
Ao viajar pelo país fora todos temos notado como a paisagem natural se tem transformado nos últimos anos, muito em favor da ambicionada energia “verde” e da transição energética cujo objetivo é reduzir as emissões poluentes na atmosfera e combater as alterações climáticas, algo que só será atingível com o investimento em fontes renováveis de energia, como a geotermia, a biomassa, o movimento das marés e das ondas, o vento, a água e o sol.
Ora sendo Portugal um dos países da Europa com mais horas de sol por ano, a instalação de painéis solares, fotovoltaicos ou térmicos, é uma das formas mais eficazes de aproveitar esse abundante recurso.
Nesse sentido, grandes extensões de terrenos têm dado lugar a múltiplos corredores de painéis fotovoltaicos, um novo elemento das florestas.
Se inicialmente começaram por ser instalados em terrenos degradados ou abandonados, rapidamente se replicaram pelo país dentro substituindo muitas das vezes áreas de elevado valor social, ecológico e agrícola.
Na senda da Ecologia Humana – disciplina que defende o equilíbrio entre sociedade, ambiente e economia – , será de extrema importância continuar a cumprir as metas da descarbonização mas sempre em pleno respeito pelo património natural, pelo que, a transição energética “ não deve ser feita contra o território e não pode ser alcançada à custa da paisagem, dos ecossistemas e sua biodiversidade, da perda de importantes serviços ambientais – a proteção do solo, a regulação do microclima e a manutenção de habitats naturais – e de muitos solos agrícolas, sustento de muitas comunidades”, como alertam ambientalistas e quem trabalha e vive do campo, apelando todos a mais ponderação e maior respeito pela natureza, aquando da escolha da localização e instalação dessas infraestruturas.
As centrais fotovoltaicas construídas sobre terrenos em áreas rurais não devem subtrair espaço precioso para a agricultura. Temos conhecimento e tecnologia avançada para solucionar esse dilema.
“Se o preço a pagar é a própria biodiversidade, não lhe chamem energia verde” (Rewilding Portugal,2025)
Se é relativamente pacífica a colocação de painéis solares em telhados e terraços o mesmo já não acontece quando há necessidade de ocupar uma extensa fatia de terreno com filas intermináveis de sistemas de painéis fotovoltaicos e onde se vão abater árvores e campos de cultivo e perder ecossistemas e fauna e flora nativas, não obstante, cada vez mais a arte da “compensação” –, replantar árvores ou restaurar habitats na área afetada – tente ultrapassar essa resistência.

Uma das soluções encontradas foi o uso duplo da terra para aumentar sua eficiência, de modo, a que seja possível produzir alimentos e energia no mesmo espaço, numa pura simbiose, onde as culturas, agora debaixo dos painéis, beneficiam da sombra e da proteção (muito útil para a agricultura regenerativa), enquanto a propriedade rural pode reduzir o seu consumo elétrico.
Referimo-nos ao sistema “agrivoltaico” (do inglês agrivoltaic, agriculture + photovoltaic), uma grande oportunidade surgida neste período em que soluções para a crise climática e de disputa pela terra conflituam, na medida em que possibilita, no mesmo espaço, a geração de energia solar e práticas agrícolas.
Se instalados estrategicamente os painéis podem beneficiar culturas que se desenvolvem em condições de luz moderada, pois a sua sombra irá reduzir a exposição solar excessiva, proteger as culturas contra eventos climáticos mais agrestes (granizo, geada e seca, etc.) e originar menor evaporação de água do solo, simultaneamente podem fazer diminuir a fatura da energia da propriedade.
Culturas médio-baixas, como ervas aromáticas, hortícolas como alface, espinafre e rúcula ou tomates, pepinos e beringelas, têm mostrado excelente adaptação nestas condições.
Estamos, pois, perante uma autêntica solução “win-win”, pois cria mais valor para o território e de igual modo para as comunidades locais.
“A tecnologia agrivoltaica pode neutralizar um conflito atual em países altamente populosos: a terra arável já escassa deve ser usada para produzir alimentos ou energia solar? À medida que a população mundial continua crescendo, o mesmo acontece com a procura por alimentos. Ao mesmo tempo, a terra é necessária para a geração de eletricidade verde para superar a crise climática. A combinação de agricultura e energia solar fotovoltaica na forma de sistemas agrivoltaicos oferece benefícios tanto para o setor de energia quanto para o setor agrícola. Pode representar uma solução adequada e eficiente em termos de recursos para o problema da competição pelo uso da terra.” (relatório “Agrivoltaicos: oportunidades para a agricultura e a transição energética”, produzido pelo Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar (ISE), da Alemanha).
Outras soluções passam pelo uso e aproveitamento do solo debaixo (ou entre) dos painéis solares para pastoreio de gado, onde os animais encontram abrigo sob os painéis e mantêm a erva baixa, e pelo desenvolvimento de habitats para polinizadores, absolutamente fundamentais para a manutenção dos ecossistemas terrestres, dado que sustentam a biodiversidade e garantem a resiliência dos habitats naturais, dando um forte contributo para a segurança alimentar.

“O pastoreio de ovelhas sob os painéis de grandes parques solares está a provar ter vários benefícios. Para além de manter e melhorar a qualidade do solo, reduz as inundações e torna as ovelhas mais felizes e saudáveis. São os melhores cortadores de relva naturais, capazes de entrar em pequenas fendas, independentemente das condições meteorológicas” (euronews, 2025)
Produção sustentável de energia e autonomia energética dos agricultores são soluções que têm conquistado cada vez mais quem trabalha o campo, algo bem observável no aumento exponencial de painéis solares instalados pelo país e que têm transformado campos agrícolas em fontes de energia limpa.
Em síntese, se é consensual a necessidade de diminuirmos o uso de combustíveis fósseis (como carvão, petróleo e gás) e substituí-los por fontes de energia mais limpas e sustentáveis, também é vital garantir que essa transição energética caminhe lado a lado com a preservação ambiental e com as comunidades e não venha apenas a artificializar o território, ou seja, a converter solos agrícolas em superfícies artificiais.
Caso tal aconteça podemos estar apenas a resolver um problema e a criar outro.
Adiante-se que desde 2021 várias experiências estão a ser testadas na Europa, mormente na Grécia, Espanha e Itália, na procura do melhor modelo de gestão integrada para as atividades de exercício e manutenção da central fotovoltaica e praticas agrícolas.
“O resultado das experimentações produzirá um grande acervo de dados, que serão canalizados para um Atlas de apoio às decisões, que permitirá a seleção, para as novas centrais, da melhor solução agropecuária e do modelo de negócios relacionado, de acordo com tecnologia solar, área climática e análise do contexto social, econômico e ambiental”, diz Miriam Di Blasi, responsável por Environment and Impacts Mitigation Innovation (Inovação para a Redução do Impacto Ambiental)
Daí o sistema agrivoltaico ser uma solução inovadora, eficiente e económica a ter em conta que promove, em simultâneo, uma agricultura sustentável e a transição para a energia limpa.
“Produzir energia “verde” sem destruir a paisagem é uma obrigação ética para com o futuro. A transição energética não pode ser feita contra o território. Deve ser feita com ele” (Rafael Ferreira,2026)
Carlos Jesus
Licenciado em Sociologia.
Mestre e Doutorando em Ecologia Humana







