
Matala, pela manhã, estava um completo deserto. Apenas os gatos circulavam, e à nossa passagem, iam seguindo-nos, na esperança de haver algum petisco. Hoje saímos do Sul e voltamos à parte norte da Ilha de Creta.

Fizemo-nos à estrada e uns quilómetros à frente de Matala, numa pequena vila, vimos uma padaria, e encostámos o carro, para tomar o pequeno-almoço. Em boa hora o decidimos! Que maravilha de estabelecimento! Em funcionamento há muitas décadas, com todo o mobiliário original, e uns pastéis deliciosos! O aroma que tinha a pão fresco era qualquer coisa de fabuloso. Adorámos verdadeiramente! Numa cadência elevada, crianças entravam a tocar ferrinhos e a cantar músicas de Natal, para lhes darem alguma oferta.

Depois desta reconfortante e deliciosa refeição, regresso às estradas de montanha e aos seus típicos vilarejos. Em Lambino parámos na Igreja Bizantina de Panagia, templo do século XI. Estava encerrada. Foi palco de uma triste história, em 1829, quando Creta estava sob o domínio otomano, mas com uma forte guerrilha contra esta ocupação. Os turcos pediram aos habitantes que se rendessem, mas estes refugiaram-se na igreja. A porta foi queimada, os homens executados e queimados em frente à igreja, e as mulheres vendidas como escravas.

Na viagem para a cidade de Rethymno, outros locais arqueológicos que pretendíamos visitar, estavam encerrados para férias, pelo que a viagem foi mais rápida do que esperávamos. Nota para as estradas da ilha. O que mais existem são duplos traços contínuos, com muito poucos locais para ultrapassagens. Pouca gente respeita essa regra, porque até grandes retas têm traços contínuos, o que por vezes não se entende. Aparecem também muitos radares de velocidade, por vezes em zonas de velocidade máxima de 30 km.

Rethymno, que neste dia estava com um trânsito absolutamente caótico, tem uma imponente fortaleza veneziana, que protegia um dos portos mais estratégicos da ilha. A título informativo, bem perto da entrada da fortaleza existem dois parques de estacionamento, pagos. A visita à parte velha da cidade, é muito interessante, com as suas ruas estreitas e labirínticas, pequenas praças e pátios escondidos, tudo planeado para uma fácil defesa do perímetro urbano, em caso de invasão.

Sendo cedo, decidimos almoçar no Lago Kournas, o único lago de água doce em Creta. Nesta altura do ano, inverno, apenas patos se encontravam no local, já que todos os estabelecimentos se encontravam encerrados. Esta excelente companhia, adicionando a maravilhosa paisagem, transformou uma refeição simples, num almoço verdadeiramente gourmet.

A caminho de Chania, o ponto previsto de paragem deste dia, paragem no cemitério militar alemão, onde estão sepultados 4 000 soldados, mortos durante a invasão de Creta e nos anos subsequentes de ocupação. A 20 de maio de 1941, milhares de tropas alemãs aerotransportadas foram lançadas sobre a ilha, defendida na época por tropas gregas e aliadas. Apesar de forte resistência, os alemães ocuparam a ilha, até 1945, num período negro da história da ilha, com retaliações brutais por parte dos nazis, às muitas ações de resistência civil.

Junto ao carro, vários gatos aguardavam a nossa chegada. Felizmente para eles, ainda havia alguns sticks do LIDL, e foi a loucura. Um simpático gato amarelo, saltou para o meu colo, e desfazia-se em meigos “ronrons”.
Destino final do dia é Chania, e durante o caminho, reserva do alojamento, via booking. Paragem ainda num LIDL, porque amanhã, dia 25, dizem-nos que quase tudo estará encerrado. Com a opção de ficarmos alojados na cidade velha, o carro teve de ser deixado fora das muralhas, num percurso de 10 minutos a pé, até ao alojamento.

Descobrir a receção comum a vários alojamentos da mesma marca comercial, foi um verdadeiro suplício. Apesar dos telefonemas, passeámos quase por todas as estreitas ruelas da cidade velha, com as mochilas às costas, porque não estava a ser fácil à pessoa que estava do outro lado da linha, explicar devidamente o trajeto a seguir. Mais tarde soubemos que era a primeira semana de trabalho dela.
Dia 24 de dezembro, véspera de Natal. Aqui não há bacalhau, nem jantar em família. Há sim um enorme convívio no exterior, com milhares de pessoas em praças e ruas, a beber e a dançar ao som de DJs. Ainda nem 21H00 eram, e já vimos alguns a sair em braços, com Raki a mais. Raki é uma bebida alcoólica tradicional, com um teor alcoólico de 45.º, com grande importância cultural e social. É um destilado forte, feito de uvas fermentadas, e beber raki é um ritual social de convivência e amizade.
As adolescentes usam “farda” para sair à noite. Quase todas de preto, com saias curtas e botas altas. E a temperatura estava bem fresca.
Passámos ainda pelo mercado de Natal da cidade, onde gentilmente um feirante nos ofereceu bolos típicos desta época. Um russo, já com uma boa dose de raki, insistiu em tirar fotos com a Ana.









