Diário de Bordo – Nepal e Butão | Crónica 6

Crónica final da nossa viagem a dois países asiáticos, Nepal e Butão. Feita em abril de 2011, por António Cruz e Ana Fialho, dois apaixonados por conhecer o Mundo e os seus recantos ainda pouco visitados. António, economista e Ana, professora, aproveitam todos as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.

Dia 8

Saída do hotel bem cedinho, às 05H00. Levantámos o volume de tabaco que deixámos ficar e voo para Kathmandhu, desta vez do “lado certo” do avião, o direito, para apreciarmos toda a beleza da cordilheira dos Himalaias.

O alojamento foi de novo no hotel Annapurna, onde reencontrámos o trintanário, que nos reconheceu de imediato. Sai continência! Desta vez tínhamos um guia, o Aryal, que falava espanhol. Levou-nos ao Templo dos Macacos, Swayambhunath Stupa, um dos mais sagrados para os budistas no país. Está no topo de uma colina, e tem uma vista fantástica sobre a cidade. Os macacos são bastantes e considerados guardas espirituais. Sempre muita atenção a estes “guardas” que muitas vezes “guardam” pertences dos visitantes, principalmente óculos. É um local de templos hindus e budistas. Para o acesso ao topo, há que subir 365 degraus, um por cada dia do ano.

Depois desta visita muito espiritual, fomos para Kathmandu Durbar Square. No caminho, ouvimos música vinda de uma das ruas e a nossa curiosidade encaminhou-nos de imediato para lá. Uma banda tocava música tradicional, à porta de uma casa. Espreitámos e era… um casamento! Um senhor bem-vestido aparece, fala-nos em inglês, apresentando-se como pai da noiva e convidando-nos a entrar, ao que acedemos de imediato. Mais uma experiência que nos iria ficar na memória de certeza. A Ana foi visitar o quarto da noiva, onde ela era arranjada e pintada com hena, e eu fiquei junto ao noivo, que quis tirar muitas fotografias comigo. Infelizmente, estando com guia, tivemos de abandonar a cerimónia, com pena nossa e do pai da noiva, que fazia muita questão que estivéssemos presentes no banquete. Finalmente chegámos a Durbar Square, Património da Unesco, localizada no coração da cidade. Muitos templos e palácios históricos, como o Hanuman Dhoka Palace. Também é aqui a casa da famosa deusa viva, Kumari, que tem uma história difícil de entender para a nossa cultura. Uma história que merece uma descrição detalhada, no parágrafo seguinte.

A história começa há muito tempo, no século XVIII, com o rei Jayaprakash Malla. Este rei jogava dados todas as noites com a deusa Taleju, que lhe aparecia em forma humana. Um dia, teve pensamentos impróprios com a deusa, que desapareceu. Antes de ir, disse ao rei, que voltaria a reencarnar no corpo de uma menina da casta Shakya, e que ele deveria construir uma casa para ela, pois ao palácio ela não voltaria. E assim nasceu a história da deusa viva, a Kumari. É uma menina, geralmente escolhida entre os 4 e os 7 anos, considerada então a reencarnação temporária da deusa Taleju, e venerada tanto por hinduístas como budistas. A escolha da criança obedece a regras muito rígidas. Para além da casta, tem de ter 32 sinais físicos, como olhos, dentes, pele, voz, etc. Tem de passar pelo teste de coragem, que é passar uma noite num quarto cheio de cabeças de animais sacrificados para provar que nada teme. Além de tudo isto, astrólogos e sacerdotes, têm de garantir que o seu horóscopo está alinhado com a deusa Taleju. A Kumari vive em reclusão dentro da casa construída pelo rei, que na época, a construiu em 6 meses, utilizando 1000 trabalhadores. Sai apenas em procissões que ocorrem em datas festivas, e nunca fala com ninguém em público. Não pode ter visitas nem dos pais, nem de familiares. Tem escola com professores privados que vão a sua casa, e algumas crianças são convidadas a ir brincar com ela. De vez em quando vai ao varandim interior espreitar para o pátio, o que é um sinal de extrema boa sorte a quem estiver presente nessa altura e a conseguir ver. Nós não tivemos essa sorte, mas ficámos convencidos de ter ouvido a voz dela no piso de cima. A Kumari perde o seu estatuto quando menstrua pela primeira vez. É considerado que o corpo deixou de ser puro para hospedar a deusa. E recomeça o ciclo, com dezenas de enviados especiais, a percorrem o país, procurando crianças com as 32 características. Estas crianças têm uma adaptação difícil quando abandonam a casa, porque estiveram muitos anos isoladas, e não casam, porque segundo a lenda, se casarem, o marido morre em 6 meses.

