
Celebrou-se no passado dia 22 de março, o Dia Mundial da Água, uma data criada pelas Nações Unidas, em 1992, e que pretende sensibilizar as populações para a importância da água e para a necessidade de preservá-la para as futuras gerações.
Em 2025, e pela primeira vez, a ONU apelou à “Preservação dos Glaciares”, com o objetivo de aumentar a consciencialização sobre o papel vital que os glaciares, a neve e o gelo desempenham e destacando o impacto das mudanças climáticas no ciclo da água e na disponibilidade desse recurso para milhões de pessoas.
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), as alterações climáticas estão a provocar recordes no derretimento dos glaciares e na subida do nível do mar.
Poderemos perder metade dos glaciares da Terra até 2100, devido às emissões de CO2, que estão a fazer subir as temperaturas, alertam-nos os cientistas.
Imagem de Margo Tanenbaum por Pixabay
Ora, os glaciares são reservas essenciais de água doce. Cerca de 70% da água doce do mundo está armazenada nos glaciares, sendo a principal fonte de água potável para muitas populações.
Além de terem grande responsabilidade no equilíbrio climático e ambiental, pois refletem a luz solar, ajudando a manter as temperaturas globais equilibradas, os glaciares fornecem água para consumo humano, irrigação, produção de energia e indústrias, e mantêm rios e lagos abastecidos, garantindo a sobrevivência da fauna e da flora.
Acontece que os glaciares estão a derreter com uma rapidez sem precedentes, o que acarretará consequências nefastas para o clima global e para a Humanidade (UNESCO, 2025).
A nível global, aproximadamente 2 mil milhões de pessoas, dependem da água proveniente do gelo derretido dos glaciares para suprir as suas necessidades hídricas. Dois terços de toda a agricultura irrigada no mundo serão afetados, de alguma forma, pelo recuo dos glaciares.
Com efeito, duas das principais reservas de gelo, a Gronelândia e a Antártida, estão a derreter a um ritmo acelerado, o que poderá agravar os problemas económicos, ambientais e sociais no mundo, à medida que o nível do mar sobe e estas fontes de água doce diminuem.
De acordo com os cientistas, o degelo dos glaciares é, a seguir ao aquecimento dos oceanos, o fator mais importante para a subida global do nível do mar.
“(…) quando os glaciares derretem rapidamente, milhões de pessoas enfrentam a escassez de água, mas não só, o risco de haver catástrofes naturais e inundações, aumenta. Situações que podem produzir milhões de deslocados.” (Bruno Oberle, diretor-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza)
Na Europa, a Noruega, a Suécia, a Svalbard (arquipélago na Noruega) e as montanhas de gelo nos Alpes e nos Pirenéus, são as áreas mais afetadas.
Igualmente grave, e devido ao aumento da temperatura global, é o facto do “permafrost” – a camada do subsolo da crosta terrestre, que está permanentemente congelada e uma das maiores reservas de carbono do planeta -, começar a descongelar e a libertar CO2 e metano para a atmosfera, dois gases com efeito de estufa e que contribuem para o aquecimento global.
Além disso, o “permafrost” ao descongelar, liberta bactérias e vírus que residem no gelo e no solo há milhares de anos, o que pode ameaçar a saúde humana, algo que deixa a comunidade científica alerta e apreensiva.
Por outro lado, o derretimento dos glaciares está a fazer emergir novos ecossistemas terrestres alterando por completo as paisagens de montanhas em altas latitudes. Enquanto várias espécies (animais e vegetais) são obrigadas a mudar de habitat, novos microrganismos, musgos e plantas passam a ocupar o espaço deixado pelo gelo.
Entretanto, outra avaliação que está a ser feita na Islândia, local onde os glaciares cobrem cerca de 10% do país, é procurar entender se o degelo dos glaciares pode futuramente aumentar a atividade vulcânica e levar a mais erupções.
“(…) Está a ser gerado mais magma no manto em resultado do derretimento por descompressão, da descarga do gelo derretido dos glaciares, e depois, da recuperação da crosta. Além disso pode afetar os campos de tensão na crosta, o que pode mudar ou alterar as vias de migração do magma, o que significa que podemos ter novas intrusões em diferentes áreas”, sustenta a vulcanologista Michelle Parks.
Em síntese, os glaciares têm dado uma resposta muito rápida às alterações climáticas. À medida que o clima muda, os glaciares derretem-se mais depressa.
Os cientistas constataram que o oceano global tem vindo a aumentar de temperatura desde 1970, absorvendo “mais de 90% do calor em excesso no sistema climático”. Ao reter mais dióxido de carbono, o oceano sofre um aumento da acidez à superfície, alterando o seu equilíbrio químico e originando a perda de biodiversidade e pondo em perigo a sobrevivência de muitas espécies de peixes e ecossistemas marinhos.
Daí ser da maior relevância salvar os glaciares, pois eles regulam o clima, dão-nos água doce e alimentam os ecossistemas.
Para isso há que continuar a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa provenientes das atividades humanas, proteger os ecossistemas de água doce e gerir melhor os nossos recursos.
O futuro dos glaciares depende de nós.
“Preservar os glaciares não é apenas uma necessidade ambiental, económica e social. É uma questão de sobrevivência”, defende Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
Licenciado em Sociologia. Mestre e Doutorando em Ecologia Humana
Email: carlos.jesus@campus.fcsh.unl.pt
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