
Assim que acordámos, tivemos a vista fantástica do nosso quarto, para um mar que continuava tranquilo, transparente e com uns tons de azul lindos!

Ao pequeno-almoço, companhia de dois pachorrentos gatos, que olhavam para nós a ver se lhes tocava algum petisco. Não foi fácil tirar a Ana da sala de refeições.
De volta à estrada, a direção de hoje era para as montanhas. Ainda tivemos mais uns quilómetros junto à água, e passámos por ruas e ruas de bares, restaurantes, rent-a-car, rent-a-bike, tours, enfim, tudo o que os turistas querem, mas nesta altura do ano, nem um estabelecimento aberto.

Paragem na cidade costeira de Malia, muito conhecida pelas suas praias de areia dourada e águas azul-turquesa. Sem turismo, estava muito tranquila, a cidade velha praticamente deserta, proporcionando um passeio muito agradável, que nos permitiu descobrir, muito relaxadamente, todo o seu charme. Bem perto da costa, a Ilha de Afentis Christos, com a sua pequena capela Senhor Cristo. Todos os 6 de agosto, a capela realiza uma grande celebração, que atrai muitos visitantes, quer locais, quer de outras partes da ilha de Creta. Na ilha ainda restam vestígios de um quartel veneziano e um cemitério minoico.

Tempo de rumar às montanhas, com o intuito de visitar, em primeiro lugar, o Mosteiro Feminino de Panagia Theogennitoros.
Não foi fácil percebermos que estava aberto. Um enorme portão metálico barrava a entrada do carro, e não se via vivalma. Tocámos várias vezes o sino e quando já estávamos prestes a desistir, surge ao longe uma freira, que nos grita, primeiro em grego e depois em inglês, “está aberto”. E não é que havia uma pequena porta, que nem se dava pelo ferrolho, e que dava acesso ao complexo. Fomos gentilmente recebidos pela freira, que informou de imediato ser proibido fotografar no interior da igreja. Só podemos fotografar as vistas, que na realidade são de cortar a respiração, tal não é a localização do Mosteiro, com uma vista deslumbrante para Malia. Apesar de haver sempre velas disponíveis, fomos à loja comprar um molho gigante, com mais de 20 velas certamente, para iluminarmos devidamente, toda a nossa família e amigos. No final, a freira ofereceu-nos bolinhos, que são bênçãos do Mosteiro. Ficou muito sensibilizada por termos acendido tantas velas, e ficámos ali um tempo à conversa. Entrou para o Mosteiro com 29 anos, mas não sabemos a idade atual. Talvez tenha entre 50 e 60 anos.

Próxima paragem em Mochos, uma típica aldeia de montanha. Pelas ruas, grupos de crianças tocam ferrinhos e cantam músicas de Natal, para receberem dinheiro. Uma tradição grega nesta época, algo semelhante ao nosso Pão por Deus.

Salta à vista que a Praça Central é o centro nevrálgico da localidade, com os seus cafés e tabernas, num ritmo muito agrícola. Tem um ditado, que diz, “em Mochos, ninguém é estrangeiro por muito tempo”.
Mas o ponto alto, aconteceu quando demos com um café de decoração antiga, mas com muita alma. A porta estava semiaberta e espreitámos. Do outro lado da rua, um velhote que dormitava ao sol, faz-nos sinal para entrarmos, o que fizemos. Afinal o café era dele, não funcionando no presente como tal. Hoje é a sua habitação. Sem falarmos grego e ele sem falar inglês, estivemos um bom bocado a conhecer a sua história. A sua mulher faleceu há 4 anos, e vive sozinho. Explicou as fotografias antigas que recheavam as paredes. Uma dele, com a farda de polícia e outra muito mais antiga, na marinha. O pai também foi polícia e tinha fotos deliciosas. Ofereceu-nos rebuçados, e, houvesse uma comunicação fluída, tínhamos ficado ali o resto do dia, a ouvir as histórias que certamente ele terá para contar. São estes pequenos momentos que nos levam a viajar. São estas surpresas que nos impelem a ir e a explorar. Foi mesmo o ponto alto do dia e talvez de toda a viagem.

