
Esperava-nos um longo dia, com muitos quilómetros a percorrer em muita estrada de montanha.
As formalidades do rent-a-car foram muito rápidas e a simpatia do funcionário, que já o tinha sido no dia anterior, ainda tornou o processo mais simples. E vamos para a estrada!
A condução em Yerevan é muito fácil. Os russos fizeram largas avenidas, pelo que o trânsito flui muito bem.

A primeira paragem prevista seria no Mosteiro de Khor Virap, um mosteiro que está ligado a uma das figuras mais importantes da história da Arménia: Gregório, o Iluminador. O nome deste mosteiro já é um indício da sua história, uma vez que significa “masmorra profunda”. Muito resumidamente, antes de ser mosteiro, este local era uma prisão subterrânea. No final do Século III, o rei arménio Tiridates III perseguia os cristãos. Gregório, cristão, e nobre influente da corte, recusou-se a participar em cultos pagãos do rei, e, como castigo, foi atirado para uma cova profunda nesta prisão. Dizem que ali ficou 13 anos, e apenas sobreviveu porque uma mulher cristã lhe levava comida em segredo. Conseguiu sair, porque o rei Tiridates III ficou gravemente doente e a sua irmã teve um sonho em que viu Gregório ainda vivo e que seria a única pessoa a conseguir curá-lo. O rei mandou Gregório sair da prisão, e conseguiu curá-lo, o que o levou a converter-se ao cristianismo, tornando assim a Arménia o primeiro país a adotar oficialmente o cristianismo como religião de Estado.

Ainda é possível descer à suposta masmorra onde Gregório terá estado preso. A fila era bastante grande, porque apenas há uma pequena escada, pelo que optámos por passar essa visita. Até porque tínhamos ainda de contemplar a fabulosa vista que se tem deste mosteiro, para o Monte Ararat, outro símbolo do país.

As condições de visibilidade eram muito más, pela bruma atmosférica provocada pelo tempo quente. Mas deu para ver toda a sua imponência dos mais de 5 000 metros de altitude, e o topo nevado. Num dia límpido será com certeza uma imagem deslumbrante. Hoje, foi o possível…
Mas dissemos atrás, que este Monte é um dos símbolos do país, apesar de estar em território turco. Uma das razões poderá ser a história de Noé e sua arca. Sendo o primeiro país a adotar oficialmente o cristianismo, diz a bíblia que a Arca de Noé repousou, após o dilúvio, sobre as montanhas de Ararat. Além disso, segundo a narrativa, Noé teria plantado uma vinha ao sair da arca. E esta zona é muito famosa pelas suas vinhas e vinho. Todos estes fatores e mais alguns certamente, tornaram este Monte um símbolo cultural da Arménia.

Tínhamos de regressar à estrada, que seria bem mais secundária e pelas montanhas. A paisagem estava definitivamente espetacular. A partir de determinada altura começaram a suceder-se, à beira da estrada, as bancas de venda de pêssegos, com um aspeto delicioso. Parámos numa delas, e comprámos pêssegos, que custavam 0,30 € o quilo… só vos digo… há muito tempo que não comíamos pêssegos desta qualidade e sabor! Maravilhosos! As senhoras que os vendiam eram muito simpáticas e ainda tivemos diálogos interessantes com quem não conseguia dizer uma palavra de inglês. Aproveitámos a presença de uma pequena padaria local, para comprar uns folhados e o almoço ficou despachado, até porque não sabíamos bem o que teríamos mais para a frente.

Retomámos a marcha, e continuámos a viagem por um bonito vale. Do nosso lado direito ficava o Irão, ali bem pertinho de nós. A próxima paragem seria no Mosteiro de Noravank. A estrada final de acesso é feita num desfiladeiro fantástico, rodeado por enormes paredes de rocha vermelha, quase parecendo que o mosteiro fica escondido dentro da montanha, porque ele é também construído de pedra avermelhada.

