A asma é muitas vezes subestimada, vista como uma falta de ar ocasional, que resolve com uma bombinha. Muitos dos sintomas da asma nem são associados a esta doença, como acessos de tosse após ataques de riso, peso torácico quando se corre um bocadinho mais do que o que estamos habituados, tosse à noite que faz instintivamente subir a almofada na cama. Contudo, a verdade é que a asma é uma doença crónica que pode afetar significativamente a qualidade de vida se não for bem controlada. Apesar de receber este diagnóstico parecer um pouco assustador por se tratar de uma doença crónica, isto é, sem cura absoluta, com o tratamento certo, é possível viver uma vida completamente normal, incluindo fazer desporto, atingir objetivos pessoais que requeiram uma vida corrida, e até competir ao mais alto nível.
O que é a asma?
Então, vamos começar pelo princípio. Afinal o que é a asma? É uma doença inflamatória crónica das vias respiratórias. Em pessoas com asma, os brônquios e os alvéolos- que são os tubos que levam o ar aos pulmões e os saquinhos que realizam as trocas dos gases que garantem que o nosso sangue recebe oxigénio- ficam inflamados e mais sensíveis. Quando expostos a certos gatilhos, que diferem de pessoa para pessoa, e que podem ser o pó, ácaros, poluição, exercício físico intenso ou mesmo mudanças de temperatura, esses brônquios podem diminuir o seu calibre, ou seja, “fechar-se” parcialmente, dificultando a passagem do ar. Isto causa sintomas como falta de ar, chiadeira no peito (os famosos “gatinhos”), tosse – que é mais persistente à noite-, sensação de aperto ou peso no peito. Muitas vezes estão ainda associados a outros sintomas como lacrimejar e comichão nos olhos, pingo no nariz ou nariz frequentemente obstruído, e até manchas na pele ou dores de cabeça na região mesmo acima dos olhos. Isto acontece porque a asma costuma vir de mãos dadas com outros diagnósticos como a rinite alérgica, a conjuntivite alérgica e a dermatite atópica. Mas calma, isto não tem de ser assim, ter um destes não significa que vamos ter todos, e a boa notícia é que quando se tem mais do que uma, o controlo também vem em pacote promoção, ou seja, se conseguirmos tratar bem uma, diminuímos frequentemente os sintomas de todas.
Como é feito o tratamento?
O tratamento da asma tem dois objetivos principais: controlar os sintomas e prevenir crises. Para isso, usam-se geralmente dois tipos de medicação:
- De manutenção (de uso diário) – São medicamentos que atuam na inflamação dos brônquios, como os corticosteroides inalados. Devem ser usados mesmo quando não há sintomas, para manter a doença sob controlo.
- De resgate (apenas em SOS) – São usados em momentos de crise ou quando há sintomas. O mais conhecido é o broncodilatador de ação rápida, muitas vezes chamado de “bombinha”.
Além da medicação, é importante identificar e evitar os fatores que desencadeiam os sintomas, individualmente.
Asma não é o fim do mundo – e nem do desporto
Um dos grandes mitos em torno da asma é que ela impede a prática de desporto. Mas trata-se disso mesmo: um mito! Com o controlo adequado, pessoas com asma podem correr maratonas, nadar em alto nível e até competir nos Jogos Olímpicos. Aliás, vários atletas de elite têm asma- Rosa Mota, David Beckham, Noah Lyles- e isso não os impediu de atingir os seus sonhos.
O importante é ter a doença bem controlada, seguir o plano de tratamento e falar com o seu médico de família sobre a melhor forma de praticar atividade física com segurança.
E se não tiver a asma bem controlada?
Ignorar os sintomas ou usar só a “bombinha” de alívio sem seguir o tratamento contínuo pode parecer uma solução rápida, e até melhor na perceção da maioria da população por se tratar de menos medicação, mas traz riscos a longo prazo.
A asma mal controlada pode causar alterações permanentes nas vias respiratórias, conhecidas como remodelação brônquica, o que torna a doença mais difícil de tratar com o tempo. Além disso, a inflamação crónica pode afetar outros órgãos, especialmente o coração e os vasos que transportam sangue a todo o nosso corpo. A asma persistente e mal controlada leva a um aumento do risco de desenvolver hipertensão arterial, e doença cardíaca, aumentando também a probabilidade de desenvolver depressão e perturbações da ansiedade pelo impacto direto e indireto da asma na qualidade de vida.
Então o que devo fazer?
- Não ignorar os sintomas, mesmo que pareçam leves.
- Usar a medicação de forma regular, conforme orientado pelo seu médico.
- Cumprir o seguimento da sua asma com um profissional de saúde. O plano pode ser ajustado conforme as suas necessidades, e até preferências.
Conclusão
A asma é mais do que falta de ar. É uma condição crónica que exige atenção, mas que, com os cuidados certos, não precisa de limitar ninguém. Informação, prevenção e tratamento adequado são as chaves para uma vida ativa, saudável e sem restrições. Pode praticar desporto, viajar, fazer todos os hobbies que quiser, trabalhar, seguir os sonhos e objetivos que entender, e a asma não tem de ser um obstáculo.
Se sente que tem sintomas ao longo dos anos, muitas vezes até desde a infância que se enquadram nestes que aqui falei e não tem diagnóstico de asma ou se tem asma e esta não está bem controlada, fale com o seu médico. Respirar bem não é um luxo, é um direito.
Autora: Dr.ª Margarida Lazarim Cardoso
Revisão: Dr.ª Francisca Vaz Ramos









