Sociedade & Ambiente | A praia. Um espaço social entre nós e a natureza



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Agora que o tempo convida a apanhar sol, algo importante para o bom funcionamento do nosso organismo dado os múltiplos benefícios que nos oferece – produção de vitamina D, apoio ao sistema imunitário, melhor saúde cardiovascular, fortalecimento dos ossos e músculos, melhoria do humor e bem-estar – será interessante e curioso refletir sobre os modos como uma ida à praia se foram transformando.

Desde o final do século XIX e início do século XX – um período marcado pela crescente industrialização e pela consolidação da burguesia – comportamentos distintos e significados diferentes foram configurando uma simples ida a banhos.

Eram tempos em que o mar era entendido simbolicamente como um hostil e perigoso ambiente (tempestades, naufrágios e maremotos) e povoado por criaturas fantásticas, muito presente em inúmeras lendas, mitos e textos bíblicos que preenchiam o imaginário da época, como tão bem retratam a arte e a literatura de então.

O historiador francês Alain Corbin sublinha na obra “O Território do Vazio”, como a visão dominante em relação ao mar foi durante séculos marcada pelo imaginário bíblico. O mar era visto como “o mais pavoroso espetáculo oferecido pela Natureza”, do mesmo modo que “as areias ardentes do deserto e da praia são frequentemente associadas ao Inferno” (Corbin,1988).

Não será por isso de estranhar que o litoral e a beira-mar fossem locais inóspitos, lugares malditos povoados por seres míticos e assustadores, logo, locais a evitar.

Só com o progresso da ciência e com uma visão mais racional do mundo foi possível compreender e desconstruir estes eventos e explicá-los como fenómenos naturais.

A ciência médica passou a identificar e a reconhecer fortes benefícios para a saúde humana dos banhos de mar e do contato com o ar do mar e com o sol, recomendando a ida à praia e ao campo para fortalecer o corpo e prevenir enfermidades.

 

Os “banhos de ar” e os “banhos de mar”, logo pela manhã, eram indicados pela medicina como uma forma de debelar as doenças do corpo e da mente, isto numa altura em que a cidade industrial começava a apresentar patologias do foro respiratório e mental.

“O banho é de curta duração, feito por imersão súbita e de preferência quando a temperatura está mais fria” (Ramalho Ortigão,1876)

Um bom exemplo e bem retratado em “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, foi no século XIX e a conselho dos médicos, o apelo à mudança de ares com fins terapêuticos, em espaços de repouso e ao ar livre – sanatórios – tendo em vista o combate à tuberculose.

Com efeito, desde o século XVIII que em França e Inglaterra os banhos de mar começam a ser vistos como uma prática da elite (e uma estratégia de distinção social…), tanto por razões de saúde quanto sociais.

Em Portugal, as nossas elites começam a ir à praia em meados de século XIX.

Com o tempo, ricos e pobres vão a banhos nas mesmas praias, mas sem se cruzarem… Era o tempo em que homens e crianças mergulhavam vestidos, sob o olhar curioso das mulheres e dos mirones.

Os valores sociais conservadores da época ditavam ordens. O corpo feminino era para ser resguardado e o ato de nadar era secundário. Muito poucos sabiam nadar, sendo por isso imprescindível a presença do “banheiro”.

Foi no final século XIX e início do século XX que foi permitido às mulheres mostrarem os braços e parte das pernas, altura em que emergiram os maillots de malha. Já os homens passavam a usar calções com peitilho.

Foi só a partir dos anos 40/50 do século XX que a moda do fato de banho de praia e do biquíni despontaram tendo sido rendidos anos mais tarde por modelos mais arrojados, como a tanga ou o famoso triângulo.

Para além da revolução sexual que estava em curso (1960/70) e que transformou o biquíni num símbolo de liberdade feminina, há que destacar o contributo da moda e do cinema que ao levaram o biquíni e o corpo feminino para os ícones da época lhe atribuíram enorme protagonismo.

Figuras como Brigitte Bardot, Raquel Welch e Ursula Andress, viriam a eternizar o biquíni na cultura pop. Quem não se recorda?

