Sociedade & Ambiente | A Ecologia do fogo. Porque ardem as nossas florestas?

“(…) Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente; o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva; e a silva, a mata de produção de madeira e de proteção. Todo esse ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta”

Gonçalo Ribeiro Telles, arquiteto paisagista e “pai” do ecologismo português, à revista Visão

Numa altura em que o País e a sociedade em geral discutem mais uma vez o tema dos fogos e dos incêndios e depois de ler e ouvir académicos e especialistas na matéria, vimos aqui resumir alguns dos principais pontos e ensinamentos extraídos do debate, na esperança que daí também nós retiremos mais conhecimento e saberes que nos façam entender melhor o problema.

Um fenómeno complexo e multidimensional que ao longo dos anos, sobretudo desde finais do século XX e início século XXI, tem trazido a Portugal e à sua população imenso sofrimento e danos irreparáveis. Uma tragédia ambiental e económica para o país e uma calamidade social que continua a destruir muitas vidas.

“(…) mesmo triplicando o equipamento de combate a incêndios, já não se consegue parar o fogo, porque perdemos o controlo sobre a paisagem”.

Stephen J. Pine, um dos maiores especialistas mundiais em fogos.

Acontece que sobretudo nas últimas décadas as alterações do clima originado pelo aquecimento induzido pelos gases com efeito de estufa têm originado fenómenos meteorológicos anormais como são as ondas de calor intensas e frequentes, que desencadeiam grandes incêndios florestais com caraterísticas extremas de comportamento do fogo, que os torna intensos, destruidores e resistentes à extinção.

Com efeito, foram condições climáticas extremas como as que vivemos recentemente em Portugal – temperaturas superiores a 30 º, vento forte superior a 30km/h e humidade relativa abaixo dos 30% (a conhecida regra dos 30-30-30) que espoletaram grandes incêndios florestais que se propagaram rapidamente.

Uma combustão não planeada e descontrolada que pode ter causas naturais (por ex. trovoadas secas, um fenómeno associado a descargas elétricas atmosféricas sem precipitação que ao atingir a vegetação seca, pode provocar ignições) ou ser provocado pela ação humana e por comportamentos de risco (por ex. fogueiras, queimadas ou maquinaria).

Se não é possível controlar a meteorologia, há cuidados a ter e comportamentos a adotar por um país sem fogos.

Uma percentagem significativa dos incêndios de causa natural em Portugal está associada a raios, sendo este fenómeno particularmente evidente em anos de seca meteorológica extrema.”(IPMA

Na realidade, muitas têm sido as vítimas mortais dos incêndios florestais em Portugal.

Ainda temos na memória os fatídicos anos de 2003, 2005, 2017 e 2024 onde estes eventos deixaram no país e nas comunidades um rasto negro de destruição e dor.

Em 2025 e de acordo com os dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), já arderam em Portugal quase 279.000 ha de terreno, cerca de 3 % do território nacional, uma área três vezes superior à média das duas últimas décadas.

https://www.copernicus.eu/pt-pt/sistema-europeu-de-informacao-sobre-incendios-florestais

Como sabemos, a acumulação de biomassa nas florestas no interior do país, em parte devido ao despovoamento rural e à pouca gestão florestal, é hoje um dos principais fatores de intensificação do risco de incêndio.

Primaveras longas e produtivas de outrora, que combinavam temperaturas moderadas e precipitação, algo que favorecia o crescimento da vegetação herbácea e arbustiva, deram lugar a Primaveras e Verões quentes e secos que transformam a vegetação, que se foi acumulando desde o inverno, em combustível altamente inflamável, facilitando a propagação rápida do fogo.

Ora, o fogo ao afetar diretamente a vegetação, o solo e a fauna, destrutura toda a paisagem natural e provoca “o declínio silencioso dos ecossistemas”, conforme refere a professora Helena Freitas. Os incêndios florestais, ao consumirem a vegetação, deixam o solo desprotegido, facilitando a erosão e a formação do relevo.

As árvores, agora com menos água, enfrentam grandes constrangimentos hídricos impedindo-as assim de desempenhar a sua importante função no ciclo da água, e que logo se reflete na menor fertilidade do solo e na redução da biodiversidade.

Tal faz com que os limiares críticos dos ecossistemas, os “tipping points”, sejam ultrapassados, perdendo eles irreversivelmente e por muito tempo a sua capacidade de regeneração e dando lugar a matos pobres em biodiversidade e altamente inflamáveis.

