
Há onze anos que não durmo uma noite inteira. Onze anos!
Durmo com um ouvido no silêncio e outro na respiração do Gustavo, se aquilo é dormir, se se pode chamar dormir a esta vigília de olhos fechados, a esta sentinela noturna que todas as noites se deita ao lado do filho com medo de uma convulsão, de um ruído diferente, de um intervalo demasiado comprido entre duas inspirações. Sim, é mesmo assim, creiam-me.
Milhares de vezes pergunto, sem nada dizer:
– Está tudo bem, meu amor?
E eu próprio respondo:
– Está tudo bem, embora nunca esteja inteiramente tudo bem.
O Gustavo não pode ficar sozinho por um único segunto. Muito menos um minuto, nem o minuto em que os outros pais tomam banho descansados, descem à rua ou fecham os olhos no sofá. A nossa vida, minha e da Fernanda (e da Sapana, e dos auxiliares, e dos professores), mede-se em segundos de atenção. E depois chega o sol da manhã, porque a manhã chega mesmo para quem não dormiu, sempre, e recomeçamos a tarefa impossível de ensinar um filho a viver numa sociedade que passa o tempo a explicar-lhe que não há lugar para ele.
Levamo-lo a um restaurante, algo que ele tanto adora.
Ele agita-se, faz um som, repete um movimento, tenta ir ter com toda a gente, mas logo alguém na mesa ao lado torce a boca. Outros pedem silêncio com a autoridade de quem julga ter comprado, conjuntamente com a sobremesa, o direito a não ser incomodado pela existência dos outros. Alguém olha para nós com nojo. Outros mudam de mesa. E nós encolhemo-nos um pouco, envergonhados, pedimos desculpa por uma diferença que não é culpa, tentamos acalmar o Gustavo, tentamos acalmar os presentes, tentamos acalmar o mundo.
Somos sempre nós a acalmar o mundo. Sempre.
Depois ligamos a rádio e o mundo está a rir.
Há uma mulher (sem limites) diante de um microfone, uma equipa, uma edição cuidada, uma estação inteira e milhares de ouvintes. Escolhem-se frases, recortam-se hesitações, acrescenta-se o tom certo e uma pessoa neurodivergente transforma-se em matéria-prima. A plateia ri desalmadamente. A palhaçada acaba. Entra a publicidade.
Só que do outro lado ninguém entra em publicidade.
Do outro lado, silenciosamente, fica uma mulher a chorar. Ficam milhares de jovens a aprender que aquilo que podem dizer aos outros, a maneira como falam e a forma como tentam compreender-se podem ser convertidos em espetáculo. Ficam os rapazes da escola a decorar o mecanismo da crueldade, recortar, imitar, repetir, publicar, rir. Fica um pai acordado às três da manhã a pensar no filho que em breve entrará numa escola cheia de crianças educadas por ecrãs e headphones, aplausos e gargalhadas.
A piada acaba. O medo fica.
Continuam a dizer-nos, diariamente, que o humor não pode ter limites. Que curiosa frase. Também o poder costuma dizer que não aceita limites. Também a violência prefere chamar censura a qualquer tentativa de responsabilidade.
Não está em causa proibir o riso. Nunca estará. Está em causa perguntar quem paga por ele e qual a fatura a pagar.
É fácil ser destemido diante de quem já vive assustado e horrorizado. É fácil ser irreverente quando o alvo é alguém que tem dificuldade em defender-se segundo as regras sociais dos que lideram. É fácil construir uma gargalhada com os gestos, as fragilidades e as palavras de outra pessoa quando se possui um estúdio, uma equipa de edição, uma audiência que para esquecer os seus próprios problemas não se importa de rir com os problemas dos outros.
Isso não é coragem. É uma extraordinária facilidade disfarçada de transgressão.
