Diário de Bordo | Crónica 3 – Seoul

Crónica sobre uma viagem acabadinha de fazer, neste verão de 2025, à Coreia do Sul. Duas semanas a explorar alguns dos belos locais do país. António Cruz e Ana Fialho, dois apaixonados por conhecer o Mundo e os seus recantos ainda pouco visitados. António, economista e Ana, professora, aproveitam todos as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.

Crónica 3 – Seoul

Mais uma manhã abafada e húmida em Seoul. Pequeno-almoço no GS25, uma das grandes cadeias de lojas de conveniência, com milhares de espaços em todo o país, a par do CU e do 7-Eleven. Torna-se prático e económico fazer refeições nestas cadeias. Grande parte das lojas têm espaços para pequenas refeições, e podemos preparar até noodles, porque há sempre água quente disponível. Micro-ondas e máquinas de café, complementam o conjunto. O nosso pequeno-almoço, é sempre dirigido para produtos locais, de onde destacamos um triângulo de arroz prensado, com diferentes recheios, e envolvido em alga seca, com o nome de Samgak-Gimbap, sendo que a primeira palavra significa triângulo e a segunda arroz enrolado em alga. O sistema de embalagem está feito de forma que a alga não toque no arroz até à hora de comer, para não ficar mole. Os recheios são variados, sendo que os preferidos foram atum com maionese, ovos com legumes e frango picante. Os iogurtes líquidos locais de banana, são outra especialidade a não perder.

O primeiro destino deste dia é o Palácio Gyeongbokgung. O meio de transporte escolhido para a deslocação, foi o autocarro. Os preços dos transportes são bastantes aceitáveis. Uma viagem custa normalmente 1 €, seja de autocarro ou de metro. Se fizermos ligações entre transportes, num curto espaço de tempo, só se paga a primeira viagem do trajeto total. A esmagadora maioria das paragens têm painéis eletrónicos, que nos dizem precisamente o tempo de espera de cada autocarro, sendo que a maioria deles passa entre 7 e 10 minutos de intervalo. Já que falamos de transportes públicos, no metro há uma situação curiosa. Sempre que o comboio se aproxima da estação toca uma melodia, muito semelhante às que ouvimos na série Squid Game, antes do início dos jogos. Esta melodia tem vários propósitos: alerta de que o comboio está a chegar, para assim as pessoas se preparem para embarcar e tornar o processo rápido de modo a não haver atrasos e funciona como alerta para invisuais. Seja qual for o meio de transporte, 99,99% dos passageiros, estão a olhar para o telemóvel. É mesmo impressionante!

Chegámos ao palácio mesmo na hora certa, para assistir ao ritual do render da Guarda Real, numa organizada coreografia militar, cheia de rituais, cor e música. A entrada nos monumentos é muito barata, o que promove o fácil acesso a espaços culturais. O valor é menos de 2 € por pessoa, que quando se compara com Portugal, é praticamente oferecido. Copiamos muita coisa, mas teimamos em não copiar bons exemplos como este. Para quem não quiser pagar entrada, basta vir vestido com os trajes tradicionais hanbok. Ainda pensámos no assunto, mas com o calor que estava, era como entrar num grelhador. Muitos locais usavam o traje, e alguns até vinham com fotógrafos, um dos serviços extras oferecido nas casas de aluguer de fatos. Este palácio data de 1395, e o seu nome significa “abençoado pela felicidade”. A visita é longa, porque o palácio é enorme, com várias edificações e uns lindos jardins. Por sorte existiam cooling stations, ou seja, estações de refrescamento, para ir amenizando as fortes temperaturas do dia.

Bem perto do palácio, aproveitámos para visitar uma vila tradicional coreana, a Bukchon Hanok. Os hanok, são casas tradicionais feitas com madeira e com telhados curvos de telha preta. A sua arquitetura pretende fazer uma harmonização com a natureza, respeitando princípios do Feng Shui coreano. A maioria são casas de habitação. Algumas foram transformadas em pequenas lojas e cafetarias ou espaços culturais. Depois das 17H00 não é permitido a permanência a quem não seja morador, e por todo o espaço encontramos avisos para não se fazer barulho e respeitar a privacidade dos que lá habitam. As sessões de fotos com trajes hanbok, são também comuns nesta vila tradicional.

O almoço rápido foi na cadeia CU. Foi aqui que descobrimos uma bebida refrescante e saborosa para estes dias tórridos. Compra-se um copo cheio de cubos de gelos, e uma bebida embalada, que vai desde limonada a leite com caramelo, passando por café com diferentes sabores. Mistura-se a bebida no copo com gelo, e temos um produto muito refrescante. Ficámos fãs!

