“Água é a força motriz do desenvolvimento sustentável”
(Grupo Águas de Portugal”)

Imagem de Stefan Schweihofer por Pixabay
Estamos tão habituados à presença da água que só damos conta da sua relevância quando ela nos faz falta.
Os últimos episódios da falta de água em Almada vieram, mais uma vez, alertar governantes e comunidade em geral para a necessidade urgente de se alterarem hábitos e comportamentos (reutilização de águas cinzentas nos domicílios, por ex.) e de serem criadas medidas de poupança (reutilização de águas residuais, por ex.) e gestão mais eficiente deste recurso (infraestruturas mais robustas, tecnologia avançada e novas redes de captação água subterrânea e superficial para aumentar o armazenamento disponível, entre outras).
Recordemos que a “Terra é azul” (Iuri Gagarin, 1961), pois aproximadamente 70% da superfície da Terra é coberta por água, sendo cerca de 97 % salgada e apenas 3 % doce (em calotas polares, glaciares e em aquíferos profundos), deixando apenas menos de 1% acessível e segura para consumo humano.
Trata-se, pois, de um bem finito e vulnerável, que sustenta o nosso modo de vida, a nossa economia e os nossos alimentos.
É vital para a nossa saúde (podemos sobreviver várias semanas sem comer, no entanto, sem água, a sobrevivência é de apenas 2 a 4 dias) e fundamental para a indústria e energia, para a agricultura e para a preservação da biodiversidade e regulação do clima do planeta.
“Até 2030, a procura mundial de água excederá em 40 % os recursos disponíveis, sendo necessário envidar esforços para garantir a sua disponibilidade e qualidade em todo o mundo” (Organização das Nações Unidas, Comissão Europeia)
Um recurso atualmente sujeito a grandes pressões, como são (1) o crescimento populacional, que faz aumentar a procura e consequentemente a extração de água muitas vezes para além da capacidade de recarga natural dos aquíferos – temos hoje solos que abateram devido a sobre-exploração e poços e reservas subterrâneas esgotadas por força da urbanização, agricultura e indústria-, (2) a poluição – produtos químicos industriais e agrotóxicos agrícolas que inutilizam aquíferos e albufeiras- e (3) a má gestão publica e privada –as perdas/fugas, o uso excessivo e o desperdício de água – todas situações altamente agravadas em contexto de alterações climáticas.

Grupo Águas de Portugal
“As mudanças climáticas levarão a alterações no ciclo hidrológico que, por sua vez, impactarão os recursos hídricos da Europa”, alerta o Copernicus, programa de Observação da Terra da União Europeia.
Um programa que, através de satélites e sensores, monitoriza, a seca e a escassez de água em Portugal. Através do Copernicus Climate Change Service (C3S), é possível avaliar a humidade do solo e os níveis das albufeiras.
Apesar da situação ter melhorado nos últimos meses (das albufeiras monitorizadas pela APA em julho 2026, 53% apresenta disponibilidades hídricas superiores a 80% do volume total e uma tem disponibilidades inferiores a 40% do volume total) Portugal enfrenta o risco de entrar num ciclo de défice hídrico devido a escassez de chuva (não chove desde Março) e ao calor extremo que se faz sentir na Europa e em Portugal, tendo já o IPMA observado uma diminuição generalizada da humidade do solo, situação que terá impactos diretos na agricultura e nos ecossistemas.
Noutra perspetiva, se lançarmos o olhar para a Agenda 2030 das Nações Unidas e para os seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), recorde-se – criados para melhorar a vida das pessoas, a sociedade e o ambiente – podemos verificar que a preocupação com a água é transversal aos 17 Objetivos.

