Diário de Bordo – Azerbaijão | Dia 4








Aproveitámos a linda manhã de sol, para conhecer a aldeia numa outra perspetiva de luz e conhecermos mais locais. Encontrámos o ferreiro, já aberto, que fazia, com mestria, cravos para ferraduras. As lojas ambulantes, os tais carros que falámos ontem, carregadinhos de fruta e legumes, já circulam pela aldeia, assim como um antigo camião militar soviético, aqui aproveitado até à exaustão, que vagarosamente, transportava uma carga de pedras, carga essa que nos iria dar algum trabalho.

Tempo para um último chá e bolachas em casa da nossa anfitriã, a seu convite, antes de retirar o carro do seu quintal e seguirmos viagem. Só que, a tal carga de pedras que vimos passar, foi descarregada mesmo no meio da estrada, a única por onde poderíamos sair. Não foi tarefa fácil, primeiro saber de quem eram as pedras, segundo quem as tirasse do caminho. Ninguém falava inglês, o que tornava a explicação muito complicada. Finalmente, uma vizinha, que falava algumas palavras, conseguiu perceber o nosso problema e ajudou-nos na resolução. Lá aparecem uns homens, que, pouco satisfeitos, afastaram as pedras para um dos lados. Poucos centímetros de folga ficaram para o nosso carro, mas lá conseguimos passar.

Hoje faríamos outro caminho para sair desta zona, e se a estrada da chegada foi linda, esta não ficou atrás, numa paisagem completamente diferente. A chegada foi feita pelos picos da montanha, e a saída foi feita por um desfiladeiro maravilhoso, sempre acompanhando o leito de um rio, num traçado fantástico de condução em curvas, como eu gosto, apesar dos “ais” da “navegadora”.

Saídos da montanha e passando por uma zona florestal, pequenas bancas surgiam nas bermas, vendendo chá e um tipo de pão, feito no momento, numa chapa de ferro, abastecida a lenha. São Qutabs. Decidimos parar e provar este petisco, e em boa hora o fizemos, porque, na realidade é mesmo bom. Apesar de vários recheios possíveis, como ervas ou carne, optámos pelo qutab de queijo. Um segundo excelente pequeno-almoço, até porque precisávamos de energia extra para a próxima paragem, a cascata Yeddi Gozel.

Esta cascata fica numa zona de bosque denso, e o seu nome significa “sete belas”, por ter sete níveis de quedas de água, ao longo de toda a encosta. Umas rudimentares escadas dão acesso até ao último nível, num percurso bem agradável, mas que puxa pelo físico. Diz a lenda, que quem for ao primeiro nível, fica com os seus males curados. Eu fiquei com uma dor nos joelhos e subi tudo até lá acima! Lendas…

Ainda por cima a próxima paragem, seria em montanha, onde atingiríamos os 2.000 metros. Mas calma… vamos de teleférico!

Parámos então no Tufandag Mountain Resort, em Qabala, e fizemos toda a rede dos 4 teleféricos que funcionam em sequência, e nos levam ao topo da montanha, num percurso de quase 6 quilómetros. No inverno funcionam para levar praticantes de ski e snowboard às pistas, e no verão permitem admirar as vistas sobre a cidade e as lindas montanhas do Cáucaso. Para os amantes de caminhadas, é uma zona repleta de trilhos pela natureza.

E, depois deste relaxante passeio, de volta à estrada, até à aldeia de Nij, para percebermos um pouco a história do povo Udi, um dos povos indígenas mais antigos do Cáucaso, com origens bastantes antigas. A sua origem está ligada às populações que habitavam a região do atual Azerbaijão há muitos séculos. São frequentemente associados à antiga Albânia Caucasiana, um reino que existiu aproximadamente entre o século IV a.C. e o século VIII d.C. Com a expansão do cristianismo na região, parte das populações da Albânia Caucasiana tornou-se cristã. Ao longo dos séculos, a região passou por diferentes impérios e muitas das antigas populações foram assimiladas por outros grupos, mas uma pequena comunidade conseguiu preservar a sua identidade cristã e a sua língua — os Udis.

Um local, onde se pode conhecer melhor esta comunidade, é a visita ao museu etnográfico Udi Hearth, existente numa antiga propriedade Udi, com a casa, construções agrícolas, jardim, e o muro alto em redor de toda a propriedade. A visita foi-nos feita por um simpático jovem, que nos contou a história da casa, pertença de um médico, e a forma de vida de tempos recuados. Foi também a primeira casa a ter uma televisão, que ainda subsiste.

