
Fui ver, com uma enorme curiosidade, a nova produção teatral do Artistas Unidos, agora na sua nova sala, no Poço do Bispo, perto do Teatro Meridional. É da autoria do espanhol Juan Mayorga cujo Teatro é de grande qualidade e bem atual.
Num cenário que é um café, o proprietário e único empregado aborda um homem sentado numa das suas mesas, depois de o observar a encorajar um outro, derrotado depois de ter perdido o emprego. A forma bonita e veemente como o fez desperta naquele uma esperança: só ele pode descobrir porque a sua mulher, antes companheira no café, servindo na cozinha, se fechou, em casa, remetendo-se a um silêncio embaraçoso. Antes, quando chegava e contava quem frequentara aquele local, ela escutava-o com bastante interesse. Até que, um dia, lhe contou que tinham lá estado uns fregueses que falaram sobre um local – os Jugoslavos – aprazível e convidativo, com boa música e onde as mulheres dançavam. A partir desse dia ela emudeceu.
Ele tinha-a conhecido naquele mesmo café, sentada numa mesa, conversaram, enamoram-se e formaram um casal, vivendo na mesma casa. Mas a sua relação já era pouco comum: ela continuava a ser uma estranha; pouco sabia dela, de onde tinha vindo, das suas origens e vivências anteriores. Sabia que, de vez em quando, punha a tocar, na Rádio, umas canções em língua estranha. Entre eles já existia uma certa incomunicabilidade; digamos que era o encontro de duas solidões ou, de certa forma, uma solidão acompanhada, a pior de todas.
O que o outro homem conseguiu descobrir é que ela, depois do marido sair de casa para o trabalho, se vestia para sair à procura de não se sabe do quê. Nesta procura diária e incessante, infrutífera, a filha do homem encarregado de descobrir aquele mistério troca um mapa com a mulher do dono do café que a faz descobrir que os tais Jugoslavos, que tanto buscava, era ali, no mesmo café onde tinha conhecido o homem com quem vivia, o seu proprietário.
Um texto com final aberto
É uma peça com final aberto à interpretação de cada espectador, algo de que gosto bastante, um argumento policial cuja solução temos de descobrir. Penso que aquela mulher teria vindo de um país que se dividiu depois da morte do seu traço de união – a ditadura do marechal Tito – a Jugoslávia. Que, após uma atroz guerra civil, se dividiu e na qual morreram milhares de pessoas, se fragmentou, dando origem a vários Estados e Nações. E os ruídos que ela ouvia eram, os da guerra que presenciara e vivera, ecos de um passado traumatizante.
Era assim uma refugiada, uma exilada à procura de compatriotas, exilados como ela, os tais Jugoslavos, com quem poderia dialogar na sua própria língua e recordar episódios comuns passados, talvez resolver, ou paziguar as suas feridas, o seu exílio interior.
A encenação de Pedro Carraca é excelente e as interpretações esplêndidas. Apenas com uma ressalva Mercês Melo, intérprete da narradora e filha do homem que procura resolver aquele enigma, tem uma voz onde predominam os agudos irritantes – falta de graves. Ou usaria um tom neutro quando narradora e, na sua outra personagem, não sabe dar devida “cor” e tom às palavras, não as sabe saborear. Creio que por ser a sua estreia no Teatro Profissional. Mas defeitos que terá forçosamente de corrigir.
Um espetáculo que recomendo vivamente, um texto que nos desafia e faz pensar em todos os exilados, de tantos conflitos por esse mundo fora. A não perder.
Autor: Juan Mayorga.
Tradução: António Gonçalves.
Cenário e figurinos: Rita Lopes Alves.
Assistência de cenografia: Francisco Silva.
Desenho de luz: Pedro Domingos.
Som: André Pires.
VÍDEO: Nuno Barroca.
Assistente de encenação: Raquel Montenegro.
Intérpretes: Inês Pereira, Mercês Borges, Paulo Pinto e Pedro Caeiro. Encenação: Pedro Carraca.
Teatro Paulo Claro
Rua do Açúcar, 37
Lisboa
Até 28 de março | Preço 12€ |M12 | ter: 19h30; qua: 19h30; qui: 21h; sex: 21h; sáb: 16h, 21h







