Com a chegada das tão aguardadas férias de verão, muitas famílias em Portugal e no mundo iniciam os planos para momentos à beira da água: praias, piscinas, lagoas e rios tornam-se o cenário ideal para descanso e diversão. No entanto, esse contacto com ambientes aquáticos também traz riscos. O início da época estival coincide com o aumento das atividades aquáticas – e dos acidentes graves por afogamento.

Um problema global e local
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 000 pessoas perdem a vida por afogamento em todo o mundo anualmente, sendo quase metade com menos de 29 anos. Na Europa, estima-se que 20 000 pessoas morram por afogamento todos os anos, especialmente homens, e 25 % destes incidentes envolvem álcool.
Em Portugal, os dados recentes são igualmente alarmantes. Entre abril e maio, meses que marcam o início da temporada balnear, ocorrem a maioria dos afogamentos nas praias desprotegidas. Registou-se também um aumento preocupante: entre 2020 e 2022, morreram em média 15 crianças por afogamento por ano – mais que o dobro da média anterior. A grande maioria ocorreu em piscinas, banheiras ou recipientes domésticos de água.
Por que o risco aumenta no verão?
- Maior exposição – Os dias longos e o calor atraem mais pessoas às águas. Em Portugal, a intensa afluência a praias não vigiadas associada a correntes fortes amplifica o risco.
- Baixa supervisão inicial – A vigilância geralmente ainda não está reforçada do início do verão, deixando muitos banhistas sem apoio de nadadores‑salvadores.
- Consumo de álcool – Cerca de 26 % dos afogamentos na Europa estão ligados ao uso de bebidas alcoólicas.
Estratégias eficazes de prevenção
- Supervisão constante
— Observação persistente: um adulto deve estar de olho permanentemente em crianças e nadadores mais vulneráveis; o afogamento pode acontecer de forma silenciosa e em segundos. Mesmo na presença de adultos, quase 90 % das crianças que se afogaram estavam sob vigilância, mas sem atenção adequada.
- Barreiras físicas e vedação
— Piscinas particulares devem ter vedação dos quatro lados, portões com fechadura automática, e coberturas seguras para poços e tanques domésticos. Estas soluções baixas são eficazes e de baixo custo.
- Aulas de natação e segurança aquática
— A OMS destaca que crianças com natação básica têm risco significativamente reduzido.
- Coletes salva-vidas e dispositivos de flutuação
— Essenciais em atividades em zonas de rio, lagoa ou mar, mesmo para quem sabe nadar bem.
- Conhecimentos em primeiros socorros e Suporte Básico de Vida (SBV)
— O tempo de resposta é decisivo após um evento de afogamento. Saber SBV pode salvar a vida até à chegada dos serviços de emergência.
- Áreas vigiadas e sinalização adequada
— A presença de nadadores-salvadores reduz drasticamente incidentes. A falta de vigilância, especialmente no início da época balnear (abril e maio), aumenta os acidentes.
- Evite nadar sozinho
Sempre que possível, nade acompanhado e escolha praias ou piscinas com nadador-salvador.
- Respeite as bandeiras e sinalização
Se a bandeira está vermelha ou o local tem aviso de corrente forte, não entre na água. Estes sinais existem para proteger a sua vida.
- Evite álcool antes de nadar
Beber reduz os reflexos e aumenta o risco de acidentes dentro de água.
Conclusão
As férias de verão são uma oportunidade preciosa para descansar e viver momentos de alegria com a família. Contudo, a água exige respeito e atenção. Com medidas simples — supervisão constante, vedação, aulas de natação, uso de braçadeiras/coletes, vigilância e conhecimentos em primeiros socorros — é possível reduzir drasticamente o risco de afogamentos.
Neste verão, praias, piscinas e rios devem ser sinónimo de bem-estar, não de risco. A prevenção é acessível, eficaz e salva vidas — sobretudo das crianças, os mais vulneráveis. Aproveite as férias, mas com segurança total à beira da água.
Referências bibliográficas:
- Direção-Geral da Saúde (DGS). (2023). Plano Nacional de Prevenção de Afogamentos em Crianças e Jovens. Lisboa: DGS.
- Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores (Fepons). (2024, maio). Relatório de Afogamentos em Portugal – janeiro a abril de 2024. Observatório do Afogamento.
- Federação Portuguesa de Nadadores Salvadores. (2023, julho). Afogamentos em Portugal: relatório nacional 2020–2022. Observatório do Afogamento.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). (2023). Preventing drowning: An implementation guide. Genebra: World Health Organization
- Organização Mundial da Saúde (OMS). (2021). Global report on drowning: Preventing a leading killer. Genebra: WHO.
- Instituto de Socorros a Náufragos (ISN). (2023). Relatório de atividades de salvamento aquático. Lisboa: Marinha Portuguesa.
- (2021). Child Drowning: Evidence for Prevention. Nova Iorque: Fundo das Nações Unidas para a Infância.
- Observatório do Afogamento – FEPONS. (2024, junho). Dados atualizados até maio de 2024.
- European Child Safety Alliance. (2019). Child Safety Report Cards – Drowning.
- Público. (2024, 4 de maio). Abril foi o mês mais mortal por afogamento desde 2017. Público.
Autora: Catarina Monteiro Pires
Revisora: Susana de Oliveira Branco
Imagem de ingrid sindt por Pixabay
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