Bem perto, visitámos ainda a histórica Igreja de Chotari, de especial importância para esta comunidade cristã. Construída no século XVIII, com o esforço financeiros dos habitantes locais, teve um período negro durante a ocupação soviética. Deixou de funcionar como espaço religioso e passou a ser armazém de avelãs. Com a queda da União Soviética, voltou a ser utilizada pela comunidade, como espaço de culto, depois de um grande restauro.

E a seguir Sheki, a cidade onde iremos pernoitar, e provavelmente uma das cidades mais importantes do Azerbaijão, pela história que encerra dada estar localizada na antiga Rota da Seda. O hotel escolhido, está numa casa com mais de 200 anos, recuperada para boutique hotel, já no tecido histórico da cidade, e de construção tradicional de pedra e madeira. O seu interior, mantem muita história, quer através de mobiliário quer de objetos. Seria certamente a casa de família de um rico comerciante, possivelmente de seda.

O dia já ia longo, e o sol bastante baixo. Aproveitámos a luz que ainda nos restaria, para conhecer uma parte da zona antiga, deixando para amanhã os monumentos. As ruas acompanham a topografia do vale e das encostas das montanhas, que sobem abruptamente à saída da cidade. Destacam-se na paisagem, as casas tradicionais, com grandes telhados altos e inclinados. Era aqui que se criavam bichos-da-seda. Por todo o lado se podem ainda encontrar amoreiras, de especial importância para produção de seda. A caminho do Palácio, dois enormes Caravanserai, o Lower e o Upper.

O primeiro está de momento sem utilização e algo destruído, e Upper, é, no presente, um hotel, e está num estado de preservação muito bom. Visitámos o interior e, à saída, um ainda jovem cão, mas já com um porte bem grande fez-me perder um bom bocado. Não resisti à sua simpatia e fiquei longos minutos, sentado na escada, por onde já passaram milhares de viajantes, a brincar com ele. Era mesmo uma delícia!

O pôr-do-sol, não sendo para o mar, foi bem bonito e chegou a hora de jantar. A primeira opção foi a de um restaurante com um nome bem conhecido, Gagarin, o famoso cosmonauta russo. Resquícios da antiga União Soviética. Mas, talvez pelo nome do espaço, a atenção estava totalmente virada para clientes russos. Não foi fácil termos uma mesa, porque as melhores, vazias, estavam guardadas para esses clientes. Utilizando uma frase muito conhecida, dentro de todo este espírito soviético,  “Bye Bye Lenine!” e demos “volta ao cavalo”, sendo que “alunámos” no restaurante do Upper Caranvesarai, onde fomos muito bem recebidos. Já repararam que nunca iremos promover ou aconselhar o Gagarin, o restaurante claro está. O cosmonauta, esse irá sempre figurar na história!

Não poderíamos terminar a noite sem provar o doce tradicional da cidade, o Sheki halva. É feito, em camadas, com massa de arroz muito fina, nozes, especiarias, calda de açúcar, e algum açafrão. No nosso hotel, no belo pátio interior, havia um pequeno restaurante, onde também serviam um menu de chá, que incluía, para além de outras coisas, este famoso doce. Venha o bule!

Amanhã, visitas a monumentos na cidade e o regresso a Baku.

 

 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

    Related Posts

    Ele há coisas | Episódio 4

     

    Espaço Sociedade & Ambiente | Irá o mapa-mundo mudar?

     Tudo indica que sim. O mapa-mundo como o conhecemos poderá ser reconfigurado. Sabemos como os mapas são fundamentais para moldar a nossa visão do mundo e o lugar que nele…

    Publicidade

    Ele há coisas | Episódio 4

    Ele há coisas | Episódio 4

    Corte de abastecimento de energia em algumas artérias da Póvoa no dia 01 de outubro

    Corte de abastecimento de energia em algumas artérias da Póvoa no dia 01 de outubro

    Em outubro Odivelas vai ter “Odivelas Conventual – Doçaria no Mosteiro”

    Em outubro Odivelas vai ter “Odivelas Conventual – Doçaria no Mosteiro”

    29 de setembro – Dia Mundial do Coração

    29 de setembro – Dia Mundial do Coração

    8 de setembro — Dia Internacional do Direito ao Saber

    8 de setembro — Dia Internacional do Direito ao Saber

    Diário de Bordo – Azerbaijão | Dia 4

    Diário de Bordo – Azerbaijão | Dia 4