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O Regresso ao passado do PCP

  • O povo português habituou-se a ver o PCP como um partido altamente centralista e onde discussão de qualquer tema nunca foi aberta mas sim orientada. E, como sabemos, em discussões orientadas nunca pode haver debate livre. Aliás, a expressão "controleiro" é uma expressão tristemente célebre pois só um partido onde o debate não existe pode ter militantes com a função de "controleiro"...
  • Ao longo dos anos foram-se abrindo brechas significativas no reduto dirigente do PCP. Em alguns momentos chegou-se a pensar que uma verdadeira mudança estaria para acontecer. A verdade é que essa mudança nunca chegou. A esmagadora maioria dos oponentes à linha oficial do Comité Central (por maior destaque que a sua competência política evidenciasse) acabava ou desacreditada e destruída perante a opinião pública, ou integrada noutros partidos já existentes ou, ainda, integrada em associações cívicas criadas ad-hoc e sem grande relevo. No fundo, para os comunistas a cidadania fora das orientações do Comité Central era quase impossível de ser exercida. Pelo menos em nome do PCP.
  • Com a aparição de Jerónimo de Sousa chegou a pensar-se que algo poderia mudar. Mas a poeira assentou. A verdade é que começa a ficar claro que o PCP não consegue abandonar o seu vício de origem: quem não pensa e age de acordo com as normas do seu Comité Central tem de ser afastado dos cargos importantes ou relegado para o silêncio perante a comunicação social e o país. Ou sair do partido, claro.
  • Recentemente houve três casos que abalaram a opinião pública: Luísa Mesquita, Odete Santos e Abílio Fernandes. Três deputados respeitados por todos foram convidados a abandonar o seu lugar na Assembleia da República. Cada caso será um caso mas a verdade é que já se percebeu que todos eles (nomeadamente Luísa Mesquita e Odete Santos) estavam a tornar-se incómodos e a actuar de forma pouco adequada aos interesses do PCP. Não somos nós que dizemos ou supomos: é o próprio PCP que o afirma. No caso, aliás, de Luísa Mesquita vai ao ponto de ser efectuada uma conferência de imprensa e de anunciar que lhe serão retiradas os apoios técnicos (pagos pelo Estado) que lhe permitiriam a realização do seu trabalho de deputada. No fundo, todos ainda nos lembramos, também, do que aconteceu a João do Amaral, a Carlos Brito e a tantos outros. O Comité Central do PCP acha que se pode substituir ao voto do povo que diz defender.
  • Os portugueses começam a perceber que apesar de existirem listas de candidatos do PCP apresentadas a eleições o seu voto de nada serve nem nenhuma força tem. De facto, o PCP, por sua discricionária decisão, sempre que o Comité Central acha que algo devia correr de outra forma leva a que os deputados eleitos nas suas listas sejam convidados a sair ou, pura e simplesmente, corre-os das funções para que foram eleitos.
  • Para o PCP pouco importa em quem os eleitores votam: a única coisa que importa é a sigla, o emblema, onde votam. Mas até aí aconselhamos cuidado: o PCP nunca se apresenta a eleições com o seu símbolo natural. Esconde-se atrás de um equívoco símbolo e de uma equívoca coligação a que chama de CDU: a forma politicamente correcta de retirar a foice e o martelo do seu emblema. Não se pode dizer, também aqui, que seja um acto de transparência. O que se pode dizer é que o PCP iniciou uma viagem de regresso ao seu saudoso passado. Em grande velocidade.
Mário Máximo
Publicado em 06-11-06

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