Saúde Para Tod@s | Ansiedade invisível: o impacto que não se vê, mas se sente

Todos nós já sentimos ansiedade: antes de um exame, de uma entrevista de emprego ou de uma decisão importante. O coração acelera, as mãos suam, a mente não para. Até certo ponto, é normal já que é o nosso corpo a preparar-se para reagir. Mas quando essa ansiedade não passa ou surge sem motivo aparente, pode tornar-se limitante no dia-a-dia.

Ansiedade: normal ou problema?

A ansiedade é uma resposta natural do organismo perante situações de ameaça ou desafio. O problema é quando se torna exagerada, frequente ou incapacitante.

  • Ansiedade normal: ajuda a concentrar, motiva e desaparece quando a situação passa.
  • Ansiedade patológica: persiste no tempo, aparece sem motivo, causa sofrimento ou interfere na vida familiar, social ou profissional.

Uma realidade em Portugal

A ansiedade é um dos problemas de saúde mental mais frequentes no nosso país. Estima-se que cerca de 9% da população portuguesa sofra de perturbação de ansiedade, sendo este valor dos mais elevados da Europa. Estudos recentes mostraram que a ansiedade é mais prevalente nas mulheres, nas pessoas com doenças crónicas e nos idosos, estimando-se cerca de 10%. Também se verificou um aumento de novos casos após a pandemia de COVID-19.

Apesar destes números, muitas pessoas continuam a pensar que a ansiedade é uma fraqueza ou que “passa sozinho”. Esta ideia falsa adia o diagnóstico e o acesso a tratamento eficaz, que ajuda a melhorar a condição de saúde.

Como se manifesta?

A ansiedade pode manifestar-se de diversas formas, entre as quais:

  • Sintomas físicos: palpitações, falta de ar, tonturas, nó no estômago, nó na garganta, tensão muscular, suores, tremores.
  • Sintomas psicológicos: preocupação constante, pensamentos negativos, sensação de perda de controlo, irritabilidade.
  • Comportamento: evitar sair de casa, faltar ao trabalho, medo de situações sociais.

Se estes sinais se repetem e dificultam a vida diária, é altura de procurar ajuda.

Consequências de ignorar a ansiedade

A ansiedade não tratada tem impacto real na saúde física:

  • aumenta o risco de hipertensão arterial e doenças cardiovasculares;
  • está associada a distúrbios digestivos, como gastrite ou síndrome do intestino irritável;
  • provoca insónia crónica, com repercussões na memória e no sistema imunitário;
  • aumenta a probabilidade de recorrer a álcool, tabaco ou fármacos sem prescrição para aliviar sintomas.

Além da saúde física, compromete a vida profissional, social e familiar, levando muitas vezes ao isolamento e à depressão.

Estratégias simples que ajudam

Não existem soluções instantâneas, mas pequenas mudanças no dia-a-dia podem reduzir a ansiedade:

  • Respiração consciente: inspirar profundamente pelo nariz, segurar 3 segundos, expirar devagar. Repetir várias vezes.
  • Sono regular: manter horários de deitar e levantar, criar um ambiente tranquilo no quarto, desligar ecrãs antes de dormir.
  • Atividade física: caminhar, nadar, dançar ou andar de bicicleta. O exercício liberta endorfinas, que são “analgésicos naturais” contra a ansiedade.
  • Alimentação equilibrada: evitar excesso de cafeína, álcool e açúcar, que podem agravar sintomas. Optar por refeições regulares, com frutas, legumes e hidratação adequada.
  • Rotinas saudáveis: reservar tempo para lazer, cultivar relações sociais, sair ao ar livre.

Estas medidas não substituem tratamento médico quando necessário, mas podem ser um apoio fundamental.

Quando procurar ajuda?

Se a ansiedade persiste, interfere com o sono, com o trabalho ou com as relações pessoais, é altura de falar com um profissional de saúde. O primeiro passo pode ser o médico de família, que orienta para psicologia ou psiquiatria, se necessário.
Existem tratamentos eficazes:

  • Psicoterapia, em particular a terapia cognitivo-comportamental, com resultados comprovados;
  • Medicação, quando indicada, sempre sob supervisão médica;
  • Programas de gestão da ansiedade disponíveis no SNS e em linhas de apoio psicológico.

Procurar ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de coragem e autocuidado.

Mitos a desmistificar

  • “É só stress, não é doença.”

Falso. A ansiedade patológica é uma perturbação reconhecida e merece tratamento.

  • “Se ignorar, passa.”

Falso. Nem sempre. Muitas vezes agrava se não for tratada.

  • “Só pessoas fracas têm ansiedade.”

Falso. Pode afetar qualquer pessoa, em qualquer idade.

  • “Homens não têm ansiedade, só mulheres.”

Falso. Os homens muitas vezes escondem os sintomas, o que dificulta o diagnóstico.

  • “A medicação para a ansiedade vicia sempre.”

Falso. Existem tratamentos seguros quando usados corretamente e sob acompanhamento médico.

Conclusão: cuidar da mente é cuidar da vida

Sentir ansiedade é humano. Mas viver permanentemente ansioso não tem de ser “normal”. Reconhecer os sinais, adotar estratégias simples e procurar ajuda, quando necessário, pode devolver o equilíbrio. A saúde mental é parte essencial da nossa saúde global. Tal como cuidamos do coração ou dos pulmões, também devemos cuidar da mente.

Referências

  1. Direção-Geral da Saúde. Plano Nacional de Saúde Mental 2023-2030. Lisboa: DGS; 2023.
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental health: Anxiety disorders. Geneva: WHO; 2023.
  3. European Psychiatric Association. Guidelines on the management of anxiety disorders in adults. Eur Psychiatry. 2021.
  4. Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ansiedade – informação para a população. OPP; 2024.
  5. OECD/European Observatory on Health Systems and Policies. Portugal: Country Health Profile 2023, State of Health in the EU. Paris: OECD Publishing; 2023.
  6. Santos A, et al. Anxiety in Portugal: Associated Factors in Adult Population from 2011 to 2021 (EpiDoC cohort). Front Public Health. 2024.
  7. Ferreira L, et al. Anxiety and Depression in Portuguese Older Adults. Front Med. 2017;4:196.
  8. Ferreira V, et al. Anxiety and depression disorders in Portugal during the COVID-19 pandemic: nationwide registry data. Int J Environ Res Public Health. 2022;19(21):14157.
  9. Alves P, et al. Anxiety and Cardiology: A Systematic Review. Psicol Hosp (São Paulo). 2024;22(1):60–75.

 

Autor: Dra. Lénia Faria da Costa

Revisão:  Dra. Susana de Oliveira Branco

  • Diário de Odivelas - Redação

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