
O dia amanheceu bastante chuvoso. A chuva, não sendo forte, era muito persistente, pelo que o plano do dia teve de ser adaptado às condições climatéricas. Estando a chover, deixámos para mais tarde os planos para exterior e passámos a visitas interiores. A primeira visita do dia passou então a ser o Museu do Brinquedo de Istambul.

Este museu, criado pelo poeta turco Sinay Akin, em 2005, fica no bairro de Göztepe, em Kadıköy, e ocupa uma linda e histórica casa, de construção de madeira e totalmente pintada de branco. À chegada, somos de imediato recebidos, por gigantes estátuas de girafas, que fazem as honras da casa. O interior é recheado por 4.000 brinquedos, de diferentes origens e fabricantes, distribuídos por salas temáticas, como índios e cowboys, espaço, bonecas, militar, aviação, entre outros.

Vi lá alguns dos brinquedos que tive, e vi também alguns brinquedos de fabrico português. Sim, já fabricamos brinquedos há muitos anos! Marcas como Osul, Radar, Luso-Toys, já fizeram muito sucesso, quer em Portugal, quer no exterior. Brinquedos muito simples, mas que nos deram imenso prazer na nossa infância! Infelizmente já nenhum destes antigos fabricantes se mantém no ativo. A visita ao museu é altamente recomendada, quer para adultos, quer para mais pequenos. Ambos vão ficar maravilhados por esta viagem histórica.

Com a chuva a acalmar de intensidade, passeámos um pouco pela gigante rua Bağdat, uma das ruas mais chiques e modernas da cidade, repleta de lojas de marcas internacionais, cafés, pastelarias, restaurantes, clínicas de estética. Tem uma extensão de 14 quilómetros, e está sempre muito movimentada. Aproveitámos para almoçar num restaurante mais local, um durum, que estava bem delicioso. O durum é um wrap, versão turca, feito com carne de kebab fatiada, vegetais e especiarias, tudo muito bem enrolado num pão achatado, o yufka. Esta zona tem um índice de construção nova absolutamente brutal, e em todas as perpendiculares estão a ser erguidos modernos blocos de apartamentos.

Nesta rua existe uma das entradas para um popular parque, o Parque de Göztepe, um dos maiores do lado asiático da cidade. Tem grandes áreas de relva, muitos jardins de flores, lagos artificiais, parques infantis, sendo um local bem agradável para relaxar um pouco. Tivemos a sorte de ser a época das tulipas, e o Parque estava absolutamente lindo e colorido, pelo que a visita foi bem demorada, a fotografar toda aquela explosão de cor.

Depois deste período mais relaxante, voltámos ao caminho, que nos iria levar, desta vez, ao Estádio do Fenerbahçe. Mas, começámos a ser “invadidos” por imagens deliciosas, ao passarmos por algumas pastelarias, que “escandalosamente” rechearam as montras com éclairs, de aspeto divinal. Se calhar estava na hora de tomar mais um chá turco. E para o chá não se sentir muito sozinho, tivemos de provar os éclairs. São simplesmente deliciosos! A massa é de choux, como os franceses, mas os recheios… são uma perdição! A cobertura é mais espessa, têm pistácios ou avelãs, e são mais pesados e encorpados que os nossos. Não passem sem experimentar.

E regressamos ao caminho para o Estádio, desta vez sem distrações, apesar das “tentações” com que ainda fomos confrontados! O Fenerbahçe é um antigo clube da cidade, fundado em 1907, e que milita na primeira divisão turca. Já por aqui passaram, como treinadores principais, Jorge Jesus e José Mourinho, sendo que o primeiro deixou muitas mais saudades que o segundo. Os jogadores deste clube são conhecidos pelos Canários Amarelos, pelas cores que envergam no seu equipamento. Juntamente com o Galatasaray e Beşiktaş, forma o conjunto dos 3 grandes da cidade. Entre eles, a rivalidade é gigante.

