse feito. E vão crescer menos em virtude de mudanças que são justas, porque acautelam a transparência e a equidade do sistema. Mais: mesmo depois de plenamente aplicadas todas as medidas de reforma, no longo prazo as taxas de substituição dos rendimentos (i.e. a relação média entre salários auferidos e pensão recebida) estarão, então sim, em linha com os países europeus mais desenvolvidos. Será que os países escandinavos têm maus sistemas de pensões?

Segundo, a ideia de que é possível não mudar. Mas porque será que virtualmente todos os países europeus têm ao longo dos últimos anos desenvolvido reformas profundas da sua protecção social? Tratando-se de questão tão melindrosa, que tanto mexe com as pessoas e com as inclinações eleitorais, será que os Governos não teriam preferido ficar sossegados e adiar (ou esquecer) a necessidade de mudanças, por vezes dolorosas? Se os equilíbrios demográficos e as condições globais mudaram tanto, é impossível não reagir.

Terceiro, e relacionado com isto, é preciso que fique bem claro: não mudar é condenar o sistema à morte. Com a retórica da "não mudança", o PCP fala sobretudo para contentar a sua clientela e para atrair potenciais descontentes, lutando assim para preservar um espaço eleitoral no curto prazo. Mas ao fazê-lo sacrifica, no longo prazo, os interesses dos milhões de pessoas que dependem dos rendimentos do trabalho (e das pensões no fim da vida) para viver de forma digna. Isto é, os interesses vitais daqueles que diz representar.

5.

A estratégia do Governo foi clara desde o início: construir uma agenda de reforma baseada na procura de equilíbrios, discutida com os parceiros sociais e capaz de gerar consensos duradouros com base em dezenas de medidas que tocam nos nós decisivos do sistema. Objectivo fundamental: a sustentabilidade do sistema de segurança social.

O contraponto não é positivo: de um lado, uma proposta tardia, pouco fundamentada e inviável, que se baseia numa escolha ideológica respeitável mas que compromete a sustentabilidade do sistema (ou a saúde das finanças públicas); do outro, a manifesta ausência de vontade de mudar - muito respeitável também, diga-se, não se desse o caso de ser fundamental mudar para que o essencial (a segurança social pública) possa permanecer.

Em política, as consequências das escolhas, as responsabilidades que elas acarretam e as consciências dos protagonistas, ficam com cada um dos actores políticos. Mas, também e sobretudo, com os cidadãos.

Comentários:

Maria da Luz Nogueira

Caro Miguel Cabrita

Em primeiro lugar, registo que afinal não desconhecia as propostas do PCP, simplesmente as ignorou (não é um “desqualificativo gratuito”, é uma constatação).

Quanto à autoria da taxa sobre o VAB, refiro apenas que o PCP apresentou pela primeira vez essa proposta em 2002. Voltou a fazê-lo em 2005 (tendo merecido o voto contra por parte do PS, PSD e CDS) e neste momento encontra-se em discussão na Comissão de Trabalho e Segurança Social. Somos persistentes, é um facto!

Se outros partidos entretanto apresentaram proposta idêntica, é bom sinal, o que não lhes confere é qualquer exclusivo na matéria.

Posto isto, vamos à “substância”. 

A diversificação das fontes de financiamento da segurança social está prevista na respectiva Lei de Bases desde 2000, no tempo em que o PS também era Governo. Surpreendentemente (ou talvez não), a Lei que o PS agora aprovou nada introduz a esse respeito.

Pelo contrário, mantém um modelo de financiamento que foi estabelecido há cerca de 50 anos, assente nas contribuições das empresas com base na massa salarial.

Ignorou que, fruto do progresso tecnológico, a realidade das empresas sofreu profundas alterações com a consequente redução da mão-de-obra. Logo, o que era válido há décadas está ultrapassado nos dias de hoje. O trabalho intensivo deu lugar ao capital e conhecimento intensivo, permitindo que as empresas com poucos trabalhadores e, por consequência, com um peso reduzido em remunerações, tenham elevados rendimentos e contribuam menos para o esforço de solidariedade social que constitui o pilar do Estado Social.

