Começa hoje o relato da nossa viagem a dois países asiáticos, Nepal e Butão. Feita em abril de 2011, por António Cruz e Ana Fialho, dois apaixonados por conhecer o Mundo e os seus recantos ainda pouco visitados. António, economista e Ana, professora, aproveitam todos as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.
Dias 1 e 2
Começou bem cedo este dia, com o primeiro voo, Lisboa-Milão, a sair às 8 da manhã. O avião saiu com um pequeno atraso, visto que tivemos de aguardar pelo primeiro-ministro, José Sócrates, que, como seria de esperar, viajou em executiva. Duas horas e dez minutos depois, aterragem no Aeroporto Malpensa, e pouco tempo depois, novo voo, desta vez com destino ao Qatar. Chegada já noturna, depois de uma viagem de 6 horas. Mangas de desembarque não existem, e a nossa porta de saída deverá ser a da cor que consta no nosso talão de embarque, um sistema ainda algo “artesanal”. Quase todos os funcionários de terra com que nos cruzamos, são de origens ou russa, ou asiática. De uma escala curta, passámos a uma escala média, com um atraso de duas horas no voo final que nos levará até Kathmandu. Por sorte, um pequeno café ainda servia batatas fritas e chamuças vegetarianas, que salvaram o jantar. O tabaco é muito barato. Um volume de Marlboro custa 12,50 €, ou seja, 1,25 € o maço, enquanto em Portugal já nos cobram 4 €. Mas, preço bom, condições péssimas. As “smoking areas” são pestilentas, com um nevoeiro de fumo persistente, mas, quando se é fumador, aguenta-se tudo. Sentimo-nos numa fogueira abastecida a lenha verde, tal não era a “fumarada” por que passámos. Até foi estranho gastarmos cigarros. Estar apenas lá dentro, já nos “intoxicava” o suficiente.
Voo noturno, que deu para dormitar, e aterragem de manhã em Kathmandu. Os vistos de entrada no país são tratados à chegada, e o sistema é confuso e demorado, parecendo um “rally paper”. Uma hora de fila e passagem por 5 funcionários. O primeiro controla e olha-nos de cima a baixo; o segundo escreve o nosso nome e número de passaporte, num bloco de 3 vias, daqueles antigos, ainda com as folhas azuis de químicos, e recebe 25 USD, custo do visto de entrada, e entrega-nos duas vias do “documento” e uma folha autocolante com o nosso visto; o terceiro pega no visto, no nosso passaporte e nos dois duplicados, confere e fica com uma das vias; o quarto pega no passaporte e cola o visto de entrada, que dá de imediato ao quinto, que olha para nós com ar de mau e assina o visto. Um sexto, ainda circulava na confusão da sala e da fila a agrafar as fotos do pedido de visto. Finalmente, conseguimos entrar no país! NAMASTE!
Alojamento no Hotel Annapurna, localizado no coração da cidade. Primeiro hotel de 5 estrelas a ser estabelecido no país, e o seu nome foi uma homenagem à Deusa Annapurna, a Deusa da abundância. Mais tarde percebemos como tínhamos conseguido um hotel de 5 estrelas por um preço ótimo. Estava com muitas obras e o seu ex-libris, a maior piscina da cidade, estava desativada e a ser restaurada. Calorosa receção pelo trintanário do hotel, que como lhe apertei a mão à chegada, fazia questão de vir-me sempre cumprimentar cada vez que nos cruzámos, não sem antes fazer-me continência, sempre correspondida. Para quem desconhece, o trintanário, é o funcionário do hotel, que nos costuma receber, elegantemente uniformizado e normalmente com uma cartola e luvas brancas. O deste hotel até uma espada à cintura tinha.

Como a passagem porta cidade é curta, foi mesmo deixar as malas no quarto e sair para nos perdermos pelas ruas. Kathmandu é a capital do Nepal, país cortado pela cordilheira dos Himalaias, e onde se encontra o mundialmente famoso Monte Everest, o ponto mais alto da Terra, com 8.840 metros de altitude. Foi neste país onde nasceu Buda, em Lumbini, na região sul, mas a nossa passagem pelo Nepal vai ser muito restrita a Kathmandu, sendo que o objetivo principal é o Butão. Numa outra oportunidade, regressaremos com certeza, para explorar o restante território nepalês, riquíssimo em cultura e beleza natural. Só para se ter uma ideia, existem no Nepal mais de 120 idiomas e dialetos. Um pequeno país entre dois gigantes, a Índia e a China, mas com uma alma enorme.

A cidade de Kathmandu, tem uma história fascinante, de milhares de anos, tendo sido ao longo dos séculos um importante centro cultural, político e religioso. Segundo a mitologia local, o vale onde a cidade existe seria um lago. O Deus Manjushri, cortou uma passagem nas montanhas circundantes, com a sua espada, e abriu uma passagem para drenar a água, tornando assim o vale habitável.
O país resulta da unificação de 3 antigos reinos, e depois de uma história conturbada, com a Guerra Anglo-Nepalesa em 1814-16, seguida de uma ditadura que durou até 1951, e uma guerra civil entre 1996 e 2006, finalmente encontra, em 2008, a sua estabilidade política e social, com a constituição de uma República Federal Democrática.

Voltando à cidade, ela é completamente caótica, mas de uma beleza singular. Velhos automóveis e motorizadas apitam frenética e desalmadamente em todas as ruas. Os ciclistas carregam na orelha das campainhas de velhas “pasteleiras”, fazendo o barulho possível. Nenhum veículo se detém em passadeiras ou semáforos. Andarem fora de mão também é algo absolutamente normal. As ruas são atravessadas por quilómetros e quilómetros de cabos, pendurados nos locais mais estranhos e sem algum tipo de lógica ou plano. Finalmente chegámos ao bairro Thamel, mesmo no coração da cidade, e talvez um dos bairros mais movimentados. Aqui amontoam-se placas e mais placas publicitárias de albergues, hotéis, cafés, restaurantes, agências de “trekking”, lojas de equipamento de caminhada, entre muitas outras coisas. Para além de todo o movimento de centenas ou mesmo milhares de lojas e clientes, abundam nas ruas vendedores de legumes e de especiarias e de transportadores de mercadorias, muitas vezes às costas, apenas com um apoio da carga na sua testa. Caótico, mas muito interessante de se observar, e conseguimos ver, como o caos também tem organização. Parte superior do formulário
Logo na entrada do bairro, um local com um riquexó, veio propor uma viagem pelas redondezas, no seu veículo. Era um bocadinho insistente, ou mesmo muito, mas também muito simpático o que nos levou a contratar uma hora de passeio pelo bairro, neste típico transporte local. Quinhentas rúpias, ou seja, 5 €, mas não é mesmo a nossa onda, este tipo de atividade. É muito mais interessante andar a pé, interagir com os locais e parar nas lojas e nos pequenos cafés, sendo o que fizemos imediatamente a seguir ao “tour”. As lojas de equipamento de montanha são fabulosas, apesar de serem “north fake”, mas de uma qualidade até bastante boa. Provavelmente material desviado das fábricas que produzem para as multinacionais. Ainda comprámos casacos, mochilas e botas de montanha, a preços fabulosos depois de, claro está, muita negociação.
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