Este mosteiro ganhou importância nos séculos XIII e XIV, quando esta zona estava sob a influência da poderosa família Orbelian. Com o seu apoio o mosteiro transformou-se num verdadeiro centro religioso, político, artístico e intelectual. Aqui passaram a funcionar espaços ligados à produção de manuscritos e à educação. O mosteiro foi também escolhido como local de sepultamento da família, uma das mais poderosas da Arménia medieval.

Merece a visita para apreciar a Igreja de Surb Astvatsatsin, construída em dois andares e com uma escadaria exterior muito estreita e íngreme para o piso de cima, as esculturas de Momik, um enorme artista da época a trabalhar a pedra, e as ckachkars, as tradicionais cruzes esculpidas em pedra.

E estava na hora de seguir para a próxima vista, que seria um local bem mais antigo e que fica a poucos quilómetros deste mosteiro. Falamos da gruta de Areni-1, uma estação arqueológica que continua a ser estudada e que se pensa ter ocupação humana há mais de 8 000 anos! Quanto a vocês não sei, mas a mim fascina-me visitar estes locais e tentar imaginar como seria a vida dos nossos antepassados nesses recuados tempos. O interior é algo labiríntico, com estreitas passagens que dão para câmaras mais largas, e onde se desenvolveram várias atividades humanas. Aqui encontraram o mais antigo sapato de couro conhecido, com 5 500 anos! Foi aqui também descoberto um dos mais antigos complexos de produção de vinho, que se pensa ter 6 000 anos! Ainda são visíveis os recipientes cerâmicos de produção e armazenamento de vinho.

De regresso à estrada e sempre a subir em direção ao Vorotan Pass, a 2.334 metros de altitude, em lindas estradas de montanha. Depois, uma longa descida, que nos iria levar até ao reservatório de Spandarian, uma enorme albufeira artificial construída no rio Vorotan.

Pelo caminho fomos passando por torres que pareciam estruturas de antigas minas, mas que afinal eram poços de ventilação da era soviética, para o complexo sistema de tuneis hidroelétricos que existem por toda a montanha, de forma a canalizar a água entre reservatórios.

Continuando a serpentear entre as montanhas, a próxima paragem seria na cascata de Shaki. Localizada no deslumbrante desfiladeiro do rio Vorotan, tem 18 metros de altura e dizem ser a mais bonita e imponente do país. Não sabendo como são as restantes, podemos afirmar que esta é lindíssima, bem como toda a paisagem envolvente, junto ao rio. Apesar de ser agosto, o caudal estava bem impressionante.

Foi aqui que travámos “conhecimento” com um bolo com um nome bem português. “GATA”! É o doce mais tradicional e antigo da Arménia, e talvez o mais adorado. É um bolo grande, redondo, achatado, que fica entre um pão doce e uma pastelaria mais folhada. Tem um recheio no interior que nos pareceu de fruta, e por cima terá sido pincelado com gema de ovo. É bom!
A próxima paragem a sério, já só seria no destino do dia, a aldeia de Tatev. Estariam à nossa espera os últimos 14 quilómetros desta viagem de hoje, numa desafiante e sinuosa estrada, de apenas 14 quilómetros de extensão, mas de duração prevista de 40 a 50 minutos. Que delícia!

Os planaltos por onde fomos passando tinham uma paleta de cores muito virada para o dourado. São extensões de terra muito aproveitadas para o cultivo de cereais. Há que ter paciência com as vacas, que pastam livremente pelas montanhas, e que por vezes gostam de fazer da estrada local de paragem e descanso.

E finalmente, depois de muitos quilómetros, a aldeia de Tatev, um povoado rural remoto e montanhoso, situado no topo de um impressionante planalto de basalto a cerca de 1560 metros de altitude. Fica empoleirada mesmo à beira do dramático e profundo desfiladeiro do rio Vorotan. Uma zona de uma beleza fabulosa, que mantem a sua atmosfera autêntica e intemporal. Nem as ruas da aldeia são asfaltadas! Para além disso, é também conhecida pelo seu mosteiro e pelo teleférico, “Wings of Tatev”. Já lá iremos.

