Os grandes incêndios da História do nosso Portugal



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Portugal viveu dias difíceis. O verão de 2025 ficará marcado como um dos mais negros da nossa memória recente, com mais de 2% do território nacional reduzido a cinzas. A cada chama que avança, sentimos que a História regressa — não como lição, mas como maldição. E se recuarmos no tempo, percebemos que os grandes incêndios sempre acompanharam a trajetória deste país, como uma sombra persistente que nos recorda a nossa fragilidade diante da natureza e da imprevidência humana.

Não é apenas de fogos florestais que falamos. A História regista, em Portugal, incêndios urbanos devastadores, capazes de arrasar cidades inteiras e deixar marcas que demoraram séculos a sarar.

Em 1384, no cerco de Lisboa durante a crise de 1383-1385, a Mouraria ardeu quase por completo. Não foi apenas a guerra contra Castela, mas também a fome, a peste e a desorganização de uma cidade sitiada que alimentaram o fogo. Lisboa, tantas vezes palco de tragédias, conheceu cedo o drama das chamas descontroladas.

Já em 1423, novo golpe: um grande incêndio devastou a zona ribeirinha da capital, junto à Rua Nova dos Ferros, onde o comércio pulsava. Perderam-se arquivos, mercadorias e casas. O coração mercantil da cidade ficou paralisado, numa altura em que Portugal se lançava às descobertas marítimas.

No interior, também Coimbra conheceu a sua tragédia. Em 1663, em plena Guerra da Restauração, um fogo gigantesco consumiu a baixa da cidade. Ardeu património, perderam-se alfaias agrícolas e o povo ficou mais pobre, enquanto o país lutava pela independência.

Lisboa voltaria a conhecer o horror em 1 de novembro de 1755. O terramoto destruiu a cidade, mas foi o incêndio que se seguiu — alimentado por velas, fogões e armazéns inflamáveis — que completou a tragédia. Durante dias, o fogo devorou o que restava de igrejas, palácios e casas, num cenário apocalíptico que traumatizou a Europa inteira. Foi a maior catástrofe natural e humana da nossa História.

O Porto também não escapou. Em 1874, um incêndio na Ribeira destruiu armazéns de vinho e mercadorias, deixando centenas de desalojados e ferindo gravemente o comércio da cidade. O Douro viu a sua riqueza transformada em cinzas, e a memória desse fogo ainda ecoa nas crónicas oitocentistas.

Mais perto de nós, o Chiado ardeu em 1988. Lisboa assistiu, em direto e em choque, a uma tragédia que consumiu lojas históricas, palácios pombalinos e símbolos culturais. O país inteiro acompanhou os bombeiros, impotentes diante de chamas que só a genialidade posterior de Álvaro Siza Vieira conseguiu transformar em renascimento. Ainda hoje, quem passa pelo Chiado sente a cicatriz desse agosto de há 37 anos.

Depois veio o ano terrível de 2017. Em junho, o incêndio de Pedrógão Grande matou 66 pessoas e deixou feridos mais de duas centenas. Famílias inteiras foram apanhadas nas estradas pela violência das chamas, numa tragédia que expôs como nunca as falhas do Estado, a ausência de prevenção e a vulnerabilidade das populações. Foi o incêndio mais mortífero da nossa História democrática e permanece como uma ferida aberta na consciência nacional.

E chegamos ao presente. Em 2025, não é uma rua, nem uma praça, nem um bairro que arde. É o país. O inimigo já não é o fogo urbano, mas o fogo florestal, multiplicado pela seca, pelas alterações climáticas e pela falta de prevenção que repetidamente denunciamos, mas nunca corrigimos. Perde-se o território, perdem-se aldeias, perde-se o trabalho de gerações. É uma guerra desigual contra a natureza, mas também contra a nossa própria inércia.

Portugal tem uma História feita de glórias e tragédias. Os grandes incêndios recordam-nos que, sem memória e sem responsabilidade, estamos condenados a repetir a destruição. Arderam cidades, arderam armazéns, arderam bairros. Agora arde o país. E a pergunta impõe-se: vamos deixar queimar também o futuro?

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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