
Começo por apresentar a minha declaração de interesses lecciono numa Universidade Privada vai para 15 anos. Tal facto, porém não me impede de usar a isenção que me for intelectualmente possível.
Conheço bem o sistema de ensino público e privado, secundário e universitário. Levo 28 anos de profissão docente exercida com paixão e alento, mas também, tantas vezes(!) com desalento e com dor, quer no público, quer no privado, quer no secundário, quer no superior.
Portugal é um país de (pré)conceitos, do politicamente, eticamente, culturalmente, gastronomicamente, ecologicamente, religiosamente, etc., correcto. Gostamos de estar com os deuses, com o que fica bem e detestamos o conflito, a discussão, a incomodidade. Maça-nos, inquieta-nos em suma, tal como Damaso, gostamos de ser chiques e estar na moda.
Uma das modas que há muito se instalou é dizer mal do ensino privado, tout court. Como se fosse tudo igual, como se a prática pedagógica das Universidades Privadas e as Cooperativas ou as Empresas que as suportam também fossem a mesma coisa. E agora coisa terrível: um 1º Ministro de Portugal, segundo um comentador, o melhor 1º Ministro de Portugal desde há 150 anos, um 1º Ministro determinado, inteligente, que brilha no Parlamento e não desce nas sondagens licenciou-se numa privada! E logo em Engenharia!
A inteligência portuguesa, uns rapazes (e raparigas) que por aí constituem o lobie da cultura, dos média, da arte, etc. entraram em pânico. Licenciados das privadas a chegarem ao poder! E ainda por cima bons!
Este é o verdadeiro cerne da questão.
Mas não há razão para ser assim, a não ser por esta pouca capacidade que temos em romper com os (pré)conceitos e que normalmente usamos como se fossem brilhantes conceitos formados por nós.
Olhemos então um pouco melhor, segundo a minha opinião, esta questão.
As Universidades Privadas tiveram, e têm, um papel preponderante na democratização do ensino superior. Se nos lembramos que nos idos anos 80, até aparecerem as privadas, um aluno que não tivesse média não podia prosseguir os seus estudos a não ser no estrangeiro, constataremos o papel determinante das privadas, na democratização do ensino superior.
As Universidades Privadas, por outro lado, tiveram uma acção de motor do Ensino Superior. É que as privadas obrigaram as públicas a um dinamismo que provavelmente não conseguiriam se não fossem empurradas. Mesmo assim, faculdades de Universidades Públicas há que se mantêm em estado de hibernação pelo menos há 20 ou 30 anos. Resultado, jovens licenciados por essas faculdades não conseguem lugar no mercado de trabalho. Ao invés de se modernizarem, adaptarem, inovarem as faculdades, de que falo, mantiveram-se com sábias e vetustas criaturas no alto do seu pedestal. Os seus professores, muitos deles admitidos a seguir ao 25 de Abril por razões circunstanciais, políticas, revolucionárias e, obviamente, também de mérito, assim que se doutoraram, deixaram de dar aulas às licenciaturas, leccionando só a mestrandos e doutorandos, deixaram de investigar e, pior, deixaram de publicar.
Os jovens universitários de hoje, pelo menos nalgumas faculdades, não têm o privilégio que eu tive de aprender com os grandes professores, que nos transportavam para o mundo de conhecimento quase sem nos apercebermos, que nos despertavam, que nos faziam apaixonar por aprender.
Que fazem então alguns desses senhores das universidades públicas, já que não se preocupam em seduzir os jovens aprendizes, nem, em publicar obra?
Bom, além de se seduzirem a si próprios, dão aulas a mestrandos, orientam teses quando não desorientam, e quando lá põem os pés, viajam com bolsas do Estado para congressos dos quais não têm que apresentar quaisquer elementos de relatório, avaliação ou outros e … dão aulas nas universidades privadas onde, pelo menos os nomes mais sonantes, são regiamente pagos!
Eis o ponto que eu queria referir: os professores das públicas são, na esmagadora maioria os mesmos das privadas, aliás, o Estado para travar os professores turbo (lembram-se?) teve que pagar dedicação exclusiva.
Os alunos sim, os alunos são diferentes. Seguramente têm quase todos médias mais baixas, mas muitos aprendem a dedicar-se, entusiasmam-se e vão mais longe. E mesmo que não saiam brilhantes, saiem melhor do que entraram, mas nas públicas saiem todos brilhantes? Nas privadas os professores quase não faltam e raramente há motivos para não haver aulas. Curioso que a queixa dos portugueses contra as privadas nunca é no desempenho profissional, mas somente na prática pedagógica.
Note-se que isto não é um ataque ao ensino público. Há excelentes Universidades Públicas. Há Universidades Públicas que têm boas e também menos boas faculdades. Mas situar a questão pública é bom, privada é mau, parece puro disparate. Há, aliás, ensino privado melhor que público e público melhor que privado, temos que saber se falamos de ensino laboratorial, de investigação, de gestão, de económica, de arte, de medicina (aqui não há privado e os médicos são todos bons?), etc.
Resta a última questão, essa sim preocupante: o problema do privado não é o seu ensino, mas parece ser o das Empresas ou Cooperativas que suportam as Universidades Privadas. Olhando para os tristes exemplos da Moderna e agora da Independente, parece não haver controle, regras, fiscalização suficiente nas Empresas ou Cooperativas que as suportava. É sempre por aqui que a bronca rebenta.
Criem-se regras claras, fiscalize-se e controle-se, através de mecanismos institucionais credíveis e deixemos o ensino privado seguir o seu caminho, até porque seguramente só ficarão as melhores Universidades. E, recorde-se, não há país civilizado que não tenha ensino superior privado e, também como cá, um melhor outro menos bom, mas o seu papel é reconhecido por todos.
Nos Estados Modernos, com sociedades abertas como o nosso, a escolha do modelo de ensino, público ou privado, é visto como um direito inalienável dos cidadãos, porque permite, de facto, o exercício da escolha, da vontade, condição indispensável da liberdade.
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