Joana Marques poderá dizer que não fez troça de todos os autistas, que comentou apenas uma figura pública, que o humor exagera e que ninguém está acima da sátira. Poderá dizer tudo isto e muito mais. Mas quando a condição de uma pessoa entra na engrenagem da humilhação, a gargalhada não fica obedientemente fechada no estúdio. Sai para a rua. Entra nas escolas. Senta-se nos restaurantes. Dá vocabulário aos cruéis e autorização aos cobardes.
Há mães (muitas) que pensam em suicídio (e muitas cometem-no!) no meio de uma solidão que ninguém quer ver, não por falta de amor aos filhos mas por falta de apoio do mundo.
Há jovens autistas consumidos por esgotamentos, pela obrigação diária de fingirem que são iguais aos outros para não serem castigados por serem quem são. Há crianças cercadas nos recreios, imitadas, insultadas, empurradas e filmadas. Há pais cujo corpo acaba por ceder! Um colapso nervoso, um AVC, a fatura física de anos sem descanso, sem rede e sem futuro garantido. Todos dizem apoiar mas, na verdade, somos nós contra o mundo.
E há humoristas.
Sentados diante do raio de um microfone, protegidos pela palavra “piada” que querem transformar em humor, como se uma palavra pudesse absolver tudo.
Não pode.
O talento não é uma licença de crueldade. A inteligência não apaga as consequências. E o riso de milhares de pessoas não transforma automaticamente uma humilhação num ato de coragem artística.
Não sou jurista mas é uma pena que “crime social” não exista no Código Penal, acho que não existe. Mas deveria existir no nosso vocabulário moral. Seria o nome dado aos atos que tornam ainda mais estreita a vida de quem já passa os dias a pedir licença para existir. Aos gestos que não deixam sangue no chão mas deixam crianças com medo de entrar na escola. Às gargalhadas que não partem ossos mas ensinam a partir dignidades.
Há onze anos que durmo ao lado do meu filho.
Não por heroísmo! Não quero medalhas, homenagens nem a piedade pegajosa de quem diz “que grande pai” e depois pede silêncio quando o Gustavo os perturba num restaurante. Durmo ao lado dele porque o amo e porque tenho medo. Medo das convulsões, medo do futuro, medo de morrer primeiro, medo de que um dia ele fique entregue a uma sociedade que o tolera nas campanhas de sensibilização e o rejeita à mesa do café (sim Joana, estou a chorar enquanto escreve esta merda de texto.)
Tenho sobretudo medo da escola.
Tenho medo dos seguidores das joanas desta vida.
Dos risos no corredor. Dos telemóveis apontados. Da piada repetida até deixar de parecer violência. Do professor que não viu. Do colega que estava apenas a brincar. Da direção que lamenta. Dos pais do agressor que garantem que o filho não é assim.
Era humor, dirão todos.
É sempre humor quando a dor pertence ao outro.
Por isso, Joana, não te peço que deixes de fazer piadas. Peço-te uma coisa mais difícil: que percebas o peso do microfone que tens diante de ti. Que compreendas que quando milhares riem contigo alguns aprendem também a rir contra alguém. Que olhes para a Mafalda, que ficou em lágrimas, e não procures imediatamente a próxima frase espirituosa que te faça angélica. Que permaneças um instante em silêncio. Que penses no outro e no mal que nos podes fazer.
Onze anos, talvez.
O tempo de uma criança crescer sob vigilância total e absoluta. O tempo de um pai desaprender o que significa “sono”. O tempo de uma família lutar para que o filho seja aceite por pessoas que continuam a confundir diferença com defeito e crueldade com graça.
As Joanas desta vida, por mais mal que nos façam, regressam sempre a um estúdio. Haverá outra vítima, outro recorte, outra gargalhada.
Eu regressarei ao quarto do Gustavo.
Encostarei o ouvido à respiração do Gustavo e perguntarei no escuro:
– Está tudo bem?
E certamente que voltarei a responder que sim, para não o assustar.
Mas não, Joana. Não está tudo bem…
Enquanto a humilhação for entretenimento e a diferença um ringue de violência, não está tudo bem.
E sim, estou a chorar Joana.