À entrada do estádio somos recebidos por velhas glórias, imortalizadas em estátua. O imprescindível Atatürk, conhecido como o pai da Turquia, e velhas glórias do desporto: Lefter Küçükandonyadis, antigo avançado, mais de 400 golos marcados pelo clube e capitão da seleção turca; Can Bartu, antigo atleta de elite em dois desportos, futebol e basquetebol, tendo ainda passado pelo futebol europeu em clubes italianos; Alexsandro de Souza, atleta mais recente do clube, capitão da equipa, e que leva muitos brasileiros a este estádio; Eda Erdem, uma das maiores jogadoras turcas de voleibol, capitã da seleção.
Não foi possível visitar o interior do Estádio, mas ainda passámos por uma loja, onde centenas de pessoas compravam artigos do clube. Ainda experimentei um casaco, mas não havia para o meu tamanho. Circundámos o Estádio, e no lado oposto, se achámos a loja grande, do outro lado existe uma loja gigante, exclusiva de artigos do clube. Também ela cheia. É também local de encontro de adeptos, que iam enchendo as escadarias, para assistir a alguma modalidade do clube, que seria transmitida nas várias televisões do espaço.

Não muito longe do Estádio, tínhamos de passar na estátua da gata Tombili, seguramente a gata de rua mais famosa da cidade. A estátua está no bairro de Ziverbey, e esta gata, falecida em 2016, ficou famosa, pelo seu hábito único, de se sentar relaxadamente numas escadas, encostada, como se estivesse a observar a cidade. Foi tão fotografada nesta pose, que rapidamente se tornou viral nas redes sociais. Sempre muito acarinhada pelos moradores, que quiseram prestar-lhe a devida homenagem, com esta estátua, que retrata a sua pose, e que foi colocada exatamente no sítio que a Tombili costumava ocupar.

A chuva parou completamente já há algum tempo, o sol voltou a aparecer, e decidimos continuar a pé, até à zona onde estamos hospedados. Andar a pé é sempre a melhor opção para se sentir verdadeiramente o pulsar de uma cidade.

A certa altura deparámo-nos com uma confusão tremenda! Centenas, senão milhares de pessoas, estavam perto de uns edifícios. O trânsito era completamente caótico. Percebemos que tinha a ver com casamentos, tal era a densidade de noivas por metro quadrado! Era o registo civil. Se cá fora a confusão era muita, quando entrámos no edifício, percebemos que afinal nem era assim tanto. No interior são sessões continuas de noivos a casar, com centenas de convidados à mistura, num sistema que nos pareceu de senhas, pelos placares eletrónicos que estavam espalhados pelo recinto, tudo isto num caos completo! Ou pelo menos, aparentava ser. Relembro que a cidade tem mais de 13 milhões de habitantes…

Continuando o nosso caminho, entrámos numa rua, que na realidade é um centro comercial gigantesco de tudo o que se possa imaginar para casamentos. A rua Söğütlüçeşme. Centenas de lojas, algumas ocupando prédios inteiros, com toda uma oferta diversificada, num sistema “chave na mão” para um casamento. Roupa para os noivos e convidados, joias, sapatos, acessórios, cabeleireiros, maquilhagens, enfim, tudo! Impressionante!

Finalmente chegámos ao bairro de Kadikoy, onde nos perdermos descontraidamente pela sua zona antiga, apreciando os belos murais de rua e as apetecíveis lojas vintage. Ativistas defensores dos animais, iam-se manifestando pacificamente, mas o aparato policial era gigante.

O jantar foi na Fatma, um pequeno restaurante, de comida caseira, que descobrimos na zona. A dona, muito simpática, ofereceu-nos um pedaço de pão que tinha acabado de cozer, e que era muito semelhante à nossa broa. Maravilha!
O último chá do dia, já muito perto do nosso alojamento, foi num “estranho” café, o Kubbe, que nos fez lembrar muito o Naftaline, o nosso café preferido de Istanbul, pela sua também peculiar e bizarra decoração. Está, o Kubbe, recheado de antigas bonecas e bonecos, criando uma atmosfera deveras peculiar, mas muito agradável. Ao nosso lado, um jovem casal jogava gamão, uma atividade muito frequente nos cafés, onde as pessoas convivem em frente de jogos de tabuleiro, deixando os telemóveis de lado.

Para terminar a noite, comprámos um olho turco, que vai engrossar a coleção que já temos em casa.







