Quinta crónica sobre um dos nossos destinos de eleição, Istanbul. Três viagens em 4 anos, realizadas por António Cruz e Ana Fialho, dois apaixonados por conhecer o Mundo e os seus recantos ainda pouco visitados. António, economista e Ana, professora, aproveitam todas as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.
Crónica 5 – Sultanahmet e Kardiga
Este é, com toda a certeza, o bairro mais histórico da cidade, uma vez que é onde encontramos os principais monumentos históricos. Era o coração da antiga Constantinopla.

Comecemos pelo final do bairro de Eminönü, para visitar a Estação de Comboios de Sirkeci, uma estação carregada de história, sendo que era aqui o terminal da lendária viagem do Expresso do Oriente, que ligava Paris a Istanbul. Inaugurada em 1890 e projetada pelo alemão August Jasmund, hoje deixou de ter a importância de outrora, sendo utilizada apenas para linhas locais. Continua imponente e carregada de uma mística histórica, que se sente ao visitá-la. Conseguimos quase que nos teletransportarmos para muitas décadas atrás, e imaginar todo o glamour que seria a chegada do comboio. Numa das nossas viagens tivemos a sorte de conhecer algumas salas a que o público não tem acesso, pela simpatia de um funcionário, que nos levou a conhecer salas de receção e de espera mais recatadas, e o gabinete do chefe da estação.

É no mesmo complexo que se apanha a linha de metro que atravessa o Estreito do Bósforo, a linha Marmaray, designação que vem da conjugação do Mar de Marmara e ray, comboio em turco. Uma viagem subterrânea e intercontinental, uma vez que liga o lado europeu ao lado asiático. Tem 27 estações do lado asiático, pelo que a exploração deste local é algo imperativo, na descoberta de novas pérolas, ainda desconhecidas.
Um pouco mais acima, temos o Palácio Topkapi, Património Mundial da UNESCO, e um dos palácios mais importantes da história do Império Otomano. Visitámos este palácio em 2022, e neste dia tivemos a companhia de um jovem russo, o Sergey, que nos acompanhou grande parte do tempo. Um encontro casual ao pequeno-almoço, transformou o dia deste jovem, viajante solitário, que segundo ele, quando dizia ser russo era mal visto, pela situação muito recente da invasão russa à Ucrânia. Felizmente temos a capacidade de distinguir o povo de um país dos seus governantes, nalguns casos mais “desgovernantes”. Foi bem recebido e para além do dia, partilhou a refeição connosco, um delicioso kebab no bazar, que tivemos todo o gosto em oferecer-lhe.

O Palácio Topkapi foi durante muitos séculos a residência dos sultões otomanos, tendo sido o centro administrativo e político do Império. Depois da fundação da República da Turquia, passou a museu. Como todos os monumentos na Turquia, sofreu um aumento enorme de preço nos bilhetes de entrada. Em 2022 tinha um custo de 25 €, que duplicou em 2025.

A entrada no palácio é bastante controlada pela polícia, sempre fortemente armada, com passagem de mochilas por RX e eventuais revistas. A visita pode ser só ao palácio ou conjugada com o harém, talvez a parte mais interessante da visita. O palácio em si pareceu-nos bastante simples, com salas muito pouco mobilizadas, e que transmitem uma sensação de vazio. O harém, a residência privada do sultão, mais as suas esposas, concubinas, filhos e mães, completamente diferente e muito mais interessante. Tem mais de 300 salas, sempre ricamente decoradas. O palácio, no seu auge, albergou 4000 pessoas. O tesouro imperial também visitável, é muito interessante, e demonstrativo da riqueza e poder dos governantes da época. Contem também as relíquias sagradas que se julgam ter pertencido ao Profeta Maomé, o seu manto e a sua espada. Depois percam-se pelos vários jardins e pátios do palácio, com belas vistas do Bósforo e da cidade.

Um pouco mais acima encontram Hagia Sophia, um monumento emblemático da cidade, e o que mais transformações sofreu. Foi construída pelo Imperador Justiniano no ano de 537, tendo sido, durante 900 anos, a maior igreja cristã ortodoxa. Em 1453, após a conquista da cidade de Constantinopla, foi convertida em mesquita. Após a fundação da República passou a museu, sendo que em 2020 passou de novo a ser mesquita, e atualmente passou de novo a ser museu. Nós visitámos enquanto mesquita, pelo que a entrada foi gratuita, mas hoje a entrada custa 25 €. Tem uma imponente cúpula central, medalhões de caligrafia gigantes, e ainda se podem ver símbolos cristãos, com ícones de Jesus e da Virgem Maria. Património Mundial da UNESCO.
Ao seu lado, existe a Cisterna da Basílica. O seu nome provém de ter sido construída num local onde havia uma basílica. Construída no ano de 532, armazenava água para todos os edifícios importantes de Constantinopla. Tem uma capacidade de 80 mil metros cúbicos, e possui 336 colunas de mármore, muitas reaproveitadas de antigos templos. Foi um dos cenários do filme do 007 From Russia with Love.

Mesmo em frente a Hagia Sophia, outra imponente mesquita de visita obrigatória, a linda Mesquita Azul. Construída no início do século XVII, é famosa pelos seus 20.000 azulejos azuis de İznik, todos feitos à mão. İznik é uma cidade turca na região da Anatólia e um importante centro cerâmico desde a antiguidade. Esta mesquita tem a particularidade de ter 6 minaretes, o que é bastante raro. Normalmente têm 2 ou 4. Esta situação provocou alguma polémica no mundo islâmico, uma vez que apenas a Mesquita Sagrada de Meca tinha 6 minaretes. Mais tarde ganhou um sétimo.
Mesmo ao lado da mesquita, para os menos atentos pode passar despercebido, mas se estiverem numa praça grande e oval, a Praça Sultanahmet, estão no Hipódromo Romano de Constantinopla. Construído no século II, pelo imperador romano Sétimo Severo, teve um aumento enorme no século IV por Constantino, O Grande. Teria capacidade para cerca de 100.000 espetadores, que assistiriam entusiasmados a corridas de bigas ou quadrigas. Hoje já não resta muito da estrutura original.

Voltando à Mesquita Azul, e seguindo em direção ao mar de Mármara, um bazar muito simpático e com peças de muita qualidade, o Arasta Bazaar. Atravessando todo o espaço, e sempre no sentido descendente, vamos ao encontro de um simpático bairro residencial, Kadirga, com casas de madeira muito bem conservadas, e mesmo nas margens do mar, onde existia o antigo porto e muita construção naval. Ficava ainda dentro das muralhas da antiga cidade. O bairro ideal para nos “perdermos”, apreciar a vida quotidiana, apreciar a arquitetura, e beber um chá, nos pequenos cafés que se encontram. Bairro com muito alojamento local. O nome do bairro está ligado a um tipo de navio de guerra otomano, que acabou por dar nome ao bairro.

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