Ainda nesta localidade, tentámos ir à barragem, mas a estrada estava péssima, e optámos por retroceder, não fosse o Panda ficar-se por ali. Esta barragem, Aposelemis, submergiu a aldeia de Sfendyli, que vai reaparecendo se o nível da água baixar muito.

Um pouco mais adiante, visitámos a aldeia de montanha de Krasi. Pequena, tranquila e muito rural. É conhecida pelo seu plátano monumental, um dos mais antigos e maiores de Creta. Ponto central da aldeia, onde todas as decisões comunitárias importantes foram tomadas. Dizem ter mais de 2.000 anos. Cresce junto a uma fonte de água, que segundo consta, nunca secou. Essa água sempre foi utilizada nos lavadouros de roupa da aldeia, as antigas “redes sociais”, onde as notícias circulavam, entre uma ou outra coscuvilhice.

Mais para o interior, e à beira da estrada, mesmo no enfiamento com o mar, de onde vem o vento dominante, surgem repentinamente fileiras de antigos moinhos em pedra, que, apesar de muito destruídos, ainda mostram a sua opulência. Em tempos idos, para além da sua função de moagem, funcionavam como ponto de observação para proteção do planalto nas suas costas. Uma lenda local, era a de quando as pás giravam muito depressa, com pouco vento, algo importante aconteceria.

Depois dos moinhos, um enorme planalto, o de Lasíthi, surge à nossa frente, numa paisagem essencialmente agrícola, a contrastar com a dos relevos montanhosos, onde as cabras e ovelhas são rainhas. Um pouco mais de frio, a 840 de altitude. Nas montanhas circundantes, os picos mais altos estão pintados de branco. Local de muitas hortas, pela fertilidade do terreno. Dezenas de pequenos moinhos de vento para bombear água, salpicam a paisagem.

Sem restaurantes abertos, o almoço foi comprado num pequeno supermercado, numa das várias pequenas aldeias do planalto. Empadas folhadas de queijo, ainda mornas, deliciosas, e umas tangerinas sumarentas e doces, tornaram a merenda muito agradável, degustada à porta de uma pequena igreja, abrigados do frio, que soprava gelado.
Voltamos à estrada sinuosa de montanha, e nuvens pretas, ameaçadoras de chuva, aproximam-se, mas para já foi apenas uma ameaça.

O destino do dia era a cidade costeira de Agios Nikolaos, muito conhecida pela lagoa Voulismeni, localizada no centro da cidade, de uma beleza singular e com ligação ao mar. A cidade tem uma atmosfera muito pitoresca, e a grande animação de Natal, acontece nas margens da lagoa. Num dia sem vento, como o de hoje, a lagoa está um espelho fantástico, tornando-se num spot fotográfico ainda mais apetecível.
Estacionar o carro é sempre uma aventura. Pouco espaço disponível, torna a tarefa muito complicada. Nem quero imaginar o que será no verão com mais uns milhares de viaturas a circular na estrada e nas cidades.

De novo, alojamento negociado ao balcão e conseguimos ainda um pouquinho menos que no Booking, Genius 3, ficando por 60 €. E ainda tivemos upgrade para vista de lago, no último piso. https://dulachotel.gr/.
A cidade surgiu no período minoico, e no período bizantino foi batizada com o nome atual, em homenagem ao padroeiro dos marinheiros, São Nicolau. Várias lendas existem sobre a sua lagoa de água doce. Uma delas diz que a deusa Afrodite ali nadou.

O jantar foi à beira do lago, já iluminado com as luzes de Natal e fim de ano, no restaurante Celeste. Staff mesmo muito simpático. Perguntaram de onde éramos, porque turistas praticamente não se veem. Um dos funcionários passou então a dizer obrigado para mim e obrigada para a Ana. Expliquei que sendo homem só diz obrigado. Mesmo não pedindo, trouxeram sobremesa, oferta da casa. Já é a segunda vez. A Ana comeu calamares, que aqui são pequenas lulas fritas, com um aspeto maravilhoso, e o prato ficou no top 3.










