Ao longo de quase 50 anos convivendo com os Elevadores da Glória, eles foram mais do que simples meios de transporte; foram testemunhas silenciosas da minha vida, de momentos inesquecíveis. Foram os meus primeiros transportes públicos na infância, os companheiros de tantas jornadas, de risos, de lágrimas, de sonhos e de esperança. Neles, brinquei, li, joguei, namorei, discuti, fiz amigos, fui ao cinema e ao teatro, levaram-me a restaurantes, ansioso por uma entrevista de emprego, e uma alegria imensa ao conquistar uma oportunidade. Cada viagem era uma história, cada passagem, uma emoção guardada na memória.

Hoje, ao chegar ao meu gabinete e ver a Calçada da Glória despida dos seus icónicos elevadores amarelos, um silêncio pesado invade o meu coração. Não ouço mais o som das cabinas a passarem, não sinto mais o chão vibrar sob a passagem deles. É uma sensação de perda profunda, uma mistura de tristeza e vazio que corta fundo na alma. Eles eram mais do que máquinas; eram parte da nossa história, do nosso quotidiano, do meu mundo. E agora, a sua ausência deixa um vazio que nenhuma palavra consegue preencher.
Henrique Tigo








