Cancros Digestivos: o silêncio que custa vidas em Portugal

Em Portugal, todos os dias, cerca de 30 pessoas perdem a vida devido a cancros digestivos². Em 2022, estes tumores (incluindo estômago, colorretal, pâncreas, fígado e esófago) representaram uma fatia substancial da carga oncológica nacional². Estes números, por si só alarmantes, ganham contornos ainda mais dramáticos quando percebemos que Portugal está entre os países com maior incidência e mortalidade por cancro do estômago na Europa Ocidental, com especial peso no Norte do país¹.

O Dia Mundial do Cancro Digestivo, que se assinalou esta semana, deve ser mais do que uma data simbólica. É um alerta para uma crise de saúde pública que continua a crescer perante os nossos olhos. Até 2045, as projeções internacionais apontam para um aumento dos novos casos de cancros digestivos em Portugal, se nada mudar, à semelhança da tendência europeia². Isto traduziria um falhanço coletivo em travar doenças que, quando diagnosticadas precocemente, têm hipóteses reais de tratamento eficaz.

Porque razão Portugal tem este peso tão desproporcionado? A resposta está em fatores culturais e estruturais. A dieta tradicional, rica em sal e fumeiro, o consumo persistente de álcool e tabaco, as taxas de obesidade e sedentarismo e, sobretudo, a elevada prevalência da infeção por Helicobacter pylori (agente carcinogénico para o estômago) explicam parte desta realidade. Mas não podemos ignorar um fator igualmente grave: o silêncio e a normalização dos sintomas. Durante meses, demasiados portugueses convivem com perda de apetite, perda de peso, azia frequente ou dor persistente no estômago sem procurarem ajuda médica. Quando chegam ao consultório, o cancro está muitas vezes em fase avançada, com opções terapêuticas mais limitadas.

É urgente quebrar este ciclo. Precisamos de apostar em campanhas de sensibilização em linguagem clara e enfrentar uma das falhas mais graves da saúde pública em Portugal: a ausência de um programa de rastreio de base populacional.

Em 2024, foi dado um primeiro passo com um projeto-piloto nos Açores: rastreio gratuito da infeção por Helicobacter pylori na ilha Terceira, através das farmácias. É um avanço importante, mas localizado e de caráter piloto; à escala nacional, o rastreio continua oportunístico, sem cobertura universal nem organização populacional.

De forma semelhante, no cancro colorretal não existe ainda um programa nacional universal de rastreio de base populacional: a implementação permanece regional e desigual, deixando grandes segmentos da população sem acesso regular e equitativo.

A prevenção e o diagnóstico precoce são as nossas maiores armas e passam por reduzir fatores modificáveis como o tabaco, o álcool, o excesso de sal, a obesidade e o sedentarismo; detetar e erradicar H. pylori em larga escala, com vias de acesso simples; garantir endoscopia atempada sempre que haja sintomas persistentes ou lesões pré-malignas; e evoluir de pilotos locais para programas organizados, com convites sistemáticos, monitorização e auditoria, assegurando equidade territorial. É também essencial garantir um rastreio de base populacional para o cancro colorretal no nosso país.

O impacto dos cancros digestivos vai muito além das estatísticas: sofrimento físico e emocional e diagnósticos tardios porque o sistema e a sociedade não responderam a tempo. Cada atraso significa menores probabilidades de sobrevivência.

Não podemos aceitar que Portugal lidere nas piores estatísticas. Não podemos permitir que a normalização do risco nos torne indiferentes. Temos de agir agora. O futuro pode parecer distante, mas 2045 está a duas décadas de distância. O que fizermos — ou não fizermos — hoje determinará quantas vidas conseguiremos salvar amanhã.

É tempo de transformar o silêncio em ação e inverter esta realidade.

Vítor Neves, Presidente da Europacolon Portugal

Referências

¹ Registo Oncológico Nacional 2020 – SNS Portugal. Disponível em: https://ron.min-saude.pt
² Globocan 2022 – International Agency for Research on Cancer (IARC). Disponível em: https://gco.iarc.who.int

 

  • Diário de Odivelas - Redação

    Related Posts

    Dia Europeu da Terapia da Fala: Dar Voz, Autonomia e Ligação ao Mundo

    No dia 6 de março, celebramos o Dia Europeu da Terapia da Fala. É a data em que, por toda a Europa, se destaca a importância crucial desta profissão para…

    Dia Mundial da Vida Selvagem

    Comemorado a 3 de março, o Dia Mundial da Vida Selvagem  é o momento ideal para lembrarmos que não estamos sozinhos neste planeta e que a beleza da fauna e…

    Publicidade

    Diário de Odivelas Compacto- 74

    Diário de Odivelas Compacto- 74

    Junta da Pontinha lembra que viaturas em cima dos passeios limitam as ações de limpeza

    Junta da Pontinha lembra que viaturas em cima dos passeios limitam as ações de limpeza

    Dia Europeu da Terapia da Fala: Dar Voz, Autonomia e Ligação ao Mundo

    Dia Europeu da Terapia da Fala: Dar Voz, Autonomia e Ligação ao Mundo

    Workshop Gestão do tempo e do stress para os exames nacionais

    Workshop Gestão do tempo e do stress para os exames nacionais

    Ações de sensibilização sobre prevenção de doenças nas escolas do concelho

    Ações de sensibilização sobre prevenção de doenças nas escolas do concelho

    Prémio Beatriz Ângelo

    Prémio Beatriz Ângelo