Recorde-se que (1) uma floresta cuidada é  fundamental para a regulação do clima e para o suporte aos sistemas alimentares, (2) beneficia a fertilidade do solo, pois ao impedir o arrastamento das terras e sedimentos, evita que os nutrientes presentes no solo sejam transportados, nutrientes estes que são essenciais à fertilidade das terras e ao alimento das mais diversas espécies, (3) árvores e raízes das plantas ajudam a suster o solo, reduzindo a erosão, e em períodos de chuvas mais intensas, diminui a probabilidade de aluimentos ou derrocadas, (4)  contribui  para a qualidade do ar, pois libertam oxigénio e fixam dióxido de carbono.

Ora, se em tempos idos, parte dessa biomassa era tratada e regulada por processos naturais e humanos – pecuária assente no pastoreio extensivo, fogos controlados e práticas agrícolas correntes, como a rotação e consociação de culturas – hoje o despovoamento das áreas rurais e o consequente abandono dos campos e a transformação do uso do solo levam a uma acumulação descontrolada de combustível, ficando a paisagem entregue a si mesma.

São diversas e múltiplas as causas apontadas e que vão desde a gestão inadequada do território e a fraca gestão florestal ( falta de limpeza dos terrenos), passando pelo baixo valor económico de parte da floresta ( em resultado do êxodo rural e abandono de terras agrícolas que fez emergir extensas manchas de monoculturas), até aos propalados “interesses económicos” (incendiários, madeireiros, indústria da celulose, etc.) ,  que alegadamente “navegam” nesta economia do fogo, matéria que não pretendemos aqui abordar.

(…) uma calamidade que começou nos anos 30 do século XX com a destruição, também por uma floresta extensiva, das comunidades de montanha do Norte de Portugal, que tinham a sua economia baseada na pecuária. As dificuldades por que passava a agricultura deram origem a que se quisesse transformar grandes áreas do País em florestas industriais. Esta campanha transformou a silvicultura, que era a profissão básica, numa profissão de florestal, para dar resposta aos grandes interesses económicos

Gonçalo Ribeiro Telles

A plantação e proliferação de espécies pouco adaptadas ao nosso clima, casos dos eucaliptos, que consomem muita água e não contribuem para a retenção hídrica no solo, tem sido um ponto referido aquando das épocas dos incêndios.

Do mesmo modo, o facto de possuirmos solos muito degradados, resultante da exploração intensiva (abacate), da monocultura e da falta de cobertura vegetal permanente têm levado à erosão do solo, dificultando que a água da chuva se infiltre (a água escorre rapidamente em vez de ser absorvida)

“(…) Começa tudo com o solo. Quando o solo é trabalhado da forma certa, tem mais matéria orgânica, o que implica ter mais carbono nos solos. E um solo mais vegetal funciona como uma esponja, vai absorvendo água e torna-se ele próprio um reservatório”

Luís Silva, Quinta do Freixo

Importa criar mosaicos de culturas e zonas de descontinuidade (clareiras, pomares) e recriar a diversidade estrutural da floresta que mantém a humidade no solo (árvores altas, arbustos, ervas, musgos e líquenes). Nesse sentido é imperativo plantar e promover espécies autóctones que têm raízes mais profundas, aproveitam melhor a água do subsolo e contribuem para um ciclo da água mais equilibrado (carvalhos, castanheiros, freixo, azinheiras, sobreiros, etc.)

Como importante é reabilitar ribeiros, nascentes e charcos, assim como manter e cuidar da matéria orgânica no solo que ajudam a reter água e fertilizam o solo (folhas, galhos, etc). Florestas demasiado limpas ficam secas e frágeis.

Uma boa medida é fazer uma melhor gestão da água da chuva que cai agora em períodos mais curtos, mas em maior quantidade, a fim de reduzir o escorrimento superficial que tanta falta faz ao solo.

Relativamente à gestão dos terrenos é de evitar monoculturas, assim como será positivo alternar áreas florestais com agricultura sustentável e pastagens, um modelo que é aplicado por ex. no montado alentejano e que combina a floresta de sobreiros e azinheiras com a agricultura e a criação de gado.

Regenerar os solos de uma forma natural é algo que pode ser feito recorrendo às cabras sapadoras, uma prática antiga de pastoreio rotacional usada na agricultura para prevenir incêndios florestais e enriquecer os solos, prática que foi desaparecendo fruto do abandono rural.

