19 de março: Dia do Pai







Em Portugal o Dia do Pai celebra-se a 19 de março. Para também celebrar este dia o Diário de Odivelas apresenta algumas informações sobre esta celebração e os seus porquês.

 As Origens: Do Sagrado ao Afeto

Comecemos com as origens.

A celebração da figura paterna tem duas grandes vertentes:

  • A Tradição Religiosa: Nos países de matriz católica (como Portugal, Espanha e Itália), a data está ligada a São José, o pai adotivo de Jesus. A Igreja celebra-o a 19 de março desde o século XV, vendo nele o modelo ideal de proteção, trabalho e dedicação à família.
  • A Tradição Moderna: Nos EUA, a ideia surgiu em 1909, quando Sonora Smart Dodd quis homenagear o seu pai, um veterano da Guerra Civil que criou seis filhos sozinho. Esta versão “civil” acabou por se espalhar pelo mundo, mas é celebrada no terceiro domingo de junho.

Porquê 19 de março e São José?

A escolha desta data em Portugal não é arbitrária. São José é considerado o “Padroeiro das Famílias” e o exemplo máximo de paternidade. No contexto bíblico, ele não era o pai biológico de Jesus, o que reforça uma mensagem muito bonita: ser pai é uma questão de amor, cuidado e presença, independentemente dos laços de sangue.

Celebrações em Portugal e no Mundo

Em Portugal

Por cá, o dia é vivido com proximidade. É tradição:

  • Presentes feitos à mão: Nas escolas, as crianças dedicam semanas a criar trabalhos manuais (as famosas gravatas de cartão ou molduras de massa de sal).
  • Almoços de família: Reunir a família à volta da mesa é o ponto alto.
  • O “Pai”: O foco mudou de uma figura de autoridade rígida para uma de companheirismo.

Pelo Mundo

Nem todos celebram hoje. O calendário varia muito: Portugal, Espanha, Itália,  19 de março, uma ligação direta a São José. No Brasil é no segundo domingo de agosto, em honra de São Joaquim (pai de Maria).  Nos EUA, Reino Unido e França é celebrado no  3.º domingo de Junho, com origem no movimento de Sonora Dodd. Na Alemanha, celebra-se no Dia da Ascensão. É tradição os homens saírem à rua com carrinhos de mão cheios de comida e bebida.

Em Portugal, o 19 de março foi feriado nacional durante muitos anos. Hoje, embora não seja feriado oficial, continua a ser um dos dias mais celebrados no calendário afetivo dos portugueses.

São José

Falemos agora de São José, uma das figuras mais fascinantes da tradição cristã, precisamente por ser o homem do silêncio. Curiosamente, não existe uma única palavra dita por ele registada nos Evangelhos. Tudo o que sabemos vem das suas ações e da tradição que se seguiu.

  1. O Perfil Bíblico: O Homem Justo

Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, José é descrito como um homem justo (tzadik, em hebraico). No contexto da época, isto não significava apenas que era “bonzinho”, mas que era alguém que cumpria a Lei de Deus com total integridade, mas sempre com misericórdia.

  • A Linhagem Real: José era da casa de David. É através dele que Jesus recebe a herança legal e messiânica de “Filho de David”.
  • O Sonhador: Tal como o José do Antigo Testamento (o do Egito), São José comunica com Deus através de sonhos. Ele recebe quatro avisos angélicos cruciais: para aceitar Maria, para fugir para o Egito, para regressar a Israel e para se desviar para a Galileia.
  1. A Profissão: O “Tekton”

Tradicionalmente chamamos-lhe “carpinteiro”, mas a palavra grega original é “Tekton”.

  • Este termo era mais amplo: designava um artesão ou mestre de obras que trabalhava com madeira, mas também com pedra ou ferro.
  • Em Nazaré, uma aldeia pequena e pobre, ele seria o homem que construía desde ferramentas agrícolas a estruturas de casas. Jesus não foi apenas seu filho; foi seu aprendiz, herdando a dignidade do trabalho manual.
  1. Jovem ou Idoso?

