
A voz do Lucas silenciou-se. O coração parou a poucas horas de mais um concerto, como se a vida tivesse decidido interromper a música no preciso instante em que ele se preparava para a oferecer ao mundo. Neste silêncio, profundo e inesperado, ecoa o vazio deixado pela partida de Matheus, em 2020, durante a pandemia, de forma súbita e sem aviso. Dois golpes duros, dois silêncios que ninguém esperava.
O Início de um Sonho em Portugal
Lembro-me, com nitidez, do momento em que chegaram a Portugal em 1993 para assinarem contrato com a editora Vidisco e preparar o lançamento do primeiro CD “Palavras Ao Vento” em 1994. Traziam consigo não apenas o talento, mas sonhos imensos e uma vontade férrea de vencer. Como profissional da indústria discográfica tive o grato privilégio de acompanhar bem de perto o percurso da dupla, 1994 – Palavras ao Vento (Vidisco), 1995 – Pedindo Amor (Vidisco), 1996 – A Chama da Paixão (Vidisco), 1997 – Minha Estrela Perdida (Vidisco), 1998 – Depois de Você (Vidisco), 1999 – Preciso do Teu Prazer (Vidisco), 2000 – Lucas & Matheus (Vidisco/Atração), 2000 – Caminhos do Amor (Vidisco), 2002 – Vou-te Amar Assim (Vidisco), 2003 – Só Dessa Vez (Vidisco), 2004 – Sempre Juntos (Vidisco).
Uma década em que testemunhei na primeira pessoa a determinação que contagiava todos os que se cruzavam com eles.
Lucas e Matheus não conquistaram apenas o público português, fizeram de Portugal também a sua casa. Brasileiros de Presidente Prudente SP, de alma quente, pautaram a sua carreira pela simpatia, pela empatia e por uma dedicação inabalável a cantar o amor e a dor.
Transformaram cada palco num abraço coletivo. A sua presença no panorama musical português não foi apenas uma passagem comercial, envolveram-se na nossa cultura, criaram vias para a sua música e levaram-na às comunidades espalhadas pelo mundo que partilham a língua portuguesa, o mesmo sentir, a mesma saudade.
Um Legado de Generosidade
A dupla, que mais tarde renasceria com o Matheus Jr. — filho do Matheus — numa prova de amor à arte e à memória de Matheus, deixou um legado e uma discografia que transcende a música. Eram pessoas que não competiam com os seus colegas de profissão, antes pelo contrário, foram autênticos pilares de apoio, ajudaram outros cantores e bandas a ganharem visibilidade, cedendo o seu próprio palco.
Mais do que vozes que nos acompanharam e nos tocaram profundamente, perdemos seres humanos fantásticos. Pessoalmente guardarei para sempre a memória de homens justos, leais, reconhecidos e genuinamente bons.
No dia em que se presta a homenagem de despedida terrena ao meu Amigo Edivaldo da Silva Rodrigues, conhecido como Lucas, porque o outro Amigo Edilson da Silva Rodrigues, conhecido como Matheus, faleceu a 22 de dezembro de 2020, a música fica mais pobre, mas o eco da sua arte e a marca da sua humanidade permanecerão entre nós.
Que descansem em paz.
João Azeitona | Facebook







