Diário de Bordo – Coreia do Sul | crónica 6

Crónica sobre uma viagem acabadinha de fazer, neste verão de 2025, à Coreia do Sul. Duas semanas a explorar alguns dos belos locais do país. António Cruz e Ana Fialho, dois apaixonados por conhecer o Mundo e os seus recantos ainda pouco visitados. António, economista e Ana, professora, aproveitam todos as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.

Crónica 6 – Busan dias 2 e 3

Dia 2

A manhã de hoje, já sem chuva, apesar das previsões, foi aproveitada para lavar roupa, algo muito comum e necessário, quando se viaja com mochilas de bagagem de mão. Quase todos os alojamentos têm lavandarias self-service, e este não foi exceção. Na rua não vão encontrar esse tipo de serviço.

Com o trabalho feito, e dado o adiantado da hora para pequeno-almoço, a opção foi mais tipo brunch, antes de partirmos para o Art Museum, na Ilha de Yeongdo. As cigarras, nas árvores espalhadas pela cidade, faziam um barulho intenso, mas ritmado. Aliás, tem sido assim em todos os locais por onde passamos na Coreia. Onde há árvores, há centenas ou milhares de cigarras, que preenchem o ambiente com um pano de fundo natural, com sons vibrantes. Como cada espécie tem o seu próprio ritmo e tom, criam-se verdadeiras sinfonias caóticas.

Autocarro para o museu, num percurso interessante pela cidade. Aproveitamos para explicar, que nos transportes, tem de se picar o cartão à entrada e de novo à saída, para calcular o valor final a pagar. Há uma tarifa base, mas se a viagem for muito longa, há um acerto de valor à saída. Não picar na saída, pode implicar cobrarem-lhe a tarifa máxima nessa viagem, ou mesmo ficar com o cartão suspenso.

O Art Museum, artemuseum.com, é de arte imersiva e digital, com várias salas que recriam diferentes ambientes. Visita muito interessante, pelo ambiente recriado, num ambiente fora do nosso contexto usual. À entrada há cacifos onde devem ser deixadas malas e mochilas, e indicação que deve ir ao WC antes de entrar, porque lá dentro é tarefa impossível. O preço de entrada é de 12 €.

Mais um UBER, para uma deslocação rápida ao Gamcheon Culture Village, uma antiga vila de casas humildes, construída de forma labiríntica, nas encostas de uma colina. A vila surgiu em 1950, quando refugiados da Guerra da Coreia ali se instalaram. Foi negligenciada durante décadas, até que em 2009, sofreu um projeto de revitalização, com muitos artistas a serem convidados a transformar o local. Muitos murais e arte urbana, casas pintadas em cores vibrantes, pequenos cafés, galerias de arte, tornam o local apetecível para nos perdermos nas suas ruelas, sempre com surpresas ao virar de cada esquina. Não esquecer que, continuando a ser zona residencial, os avisos de barulho e respeito pela privacidade dos moradores, são constantes. Um local muito fotogénico, de visita imperdível. A chuva voltou a aparecer, felizmente fraca, que os ponchos rapidamente travaram.

Mantendo o calendário do dia, o próximo ponto era o mercado do peixe. Mais um autocarro, que rapidamente nos levou ao destino. Até ao momento o sistema de transportes públicos tem sido excelente. Antes disso, paragem numa farmácia, para adquirir medicamento para dores nas costas. Após muitas dúvidas por parte da “paciente”, lá tomou os 4 comprimidos, que resultaram na perfeição, nunca mais tendo tido esse problema.

O Mercado de Jagalchi, é um dos maiores e mais emblemáticos mercados de peixe de todo o país. Simplesmente gigante, mantendo todo o seu produto vivo, em enormes aquários. Tem a parte térrea, com centenas de bancas de venda, e no piso superior, restaurantes, que preparam o peixe comprado no andar de baixo. Podem comer peixe mesmo fresco, por 10 € por pessoa. Não o fizemos porque é complicado peixe para um dos elementos desta viagem. Só ver o peixe vivo, já é impedimento para não o conseguir comer, entre outras coisas, como “peixe com cabeça”. Nem se tentou esta experiência… além deste edifício, existe ainda outro ao lado, com bancas de venda que simultaneamente são também restaurantes, onde as senhoras fazem logo a refeição.

Havendo ainda tempo, pequeno passeio pela zona circundante. Não resistimos a uns bao, pequenos pães cozidos ao vapor, recheados com pasta de feijão. As frutarias vendem bacias de fruta a preço definido, o sistema de comércio aqui.  Na Praça BIFF, o Passeio da Fama do Festival Internacional de Cinema de Busan, num estilo de Hollywood, com várias placas no chão com as assinaturas e moldes das mãos de cineastas e atores consagrados. Subitamente, damos de caras com um café de gatos, todos eles abandonados, e claro está, tivemos de ir beber algo, aproveitando para descansar um pouco e mimar pequenos felinos. O Day of Butler, cobra 6 € por pessoa, que inclui uma bebida, num espaço repleto de gatos. Trinta e sete é a população atual.