Existem duas formas principais de o representar na arte e na teologia:

  • A Tradição Apócrifa (Idoso): Textos antigos não oficiais (como o Protoevangelho de Tiago) descrevem José como um viúvo idoso com filhos de um primeiro casamento. Esta visão servia para reforçar a virgindade de Maria.
  • A Visão Moderna (Jovem): Muitos teólogos modernos (e o Papa Francisco) preferem imaginá-lo como um jovem forte e corajoso. Afinal, seria necessária muita energia física para caminhar centenas de quilómetros a pé até ao Egito para proteger a família.
  1. Simbolismos na Iconografia

Quando olhar para uma imagem de São José, repare nestes detalhes:

  • O Lírio: Representa a sua pureza e a escolha divina (diz a lenda que o seu cajado floresceu com lírios quando foi escolhido para esposo de Maria).
  • O Menino ao Colo: Ao contrário de outras figuras, José segura Jesus não como um adereço, mas com proteção. Frequentemente, ele olha para baixo, simbolizando a sua missão terrena de guarda.
  • As Ferramentas: Esquadro ou serrote, simbolizando o trabalho que santifica o quotidiano.
  1. Padroeiro de Causas Universais

Pela sua história, ele acumulou “títulos” importantes:

  • Padroeiro da Igreja Universal: Declarado em 1870 pelo Papa Pio IX.
  • Padroeiro dos Trabalhadores: Celebrado também a 1 de maio (S. José Operário).
  • Padroeiro da “Boa Morte”: A tradição diz que José morreu antes de Jesus iniciar a vida pública, nos braços de Jesus e Maria. Por isso, é a quem se recorre para pedir uma passagem serena desta vida.

Em 2021, o Papa Francisco escreveu a carta Patris Corde (“Coração de Pai”), onde descreve José como um “pai na sombra”, aquele que não quer ser o protagonista, mas que é essencial para que a vida do filho floresça.

Em Portugal, a devoção a São José está profundamente enraizada na cultura popular e na arquitetura religiosa.

Orações Tradicionais a São José

Existem orações para diferentes momentos, desde a proteção da família até à procura de trabalho.

A Oração da Família

Esta é talvez a mais rezada no dia 19 de março:

“Lembrai-vos, ó puríssimo esposo da Virgem Maria, meu doce protetor São José, que jamais se ouviu dizer que alguém tivesse invocado a vossa proteção e solicitado o vosso auxílio sem ter sido por vós consolado. Com esta confiança, venho à vossa presença e a vós fervorosamente me recomendo. Olhai pela minha família, protegei os nossos passos e ensinai-nos a cuidar uns dos outros com o mesmo amor com que cuidastes de Jesus e Maria. Amém.”

Oração ao “Operário” (para o Trabalho)

Muitos fiéis recorrem a ele quando atravessam dificuldades profissionais:

“Glorioso São José, modelo de todos os que se dedicam ao trabalho, obtende-me a graça de trabalhar com consciência, pondo o cumprimento do dever acima das minhas inclinações; de trabalhar com gratidão e alegria, considerando honra o utilizar os dons recebidos de Deus. Amém.”

Igrejas e Lugares de Culto em Portugal

São José dá nome a inúmeras paróquias, mas alguns locais destacam-se pela sua história ou beleza:

  • Igreja de São José dos Carpinteiros (Lisboa): Situada perto da Rua de São José, é a sede de uma das mais antigas confrarias da cidade. O seu interior é uma joia do barroco, com azulejos que narram passagens da vida do Santo.
  • Igreja de São José (Coimbra): Uma igreja imponente que é o coração da celebração do Dia do Pai na cidade dos estudantes.
  • Santuário de São José de Ribamar (Póvoa de Varzim): Localizado junto ao mar, este santuário é um ponto de peregrinação muito forte no norte de Portugal, especialmente para quem pede proteção nas tempestades (tanto do mar como da vida).
  • Capela de São José (Santarém): Integrada no complexo do antigo Convento de São Francisco, mostra como a devoção atravessa os séculos na arquitetura gótica e manuelina.
  • Curiosidades Populares Portuguesas