O título exemplificativo refira-se que, de acordo com dados do Banco de Portugal, em 1975 a parcela das remunerações sujeita a contribuições para a Segurança Social incidia sobre 58,9% da riqueza anual criada por cada trabalhador, ao passo que em 2004 essa proporção se situava em 39,9%.

Como demonstram os números o argumento da “dupla taxação das empresas” é falacioso. Do ponto de vista das empresas, diria antes que este modelo é penalizador para aquelas que criam mais empregos.

Trata-se de introduzir mecanismos de equidade e justiça social que contribuam para corrigir os problemas estruturais geradores de pobreza e exclusão de que tanto se fala, mas que tão pouco se faz para erradicar.

09-11-06 - 23h00

Miguel Cabrita

Cara Maria Luz Nogueira:

Agradeço o seu comentário, mas não lhe devolverei a acusação de "ignorância ou má-fé" por uma questão de educação. Prefiro centrar-me na substância, e não em desqualificativos gratuitos dos interlocutores.

Sobre os conteúdos, só posso notar que não faz qualquer referência à "substância" dos argumentos que apresento. Faço também notar que a frase que utilizo é "propostas novas, poucas ou nenhumas"; porque, de facto, a proposta do VAB não é nova - o Bloco de Esquerda tem feito uso dela amiúde desde há algum tempo a esta parte (tal como da famigerada "taxa tobin", ou afins).

Ora, essa proposta tem pelo menos três problemas, um de natureza institucional, outro de ordem política, outro de ordem ideólógica.

O primeiro é que a segurança social é um sistema de protecção de riscos (a velhice e a inactividade, por exemplo) relativo a carreiras de pessoas, e portanto naturalmente com base nos rendimentos e descontos das pessoas que vão sendo feitos ao longo da vida (e, já agora, co-suportados pelas entidades patronais). Mas mesmo que este problema pudesse ser resolvido e que se encontrasse uma fórmula equilibrada para distribuir por diferentes trabalhadores o produto dessa incorporação, subsistem dois outros problemas: o facto de isto representar uma  dupla taxação das empresas, aumentando a carga fiscal destas sobre uma área para a qual já contribuem e desincentivando assim a sua competitividade; e, não o esqueçamos, o sinal dado, ao tributar os lucros das empresas que mais valor acrescentado geram quando valor acrescentado e protecção social de riscos individuais não estão necessariamente ligados.

06-11-06 - 19h30

Maria da Luz Nogueira

Estamos num país livre e democrático em que cada um tem o direito de defender as sua opções e justificar como entende as medidas do governo.

Mas, a liberdade e a democracia implicam (ou deviam implicar) ética política. Afirmar que o PCP  apresenta "poucas ou nenhumas" propostas para o financiamento da Segurança Social só pode ser ignorância ou má fé. &nbsp;<br />Para que não pairem dúvidas, o PCP apresentou no passado mês de Setembro o projecto de lei 156/X, precisamente sobre a diversificação das fontes de financiamento da Segurança Social. Do conjunto de propostas aí contidas, a mais emblemática consiste na aplicação às empresas de uma taxa sobre o Valor Acrescentado Bruto. O PS regeitou, o Primeiro Ministro afirmou alto e bom som no debate da Assembleia da República que não concordava com tal medida. Claro! é sempre mais fácil afrontar aqueles que não têm alternativa, que vivem apenas do seu salário ou reforma.

É bom lembrar que a segurança social é financiada apenas com base nos salários, ora as empresas com poucos trabalhadores e tecnologia avançada têm elevados lucros sem que daí resulte qualquer comparticipação para o sistema solidário de Segurança Social.

Em suma, a reforma do governo socialista dá aos trabalhadores três opções: trabalhar mais tempo (aumentando a idade da reforma), receber uma pensão mais baixa (o tal factor de sustentabilidade)ou descontar mais enquanto estiver a trabalhar.             

Ainda não perceberam que é isso que se contesta rua?!

30-10-06 - 13H30

CARLOS  FORTES

O acordo celebrado entre o Governoi e os Parceiros Sociais, dá-nos razões para encararmos o futuro da Segurança Social com mais optimismo e maior responsabilidade. Aqueles que acusavam o Govoerno de pouco fazer no campo da reforma da Segurança Social, ai têm a resposta.

30-10-06 - 13H30

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