A propósito diga- se que o fogo sempre esteve associado à pastagem e à agricultura.

As populações que em tempos viviam sobretudo da agricultura e do pastoreio, usavam o “fogo controlado” para prevenir os incêndios rurais, como forma de criar pastagens para o gado e para eliminar as matérias que sobravam da atividade agrícola. Eram abertas clareiras de área ardida para que não houvesse um terreno vasto e contínuo no qual o fogo se possa propagar sem resistência.

Atualmente esta técnica de gestão dos espaços florestais, o “fogo controlado”, está previsto na legislação nacional como o uso do fogo na gestão de espaços florestais, sob condições, normas e procedimentos conducentes à satisfação de objetivos específicos e quantificáveis e que é executada sob responsabilidade de técnico credenciado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (DL n.º 124/2006, de 28 de junho)

Plano Nacional Fogo Controlado [PNFC]

Em síntese: Um tema sério e deveras complexo que cruza ambiente, sociedade, território, economia e política, motivo pelo qual deve merecer de todos nós a maior atenção e empenho.

No atual contexto de mudanças climáticas – não esquecer que os incêndios além de ameaçarem a sustentabilidade das florestas, libertam gases de efeito estufa para a atmosfera – e num país em que a floresta ocupa mais de um terço do país (cerca de três milhões de ha) é imprescindível refletir e procurar conhecer melhor as múltiplas vulnerabilidades da floresta e os riscos do incêndio florestal e, muito importante, investir mais no prevenir e não tanto no remediar.

Como sublinha o comandante Jorge Mendes, “Não podemos olhar para a época dos incêndios apenas de maio a outubro, tem de ser o ano inteiro, temos de estar preparados o ano inteiro”.

As alterações do clima fazem os fogos ficar mais fortes e afetar uma área maior. “É preciso reduzir o número de ignições na floresta, alerta Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS).

Para isso há que reduzir os três elementos essenciais para que haja combustão, o chamado “triângulo do fogo”. A matéria prima, como árvores, o comburente para que se dê a reação química, ou seja, o oxigénio, e por fim, a ignição que gera a reação entre os outros dois elementos. Por outro lado, é sabido como o aumento generalizado da temperatura intensifica o calor e tornam os solos mais inflamáveis. Além disso, as mudanças na circulação dos ventos aumentam a quantidade de oxigénio que alimenta as chamas.

Na realidade, à medida que o planeta aquece, tem aumentado o número de grandes/mega incêndios, os chamados “incêndios de 5ª geração”, evento que ocorre quando há vários incêndios ao mesmo tempo, causando o colapso dos serviços e “incêndios de 6ª geração” que libertam tanta energia que têm a capacidade de alterar as características meteorológicas ao seu redor, tornando-os praticamente impossíveis de extinguir.

Caso recente foi o sucedido em Pedrógão Grande, em 2017, quando por causa dos ventos o fogo tornou-se mais forte.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) revelou nessa altura que as condições que determinaram situações no terreno de excecional gravidade “foram o resultado da conjugação da dinâmica do próprio incêndio e dos efeitos da instabilidade atmosférica” gerando “downburst”, ou seja, vento de grande intensidade que se move verticalmente em direção ao solo, que após atingir o solo sopra de forma radial em todas as direções.

Urge, por isso, apostar forte na vigilância e na prevenção. A floresta é um património essencial ao desenvolvimento sustentável do país. A floresta e os matos são um bem comum, não são para deixar arder…

Usualmente a previsão de incêndios florestais considera apenas as condições meteorológicas, recorrendo a quatro variáveis – temperatura, vento, precipitação e humidade – não levando em conta a vegetação acumulada, ou seja, o combustível.

Embora os futuros padrões climáticos sejam a nossa grande incógnita, com a tecnologia avançada que temos hoje e com o apoio da IA não será possível prever/detetar a probabilidade de um incêndio, por exemplo, monitorizando a cobertura vegetal e a humidade do solo? Acreditamos que sim. A tecnologia tem sido sempre um bom aliado do ser humano.

Concluindo. A floresta é um dos principais recursos naturais renováveis do nosso país e produz bens e serviços de incalculável valor para todos nós.

Portugal sem fogos depende de todos!

“Não temos nas nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo temos as nossas mãos”

Friedrich Schiller

Licenciado em Sociologia. Mestre em Ecologia Humana

Email: carlos.jesus@campus.fcsh.unl.pt

Facebook: Eu combato o Desperdício Alimentar

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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