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Dez anos de Rendimento Mínimo em Portugal

Miguel Cabrita

Terça-feira, 22 de Agosto de 2006

1. Completou-se há pouco tempo uma década da promulgação da Lei que instituiu pela primeira vez a garantia de um rendimento mínimo entre nós. É uma data que merece, por muitas razões, ser assinalada.

Portugal era, já então, um dos poucos países da Europa em que não existia uma medida deste tipo. Apesar disso, o Rendimento Mínimo Garantido (RMG) foi na altura objecto de uma intensa controvérsia: sobre a bondade da sua introdução, sobre a sua exequibilidade no terreno e sobre a capacidade institucional e financeira do Estado de o sustentar.

Tal discussão esteve, aliás, no centro do debate eleitoral de 1995, onde funcionou como marco de clara divisão ideológica entre o PS de António Guterres e os restantes partidos, com o PSD à cabeça. Contra um coro de críticas da direita (e, não o esqueçamos, reservas significativas por parte da esquerda), o RMG acabaria por avançar logo em Junho de 1996. Primeiro em projectos-piloto localizados, durante o período experimental de um ano, depois de forma generalizada.

2. O que se passou nos anos que se seguiram é conhecido: o êxito global da medida e um progressivo consenso sobre a sua necessidade.

Provou-se, no terreno, que era exequível, e muito vantajoso, introduzir um esquema deste tipo num dos países com maiores índices de pobreza e de desigualdade na Europa.

A polémica, por seu turno, foi sendo alimentada ao longo dos anos, garantindo visibilidade quase contínua ao RMG - instrumentalizando-o como arma de arremesso e símbolo de clivagens ideológicas.

O mapa de tais clivagens, porém, transformou-se significativamente. À esquerda as reservas tornaram-se cada vez menos audíveis; e à direita o consenso (ou pelo menos consentimento) estendeu-se ao PSD, que abandonou a oposição militante ao RMG.

O CDS ficou, nesse quadro, isolado no papel de "oposição" assumida - de que o partido se apropriou, aliás, como trunfo eleitoral e símbolo  de identidade partidária. Mas nem mesmo quando o partido ocupou durante dois anos, por intermédio de Bagão Félix, a pasta da Segurança Social no Governo de Durão Barroso se atreveu a extinguir a prestação.

Mudaram-lhe o nome para Rendimento Social de Inserção; mudaram transitoriamente algumas das normas, introduzindo factores burocratização, injustiça e penalização; viu assim ameaçado algum do seu potencial de intervenção

Mas o facto é que sobreviveu. 

3. Depois de tantos anos de sucessivos ataques à sua legitimidade, o RMG/RSI sobreviveu até hoje. Este facto, aparentemente simples, deve significar alguma coisa.

A longevidade do RMG/RSI é, em si mesma, um sinal de como a sedimentação e a legitimidade do tipo de intervenção que introduziu, como algo fracturante, há dez anos é hoje um dado praticamente adquirido. Só isto é já um ganho importante na óptica da modernização do país e da maturidade do seu modelo de protecção social.

Não devem, evidentemente, ser desvalorizadas as questões críticas da aplicação do RMG, nomeadamente na relação entre Estado e beneficiários; questões que são, de resto, partilhadas pelas experiências de outros países, nomeadamente no Sul da Europa, e comuns a outras esferas das políticas públicas no nosso país.

Mas, uma coisa é certa: não restam dúvidas de que o RMG inaugurou uma nova lógica de garantia de mínimos sociais em Portugal. E que, com ela, se inaugurou uma nova relação entre Estado e cidadãos e um patamar mais avançado na cobertura de riscos da protecção social. Na altura sob forte contestação, hoje como dado adquirido, mudança que evidencia bem o longo caminho que percorremos em apenas uma década.

Por outras palavras, e para além dos seus efeitos concretos, o RMG foi também um passo decisivo, e profundamente simbólico, rumo à modernização e ao desenvolvimento do país, na sua vertente social. É bom que, dez anos depois, não o esqueçamos.

Comentários:

António Anjos Ferreira

A objectividade, a coerência, o conhecimento e a frontalidade nunca fizeram mal a ninguém.

E esta é uma prova disso mesmo.

Parabéns ao autor do artigo.

Sobre a medida tomada há 10 anos, seria interessante pesquisar, depois de tantos anos a ver os "combóios passar" qual outra de tamanho alcance na Segurança Social. Teve (tem?) erros? Admito. Foi por vezes menos bem aplicada? Também admito.

Mas mesmo sendo isto do conhecimento do seu autor (a perfeição é difícil), a ideia vingou. E para ficar. O benefício compensa. Porque sempre valeu fazer qualquer coisa, mesmo com algumas imperfeições, DO QUE NÃO FAZER NADA E SÓ FALAR.

Carlos Pinto

E em jeito de pequena homenagem ao seu "criador", uma passagem elucidativa:

(...)Houve fraudes e houve milagres. Nem apocalipse nem paraíso. Nove anos depois, o RMG/RSI sobreviveu aos populismos, às instrumentalizações políticas e à sua tentativa de aniquilação administrativa e já nem é notícia. O que é uma óptima notícia.

Há,segundo avaliações independentes, um dado indesmentível: é recebido pelos mais pobres de entre os pobres e é eficaz no combate à severidade da pobreza.(...)

Paulo Pedroso in
www.ocanhoto.blogspot.com,
01.07.2005

Carlos Fortes

É um artigo de qualidade que nós Socialistas muito nos orgulhamos.

 

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