Bem-vindo ao caos: aquele dia em que percebes que tudo mudou

Crónica 2

Há um momento. Um clique. Um ponto de não-retorno. Pode ser no hospital, com o bebé ao colo, enquanto olhas para aquele ser de três quilos e meio com olhos semicerrados e respiração instável, e pensas: “Mas… quem é este?”. Pode ser em casa, às três da manhã, quando estás a dançar em cuecas na sala com um recém-nascido ao colo, ao som de “Ruído Branco – Ciclo da Máquina de Lavar 8h”, e percebes que o teu único objetivo é não morrer.

Não morrer de sono. Não morrer de nervos. Não morrer de dúvidas. E aí entras oficialmente: no caos.

Até aqui, eras um adulto funcional. Tinhas uma rotina. Um horário. Uma ideia qualquer de quem eras. Tinhas a tua parceira, os vossos rituais, as vossas conversas sobre séries, brunches, viagens, vinho branco fresquinho e contas partilhadas no Spotify.

Tudo isso… evapora-se. Assim que o bebé entra em casa, o vosso mundo transforma-se numa república das bananas gerida por um ditador que chora, grita e faz as suas necessidades sem pompa e circunstância, muitas vezes, fazendo tudo isto ao mesmo tempo.

E tu? Já não és o protagonista… E custa.

Acordas às seis porque o bebé acordou às cinco. Ou melhor: nunca chegaste a dormir. Vais à casa de banho, olhas ao espelho, e há um homem novo a viver no teu rosto. Um homem com olheiras, que parecem fossos medievais. Um homem que se alimenta de restos de bolachas digestivas e café morno. Um homem que, se tiver tempo para lavar os dentes de manhã, já considera isso um momento de autocuidado.

A tua juventude? Ficou algures no frigorífico, entre o iogurte e os sacos de leite congelado da tua mulher.

Lembras-te quando ias correr ao final da tarde para “limpar a cabeça”? Agora a tua corrida é até ao caixote do lixo com o saco das fraldas. Limpar a cabeça passou a significar conseguires tomar banho sozinho, sem alguém a chorar no andar de baixo como se estivesses a cometer um crime de abandono.

A tua relação entra num modo novo. Já não há longas conversas existenciais na cama. Agora há trocas telegráficas de informações vitais:

  • Mudaste a fralda?
  • Dei biberão às
  • Está a arrotar?
  • Já pus para

São  diálogos  que  parecem  cenas  de  um  filme  pós–apocalíptico. Mas são vossos. E, estranhamente, são ternos. Há um novo tipo de intimidade: sobreviver juntos.

Riem juntos quando o bebé vos decide sujar em jato às seis da manhã. Ou quando adormecem os dois em pé no sofá. Ou quando um de vocês grita “onde está o bebé?!” e o bebé está no colo. Sim, isso vai acontecer.

Vais sentir falta de ti. Da versão de ti que tinha tempo para estar só. Para pensar. Para existir em silêncio. Agora o silêncio é suspeito…

Se não ouves nada, corres para ver se o bebé ainda está a respirar. A liberdade torna-se uma memória. Sair de casa é um plano logístico comparável à deslocação do Papa. Ir ao supermercado a sós é, de repente, um retiro espiritual.

E aquele almoço com amigos sem filhos? Vais, mas chegas atrasado, sujo e com o casaco borrado por uma baba suspeita. E ninguém percebe. Mas tu também não percebias! E mesmo assim… mesmo assim, há momentos. Momentos em que olhas para aquele bebé e percebes que estás a assistir, em direto, à fundação de um amor maior do que tu. Um amor bruto, cansado, sujo, mas absolutamente inegociável.

Não tens tempo. Não tens planos. Não tens certezas. Mas tens aquele olhar pequenino a fixar-te, como se fosses o universo inteiro. E aí, no meio do caos, percebes:

O protagonista morreu… Mas nasceu um herói. Só que ainda não sabes que é. Estás em fase de origem.

És pai.




O livro:

Título: NÃO SEI ONDE ESTÁ, PERGUNTA À TUA MÃE!

Autor: Dinis Santos

Direitos Reservados: © Dinis Duarte Santos Coordenação: Tatiana Leote e Dinis Santos Paginação: Dinis Santos

Ilustração: Dinis Santos

Capa: Dinis Santos

1ª Edição, 2025

ISBN: 9789403819082

Edição:  Nutcase Tales

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor. Reprodução proibida por todos e quaisquer meios.

Outros livros do autor:

Viajando pelos Alpes | Crónicas Humorísticas de uma Viagem em Família, nov. 2024 Viajando pelos Alpes II | Crónicas Humorísticas de uma Viagem em Família, fev. 2025 OH, POR AMOR DE DEUS! | Crónicas Humorísticas, set. 2025







A editora:

Editora e agência criativa independente, dedicada à produção, edição e promoção de conteúdo humorístico e narrativo. Atua tanto no meio digital como na publicação física, reunindo autores com estilos e vozes distintas — do sarcasmo subtil à sátira ousada — e criando um catálogo que valoriza a diversidade criativa e a originalidade.

Com uma abordagem que coloca a liberdade artística no centro, transforma ideias singulares em obras coesas, com identidade visual e narrativa. É um selo que não tem medo de cruzar géneros, formatos e linguagens, sempre com o humor como elemento unificador.

Mais do que publicar, constrói pontes entre autores e leitores, colaborando com meios de comunicação, marcas e iniciativas culturais que reconhecem o valor do humor inteligente. O compromisso é oferecer experiências editoriais memoráveis, que convidam a rir, refletir e revisitar as histórias.

  • Diário de Odivelas - Redação

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