Tal veio facilitar a introdução gradual do biquíni pelo mundo fora e de igual modo nas praias portuguesas onde, devido ao conservadorismo do Estado Novo, a resistência era forte, mas a tradição aos poucos foi cedendo o lugar à modernidade.

Mas voltemos à praia, ao espaço entre a terra e o mar, “um lugar físico com uma estrutura de origem cultural que organiza a relação social” (Hall, 1986).

Um espaço natural e dinâmico onde diferentes atividades – sociais, económicas, culturais e ambientais -, agem e interagem desde sempre.

Se, por um lado, o mar sempre foi percebido como uma fonte de recursos inesgotáveis e cujo potencial de aproveitamento tem incentivado a deslocação de povos e a formação de aglomerados costeiros que ali, direta ou indiretamente, constroem suas vidas, por outro, temos a praia, um espaço “híbrido” que, nem é terra (civilização) nem mar (natureza), e que consoante está coberto ou descoberto pela água do mar, se apresenta como um espaço único com capital próprio, recheado de significados, sentidos e sensações.

Do que já foi dito, torna-se claro que a partir do momento em que as elites sociais transformam a estadia na praia numa “prática civilizada” esta deixa de ser um local aterrador e temeroso.

Mas só com a entrada no século XX é que a praia começa a ser experienciada de modo lúdico. De uma contemplação admirativa do mar passamos ao contato real com a água do mar e com a areia.

Recorde-se que no século XIX, o prazer de olhar para o mar era um prazer “à distância”, e que se limitava ao olhar e ao olfato…Eram então erguidos terraços e miradouros para gáudio das classes populares.

Agora a ida à praia (já a qualquer hora do dia) passa a compreender o “deleitar-se ao sol” e o “banhar-se no mar”. De igual modo, os corpos ganham grande visibilidade. O seu “bronzeado” distingue e valoriza as pessoas tornando-se um sinal de lazer classista e ostentatório.

A praia transforma-se assim num espaço público por excelência, um ponto de encontro e de convívio, voltado para as férias, para o sol e para o lazer.

Uma conceção que se manteria durante todo o século XX, mas que sofreria novas mutações devido a fenómenos globais como a massificação do turismo e a proliferação de atividades de recreio que muitas vezes interferem com a paisagem e destabilizam o equilíbrio natural dos ecossistemas marinhos que tão importantes são para nós e para o planeta, pois regulam o clima, fornecem alimentos e suportam a biodiversidade.

Tal como um areal da praia bem cuidado é fundamental para que todo esse cenário funcione sem danos. Local que, para além de nos proporcionar bons momentos de relaxamento e reflexão, possui uma grande variedade de importâncias ecológicas (peixes e tartarugas utilizam a praia como área de berçário para suas desovas, por exemplo) e protege a costa contra o avanço do mar.

Contudo e apesar da maior sensibilização ambiental, ainda temos muita gente a deixar o lixo na areia da praia…algo pouco próprio de gente civilizada.

Na realidade, o que se tem observado nos últimos tempos é o aumento da poluição marinha (perto de 80 % do lixo marinho é plástico) e mais lixo deixado nas praias pelos seus frequentadores (beatas de cigarros, artigos sanitários, plásticos, papel e cartão, vidro, redes e cordas de pesca, etc..), algo que, além de deixar claro como muitos de nós ainda percecionamos o ambiente, é uma forte ameaça não só para a vida marinha como a saúde humana.

Em suma, as praias são uma dádiva da Natureza. São um dos ecossistemas mais belos e frágeis do planeta, abrigando uma grande biodiversidade e proporcionando lazer para milhões de pessoas. Adotar hábitos sustentáveis é fundamental para garantir que esses paraísos naturais continuem a existir hoje, amanhã e sempre.

Cada pequena ação conta, e juntos podemos fazer uma grande diferença. Contamos com todos.

Carlos Jesus

Licenciado em Sociologia. Mestre em Ecologia Humana

Email: carlos.jesus@campus.fcsh.unl.pt

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