Crónicas do Rafu – Transpira mais do que transparece







Em fevereiro de 2025, Luís Montenegro disse que só respondia a quem for tão transparente como ele. Suponho que seja o mesmo que dizer que responde a toda a gente que não revelar nada. Neste momento há vidros fumados com mais transparência.

O Governo decidiu juntar 13 subsídios numa única Prestação Social Única, não revelando, no entanto, qual será o valor, mostrando uma transparência tão grande que não permite ver nada.

Como parte dessa mudança, para alguém receber a PSU vai ser obrigado ao “trabalho social”. Nisto vê-se a aposta no rebranding, é que “o estado a obrigar pobres a fazer trabalho forçado para não ter de pagar devidamente por serviços da sua responsabilidade” não soaria tão bem.

Quem tiver um total de bens cujo valor seja superior a 16 mil euros deixa de receber subsídios. Isto inclui, por exemplo, se tiver um carro desse valor. Afinal de contas, quem é que precisa de comer quando tem um pedaço de metal com rodas?

Para este valor conta ainda o agregado familiar, o que significa que se a pessoa viver com alguém que receba um valor acima da prestação, a pessoa fica fora dos subsídios para aprender a não ter família.

Para além disto, o governo vai criar um canal de denúncias para queixas de atribuição de apoios sociais. Para quê apostar em fiscais profissionais quando podemos ter o vizinho do rés do chão a fazer o trabalho de graça?

Toda a gente sabe que as coisas correm melhor quando o senhor do talho está encarregue de mandar a polícia atrás de quem possa ter um carro melhor que o dele. Dá bom azo ao pensamento: “O Manel passa muito mais tempo no café do que eu, ainda por cima é meio escurinho, vou já fazer queixa”. Finalmente há uma linha de apoio para o racista que não gosta que vizinhos morenos existam.

Nota-se que o primeiro-ministro preza pela transparência. Para saber quem anda a abusar do dinheiro do estado o Luís Montenegro está disposto a recorrer à entidade para a transparência, ao tribunal constitucional, a usar todos os recursos…ah, não, espera, isso foi o que ele fez para não ter de divulgar a lista de clientes da Spinumviva.

Aparentemente para o Luís Montenegro é muito importante fiscalizar e saber quem são todos aqueles que recebem algo do estado e as suas famílias. A não ser que sejam clientes da Spinumviva, porque nesse caso é muito importante a vida privada e proteção de terceiros.

Na mesma semana em que se soube que Montenegro tentou novamente não ter de revelar os nomes dos clientes da sua antiga empresa, ele disse que buscas da PJ a sedes do PS revelam “que as instituições estão a funcionar” e que Portugal tem uma democracia “cada vez mais transparente e imune à prevaricação e à irregularidade“. A melhor transparência é sempre com o partido do lado.

Recentemente soube-se ainda que um tio de um assessor do ministro Leitão Amaro foi contratado pela Lusa, entidade da responsabilidade, precisamente, desse ministro. É interessante como nestes casos o governo não quer analisar os rendimentos dos agregados nem há canais de denúncias de abusos. É aquela tal imunidade da prevaricação familiar…ou devo dizer dos familiares? Há o trabalho social, e depois há o trabalho que se dá aos sócios.

Para receber um subsídio, o Estado quer saber se és um cidadão de bem, quanto ganhas, quanto tens, com quem vives e o valor do teu carro. Para receber dinheiro ou favores do estado basta ser um cidadão de bens.

Rafu

  • Diário de Odivelas - Redação

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