Depois desta visita muito especial e diferente, fomos para a Praça dos Hippies, ou, oficialmente, Rua Jhochhen Tole, que ficou mundialmente famosa nos anos 60 e 70, como um dos pontos centrais da rota hippie da Ásia. Não seria indiferente este afluxo à legalidade do haxixe no Nepal. Nos anos 70, por pressão internacional, o Nepal criminalizou o haxixe, e os hippies foram para outras paragens, mas a zona mantém uma atmosfera nostálgica, parecendo ter parado no tempo, pelo que a visita se torna muito interessante. Cafés inalterados desde há muitos anos, pequenas lojas que vendem posters de bandas dos anos 70, discos que já são difíceis de encontrar, artistas de rua, alfarrabistas, tudo nos transporta para muitas décadas atrás. Estes seriam os únicos turistas neste país em tempos idos, até porque a viagem se fazia de autocarro a partir de Nova Deli, na Índia, a 1.000 quilómetros de distância, numas 30 horas alucinantes certamente.

O primeiro avião europeu a aterrar em Kathmandhu remonta a 1982, e o país foi descoberto pelo turismo em 1985.

O almoço foi tradicionalmente nepalês, com o nosso guia da manhã, que convidámos a juntar-se, num restaurante para locais e não para turistas. Sentados no chão e a comer à mão, uma das melhores formas de nos alimentarmos. Começámos com uma aguardente de arroz, sopa e arroz com carne, que estava mesmo bom, bem como os vegetais e as lentilhas pretas. À parte, uma tacinha com malaguetas. Claro que comi. A Ana deu uma trinca numa delas, e ia morrendo. O guia só lhe dizia para comer cubos de açúcar que lhe ia rapidamente passando. São estas experiências que nos ficam na memória, e que nos levam a viajar pelo mundo, conhecendo o mais possível as culturas locais. Soubemos que o nosso guia não tinha religião, o que nos espantou bastante, e fez-nos muitas perguntas sobre Portugal e sobre divórcios. No Nepal há muito poucos divórcios, mas ele parecia bastante interessado no assunto. Depois do almoço, deixou-nos no hotel, uma vez que o contratámos para apenas ter rapidez nas visitas que gostaríamos de fazer, sendo este o nosso último dia. A parte da tarde foi como gostamos em “free style”, a perdermos-mos pelas intricadas e confusas ruelas da cidade interagindo sempre que possível com os locais. Fomos de novo ao bazar, e decidimos fazer um momento de reflexão, num dos muitos templos que existem por toda a cidade. Depois de uns minutos de introspeção, um local veio ter connosco e começou à conversa. Soubemos que o Nepal em peso torce pela Seleção Portuguesa de Futebol, devido ao Ronaldo. Detesta os políticos nepaleses, muito corruptos segundo ele. Conversa muito interessante, para final de viagem, num país com pessoas fantásticas e onde um dia voltaremos para uma exploração mais profunda deste país.

Resumindo, dois países quase vizinhos e duas culturas completamente diferentes, quer na sua organização do estado, quer na religião, quer na forma de turismo, quer no seu equilíbrio social. República do Nepal com 30 milhões de habitantes, essencialmente hindus, e com um turismo massificado, e a Monarquia butanesa com 800.000 habitantes, maioritariamente budistas, e com um regime de turismo controlado e único no Mundo, e caminhando no sentido de não haver desigualdades sociais, para além da particularidade de termos a sensação de estar dentro de um “museu vivo”, pela cultura tradicional que o país vive e promove.

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  • Diário de Odivelas - Redação

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