Para já era tempo de descobrir o nosso “bed & breakfast”, numa das casas da aldeia. Não foi difícil e fomos muito bem recebidos pelos nossos anfitriões, mãe e filho, que têm uma parte da sua habitação reservada para alojamento.
Largámos rapidamente a bagagem, porque a tarde já ia bem adiantada e queríamos ainda visitar o terceiro mosteiro do dia, o de Tatev, um dos grandes centros religiosos da Arménia, a partir dos séculos IX e X. Nos séculos XIV e XV foi aqui que funcionou a Universidade de Tatev, criando um grande polo de conhecimento. Foi também um importante centro de produção de manuscritos. Mas nem tudo foi bom. No século XII, uma invasão levou à destruição de 10 000 manuscritos.

Para além da sua localização absolutamente de tirar o fôlego, da sua importância história, da sua beleza, tem uma estrutura muito curiosa, que é o Gavazan, uma coluna de pedra que podia oscilar, servindo assim de aviso para tremores de terra.

Tatev é também conhecida pelo teleférico, que atravessa todo o desfiladeiro, o “Wings of Tatev”, construído para tirar a aldeia do isolamento a que estava sujeita, pela sua geografia e pela intensa neve no inverno. Desde 2010, passou a ser um meio alternativo de poder entrar e sair da aldeia, sem grandes complicações.
O jantar foi um delicioso kebab, na esplanada de um pequeno restaurante, com vista privilegiada para o Mosteiro e para as lindas montanhas que compõem a paisagem.

Mas o dia não terminaria sem a surpresa do dia, e quiçá o “episódio” que mais nos marcou, pela positiva, nesta viagem. Digo-vos que são estas coisas que nos levam a continuar a percorrer o mundo!
Depois do kebab, decidimos dar uma volta a pé pela aldeia. A certa altura do nosso percurso, cruzamo-nos com um senhor, que nos cumprimenta com salaam aleikum, o que aqui é algo estranho, ou não estivéssemos nós no primeiro país cristão do mundo. Respondemos com aleikum salaam, e o senhor diz-nos ser iraniano, num inglês muito fraco. Está explicado! Mas só isto não seria história alguma. Seguimos juntos uns metros e o senhor aponta para um portão e diz a palavra çay – chá – fazendo o gesto para entrarmos. Claro que fomos, sem nenhuma excitação! Esperávamos encontrar a sua família, mas não… vivia numa velha casa, num primeiro andar de uma só divisão, com pouco mais de 10 metros quadrados. Não falava uma palavra de inglês. Sem nada ter, tudo nos ofereceu. Rapidamente, numa velha e gasta frigideira, fez uma bela cesta de frutas, e começou a fazer o chá, com toda a atenção. Ia explicando o processo, em persa, mas pouco entendíamos. Saiu do espaço momentaneamente e trouxe-nos o jantar! Explicámos que já tínhamos jantado, mas ele ia insistindo. O chá ficou pronto, feito num velho bule e a mistura de ervas e de bagas estava absolutamente divinal. Fomos falando ou pelo menos tentando. Percebemos que estava na Arménia havia 3 meses e estaria quase de volta ao Irão. Tinha visto de turista. Veio para a Arménia porque no Irão a vida está muito difícil, com os últimos acontecimentos da guerra com os EUA. Mostrou fotos no telemóvel do seu filho mais novo. Tem mais 4. Tem 58 anos. Achamos que faz cofragens em obras. Partiu avelãs frescas, que nunca tínhamos provado. Depois de 2 copos de chá, estava na hora de sairmos, porque ele não jantava, apesar da nossa insistência. Uma hora que nos encheu o dia. Mais uma bela memoria que levaremos desta viagem.

Temos por hábito, apesar de não sermos muito religiosos, de acender, cada um de nós, uma vela em templos religiosos, quando isso é possível. No próximo mosteiro, acenderemos 3 velas. Este senhor merece uma só para ele.
Amanhã é mais montanha e terminaremos o dia num gigante lago para usufruirmos, no dia seguinte de praia e relaxamento.