Próxima visita, o Jongmyo, Santuário Real Confucionista, Património Mundial da UNESCO. Antes disso, passagem por uma farmácia, uma vez que um dos elementos do trio viajante, estava a braços com uma pequena infeção. Por sorte a farmacêutica falava inglês, e com alguns probióticos, o assunto felizmente ficou resolvido. O caminho da farmácia até ao templo, foi feito, por ruelas interiores, onde se destacavam pequenos restaurantes, muitas tabuletas de publicidade, uma situação muito comum na Ásia, e alguns fumadores meio-escondidos em becos. Na Coreia do Sul há muitos locais públicos onde não é permitido fumar, havendo locais específicos para o efeito.

O santuário é dedicado aos espíritos dos reis e rainhas falecidos, da Dinastia Joseon, que reinou entre 1392 e 1897. A sua construção obedece aos princípios do Confucionismo, que valoriza o respeito pelos ancestrais e pela ordem social. Importante não pisar a Estrada dos Espíritos, um caminho de pedra que leva ao santuário principal. Esta estrada tem 3 faixas de pedra. A central é reservada aos espíritos; a da esquerda reservada ao rei; a da direita a músicos. O valor de entrada é cerca de 0,70 €.

Nova paragem em loja de conveniência, para mais um balde de bebida com gelo e refrescar com o ar condicionado. A humidade colava a roupa ao nosso corpo. Mesmo em frente, uma carrinha, tocava antigas músicas de tom revolucionário e no tejadilho, uma grande faixa artesanal, teria certamente palavras de protesto. Por sorte, os smartphones já permitem fazer traduções na hora. Um senhor, já de idade, protestava contra o Presidente da Câmara, por lhe demolir a casa, para fazer negócios obscuros, segundo ele. Fomos lá dar uma força!

Tempo ainda para visitar o templo Jogyesa, um oásis de tranquilidade no lufa-lufa da cidade, e um importante centro do budismo Seon. Foi fundado originalmente em 1395. Aqui encontramos um pinheiro com mais de 500 anos e classificado como monumento natural da Coreia. É também um Templestay, sendo possível passar a noite e participar de variadas cerimónias. Sendo verão, centenas de flores de lótus, enchem o templo de cor e paz.

Próxima paragem no Mercado de Gwangjang, com o intuito de jantar na banca da Sra. Cho Yonsoon. Esta banca esteve em destaque na série Street Food Ásia da Netflix, sobre Seoul. Aqui a especialidade são calguksu, noodles feitos no momento e cortados à faca, que após cozidos são colocados num caldo delicioso, acompanhado por dumplings de kimchi ou carne. Infelizmente, a banca estava encerrada, por motivo de férias… felizmente que regressamos de novo a Seoul, em data em que já estará de novo a funcionar. Acabámos por jantar na banca vizinha, algo semelhante e também ótimo.

Depois de um fantástico jantar, trajeto junto ao rio, até à Praça DDP, ou Dongdaemun Design Plaza, para visitar o centro cultural, um dos ícones arquitetónicos e culturais da cidade, sendo um verdadeiro complexo futurista de design, arte e moda. Todo o edificado é feito de suaves curvas, com 45 mil painéis de alumínio, sem nenhuma linha reta. Um piano no exterior, é de utilização livre, para quem souber tocar. Local fantástico para fotografia.

Os alertas de segurança, continuam a cair nos telemóveis. Já de noite, decisão de ir à zona de Hongdae, uma popular zona de artistas de rua, moda alternativa e vida noturna. Uma dupla de aspirantes a estrelas de K-pop, faziam as delícias das jovens, que aplaudiam e gritavam freneticamente a cada passo de dança, seguramente cópias de artistas já consagrados. A maior audiência estava ali. Um pouco mais ao lado, um jovem cantor romântico, tinha apenas meia dúzia de pessoas a assistir, já com alguma idade. Mais para baixo, um mágico de rua e simultaneamente cómico, tinha uma plateia bem composta. Restaurantes e bares cheios de pessoal jovem, alguns muito fashion, prontos para a saída noturna. As meninas mais produzidas e mais arrojadas em termos de moda, enquanto os rapazes optam mais por um look de bad boy, com muita roupa preta, que quase parece farda, tal é a quantidade de rapazes que se veste da mesma forma.

Demos o dia por terminado, porque amanhã de manhã, partimos para nova cidade.

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  • Diário de Odivelas - Redação

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