Grupo Águas de Portugal
ODS 1- Erradicar a Pobreza; a falta de acesso à água potável e saneamento, de forma segura, ainda mantém na pobreza milhões de pessoas em todo o mundo
ODS 2- Acabar com a Fome; sem água não é possível uma agricultura que satisfaça as necessidades humanas, aumentando assim a insegurança alimentar em todo o mundo.
ODS 3- Vida saudável; garantir o acesso à saúde de qualidade e ao bem-estar para todos não é possível sem acesso a água potável e ao saneamento básico.
ODS 4- Educação de Qualidade; a água é essencial para uma boa aprendizagem. Problemas de saúde e falta de higiene podem afetar a capacidade do individuo, jovem ou adulto, frequentar e aprender na escola.
ODS 5- Igualdade de Género; o igual acesso à água para todos permite que todos, homens e mulheres, participem de igual modo no processo educativo e no mercado de trabalho.
Em 2026, no Dia Mundial da Água, a ONU, para destacar a ligação vital entre a segurança hídrica e a igualdade de género, escolheu o tema: “Água e Género” sob o lema: “Onde a água flui, a igualdade cresce“.
ODS 6- Água Potável e Saneamento; este Objetivo reconhece que o acesso à água potável e a infraestruturas de saneamento básico são pilares essenciais para a saúde pública, para a erradicação da pobreza e para a sustentabilidade ambiental.
ODS 7- Energias Renováveis; se a água é essencial para produzir energia limpa, a energia é necessária para bombear e tratar a água.
ODS 8-Trabalho Digno e Crescimento Económico; a água é fundamental para a indústria, pelo que práticas sustentáveis de gestão da água contribuirão para o crescimento económico e para mais emprego.
ODS 9- Indústria, Inovação e Infraestruturas; Muitas atividades – a agricultura, indústria, produção de energia e turismo – têm na água a sua principal matéria-prima, pelo que, é vital a sua gestão eficiente.
ODS 10- Redução das Desigualdades; garantir o acesso universal à água e a distribuição eficiente e equitativa evita que ninguém fique para trás.
ODS 11-Cidades e Comunidades Sustentáveis; cidades exigem boas infraestruturas que salvaguardem as comunidades de eventos extremos (inundações e cheias, por ex.) e práticas eficientes de gestão da água (sistemas de Drenagem, Bacias de Retenção, por ex.)
ODS 12- Produção e Consumo Sustentáveis; o uso eficiente e sustentável dos recursos naturais, nomeadamente da água, é essencial para o bom desempenho das atividades comerciais e industriais.
Com quase 70% da água doce a ser consumida na agricultura, o combate ao desperdício alimentar e o apelo a um consumo consciente torna-se fundamental (Sabias que para produzir uma folha de papel são necessários 10 litros de água? E que a pegada hídrica de uma chávena (125 ml) de café é de cerca de 140 litros de água e de uma t-shirt de algodão pode chegar aos 2500 litros?)
ODS 13- Ação Climática; práticas sustentáveis de gestão da água aumentam a resiliência das comunidades aos choques climáticos e mitigam os impactos das alterações climáticas.
ODS 14 – Proteger a Vida Marinha; para combater a poluição da água (plástico, resíduos e poluentes nocivos), a destruição de habitats e a sobrepesca, é vital adotar práticas sustentáveis de gestão da água.
ODS 15- Proteger a Vida Terrestre; proteger florestas e restaurar ecossistemas (zonas húmidas, montanhas e terras áridas) é proteger a vida terrestre. Práticas sustentáveis de gestão da água promovem a biodiversidade da Terra.
ODS 16- Paz, Justiça e Instituições Eficazes; para vivermos em sociedades pacíficas e inclusivas é importante termos instituições fortes, transparentes e justas, pelo que, há que investir em práticas sustentáveis de gestão da água e evitando sempre a escassez hídrica, situação que gera sempre conflitos e tensões na comunidade.
ODS 17- Parcerias para a Implementação dos Objetivos; a boa gestão e o acesso universal à água vão exigir forte cooperação entre governos e sociedade sem o qual não será possível enfrentar com sucesso um dos grandes desafios do século XXI.
Em síntese, a água é fundamental não apenas para as necessidades humanas básicas, mas também para garantir a sustentabilidade a longo prazo.
“Um planeta com água sem qualidade é um planeta sem qualidade de vida”.
Na realidade, sem água não há vida. Ela é essencial para o desenvolvimento sustentável nos seus três pilares: Sociedade, Economia, Ambiente.
De acordo com o Banco Mundial, sem garantirmos a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento, não atingiremos os grandes objetivos da Agenda 2030 – desenvolvimento humano, saúde pública, cidades habitáveis e sustentáveis, mitigação das alterações climáticas, segurança alimentar, segurança energética, crescimento económico.
Que nunca nos falte a água! Se a soubermos usar, ela não vai faltar.
Para saber mais:
https://www.dgterritorio.gov.pt/atividades/cartografia/cooperacao-internacional/copernicus
https://climate.copernicus.eu/water-management
Carlos Jesus
Licenciado em Sociologia
Mestre em Ecologia Humana