  • O “Pau de São José”: Em algumas zonas rurais, existia a tradição de plantar um ramo de flor (geralmente uma fava ou um lírio) neste dia. Se florescesse cedo, dizia-se que o ano seria de boas colheitas.
  • Gastronomia: Embora não haja um prato único nacional, em muitas regiões de Trás-os-Montes e Beiras, o almoço de São José é tradicionalmente acompanhado por arroz de cabidela ou assados de cordeiro, celebrando o fim do inverno.

    José na pintura portuguesa

A representação de São José na pintura portuguesa é um espelho da própria evolução da nossa história e da forma como vemos a família. Durante séculos, ele foi “secundário”, mas com o tempo ganhou um protagonismo fascinante.

  1. O “Pai Galã” vs. O “Velhinho”

Nas pinturas mais antigas (Idade Média e início do Renascimento), José aparecia quase sempre como um homem muito idoso, calvo e a dormir num canto da cena do Nascimento de Jesus.

  • O objetivo: Mostrar que ele era apenas o “guardião” e não o pai biológico.
  • A Mudança: A partir do século XVII, influenciados pela Contrarreforma, os pintores portugueses começaram a pintá-lo como um homem jovem, vigoroso e de barba escura. Ele passa a ser o protetor ativo, capaz de carregar o Menino e fugir para o Egito.
  1. A Escola de Viseu e Grão VascoUm dos maiores tesouros da pintura portuguesa está no Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu.
  • Na obra Adoração dos Magos, de Vasco Fernandes (Grão Vasco), São José é representado com um realismo incrível. Ele aparece com traços marcadamente portugueses, segurando uma bengala e observando a cena com uma mistura de humildade e espanto.
  • Repare no detalhe: ele é muitas vezes pintado com roupas de cores terra ou amarelas, simbolizando a sua ligação à humildade e ao trabalho no mundo material.
  1. O “Menino pela Mão” (A Caminhada)

Uma imagem muito comum no barroco português (séculos XVII e XVIII) é a de São José a levar o Menino Jesus pela mão.

  • Esta representação é muito terna e rompe com a ideia do Menino apenas no colo de Maria.
  • Em muitas igrejas portuguesas, encontras pinturas onde José ensina Jesus a caminhar ou a segurar uma ferramenta, reforçando o seu papel de educador.
  1. Josefa de Óbidos: A Doçura Barroca

A famosíssima pintora Josefa de Óbidos deu a São José um toque muito especial. Nas suas telas:

  • As faces são rosadas, o olhar é doce e há uma grande proximidade física entre o Santo e o Menino.
  • Ela gostava de pintar naturezas-mortas ao redor, como cestos com flores ou frutas, humanizando a Sagrada Família e aproximando-a do quotidiano das casas portuguesas da época

O Lírio “Prodígio”

Na pintura portuguesa, é raro ver São José sem o seu cajado florido com lírios brancos.

  • A lenda: Segundo a tradição, quando se procurava um noivo para Maria, o cajado de José floresceu milagrosamente no templo, indicando que ele era o escolhido de Deus.
  • Na arte, o lírio não é apenas uma flor; é o símbolo da sua castidade e eleição divina.

Onde ver estas obras ao vivo?

Se tiver oportunidade, estes são os melhores locais em Portugal para apreciar a arte dedicada a São José:

  1. Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa): Com painéis maravilhosos do século XVI.
  2. Museu Nacional Grão Vasco (Viseu): Para ver o José “humanizado” do Renascimento.
  3. Igrejas Barrocas do Norte (Braga e Porto): Onde a talha dourada molda pinturas de um José triunfante e protetor.

Texto elaborado com ajuda, na pesquisa, do Gemini, da Google

Imagem gerada pelo Copilot, da Microsoft

  • Diário de Odivelas - Redação

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