Após o jantar, passeio no bairro do nosso hotel, o Seomyeon, um dos centos urbanos mais movimentados da cidade, com grande oferta de entretenimento, cafés e vida noturna. Noite para fotografias self-service, numa das variadíssimas lojas que oferecem este produto. Um negócio que deve ser bom, dada a grande afluência de jovens a estes espaços. Todas elas equipadas com acessórios que se podem utilizar, e vimos uma que até placa elétrica para alisar cabelo tinha! E o mais estranho, é que nada desaparece. Passagem também por uma loja inteiramente dedicada à Hello Kitty. Numa das ruas, uma mini-feira popular indoor, despertou-nos a atenção e entrámos. Jogos e diversões para todos os gostos. Vimos um bad-boy, que elegemos como o melhor bad-boy da viagem. Um jovem, vestido de calções pretos, botas texanas de pele de cobra e t-shirt de alças preta, lançava, com ar de desprezo, setas para um alvo eletrónico. Bad-Boy do ano! De repente, dentro do espaço, gritos ecoaram, junto às máquinas de pinças dos bonecos. Duas jovens raparigas gritavam, de uma forma estridente, com pulinhos, para extravasar a felicidade de terem conseguido um peluche, já com um tamanho médio. Pela felicidade, deve ser mesmo um daqueles difíceis de sair. Isto é mesmo uma paixão. Por outro lado, e bem perto, 2 adultos, sempre a passar o cartão de crédito na máquina, desesperavam por não conseguirem tirar o boneco que desejavam… é uma paixão transversal a todas as idades.

Dia 3

O dia começou tarde, para descanso dos viajantes. A opção foi de novo um brunch de guiozas com arroz, uma opção sempre deliciosa. Nos telemóveis começam a cair alertas de segurança. Desta feita, novo aviso sobre um javali à solta algures numa aldeia, com um nome que não conseguimos replicar.

Autocarro para a praia Songdo, inaugurada oficialmente em 1913, sendo a primeira praia pública do país. Tem um sky walk, o Songdo Clouds Trails, que nos leva até à pequena Ilha da Tartaruga. Nesta ilha existem duas estátuas, uma de princesa e outra de pescador. Diz a lenda, que há muitos anos, um pescador encontrou no mar uma linda mulher desmaiada, trazendo-a para terra. Era a filha do Rei Dragão do Mar, uma princesa do reino submarino, que tinha subido à superfície para tentar viver como humana. Para a transformação ficar completa, ela precisava de rezar mil dias. O amor nasceu entre os dois, e o pescador prometeu ajudá-la nesses mil dias de transformação. Mas a chegada súbita de invasores, levou a que o pescador fosse convocado para a guerra, onde faleceu. A princesa rezou aos deuses do mar, e o seu pai, comovido com a dor da filha, transformou o corpo do pescador numa rocha em formato de tartaruga, onde a princesa ficou eternamente a olhar para o mar, com saudades do seu amado.

Em frente à praia, temos o Parque Amnam. Para quem quiser um trajeto mais direto, pode apanhar o teleférico Busan Air Cruise. Nós optámos de novo pelo autocarro. O Amnam Park, é uma zona fortemente arborizada, com pinheiros, e um importante espaço geológico com falésias formadas há 100 milhões de anos. Tem muitos trilhos pela floresta e junto à costa, mas as altas temperaturas do dia não convidam à sua realização. Tem uma ponte suspensa que liga à pequena ilha rochosa de Dongseom, mas que não conseguimos atravessar. Estava encerrada com a indicação de ventos fortes, e apenas corria uma brisa. A determinada altura, entram na ponte 7 ou 8 soldados de camuflado, descem alguns degraus e regressam. Perguntámos ao oficial se iria reabrir, mas indicou-nos, que devido aos ventos fortes, iria continuar encerrado. Continuava apenas uma brisa… subimos até ao topo da falésia, e robots animados, de tamanho real, de dinossauros, fazem as delícias dos pequenotes. O T-REX, mesmo sabendo que é um robot, impõe algum respeito.

O miradouro é um local a não perder. Tem uma vista absolutamente fantástica e extremamente fotogénica. Há vários elementos espalhados pelo miradouro, que ajudam a compor fotografias interessantes.

Para os interessados, há ainda duas situações, que só encontrámos, até agora, aqui neste país. A Cápsula do Tempo, onde podemos escrever uma carta para nós, que fica guardada num cilindro por vários anos, sendo enviada passado o tempo definido e a Time Letter Zone, onde se deposita uma carta com o nosso endereço, que nos será enviada decorrido um ano. Ambos os serviços são pagos, mas como não enviámos nada, não conseguimos informar os custos.

Dois autocarros depois, e uma grande parte da cidade atravessada, a próxima paragem é a praia de Gwangalli e a sua linda ponte Gwangan. No largo paredão, cães passeavam dentro de carrinhos, com ar muito importante. Um deles até óculos escuros tinha! Os cães aqui são tratados como verdadeiros principezinhos.

Dezoito horas e a praia fecha para banhos. Ordeiramente todos acatam a ordem dos nadadores-salvadores. O jantar foi cedo, e tivemos a sorte de ser num primeiro andar, na mesa com vista para o mar. Até os noodles tiveram um gosto especial, com esta vista maravilhosa. As luzes da ponte começam a acender-se e os artistas de rua, quase todos cantores, começam a montar o seu equipamento no vasto areal. Ficámos a ver um deles, que tinha um repertório muito eclético, e que fazia as delícias de grandes e pequenos espetadores.

Com a chegada da noite, as luzes da ponte ficam mais intensas e brilhantes e vão mudando, numa interessante coreografia de cores.  Várias dezenas de embarcações começam a chegar perto dos pilares da ponte, e todas lançam fogo de artifício a baixa altitude e em simultâneo. Será com certeza algum produto turístico, porque repetem o percurso e o lançamento de fogo, várias vezes durante a noite. Na praia, e mesmo junto à linha de água, homens de coletes florescentes, verificam se não há ninguém dentro de água. Uma situação que aqui parecem levar muito a sério. No paredão veem-se ao longe, pequenas luzes de emergência ligadas. São polícias a pé, que durante a noite, usam essas luzes nos cintos, tal qual um carro-patrulha, para assinalar a sua presença.

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  • Diário de Odivelas - Redação

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