Hiperuricemia e Gota: O que precisa de saber para proteger as suas articulações







Muitas vezes ouvimos falar do “ácido úrico elevado” como algo passageiro ou sem grande importância. No entanto, para muitos portugueses, cerca de 1,3% da população, esta condição pode evoluir para gota, uma doença inflamatória que causa dores intensas e pode afetar seriamente a qualidade de vida. Perceber o que é e como funciona, a hiperuricemia, e que cuidados deve ter à mesa é o primeiro passo para manter a sua mobilidade e bem-estar.

O que é a Hiperuricemia?

A hiperuricemia acontece quando existe um excesso de ácido úrico no sangue. O ácido úrico é uma substância que o nosso corpo produz naturalmente ao decompor as purinas, presentes em vários alimentos e nas nossas próprias células.

Normalmente, o corpo consegue eliminar este excesso através dos rins (pela urina) e do intestino (pelas fezes). O problema surge quando este equilíbrio se quebra: ou produzimos demasiado ácido úrico, ou o nosso corpo não o consegue eliminar de forma eficiente. Quando a concentração de ácido úrico no sangue ultrapassa o seu limite de solubilidade (cerca de 6,8 mg/dL à temperatura corporal), este pode cristalizar sob a forma de cristais de monourato de sódio. Estes cristais depositam-se preferencialmente nas articulações, tendões e outros tecidos, desencadeando uma resposta inflamatória responsável pelas crises de gota.

As causas mais frequentes

Existem vários fatores que contribuem para o aumento do ácido úrico. Alguns não podemos mudar, mas outros dependem inteiramente do nosso estilo de vida:

  • Fatores não modificáveis:
    • Predisposição genética
    • Idade avançada
    • Sexo masculino
    • Nas mulheres, o risco aumenta após a menopausa
  • Fatores modificáveis:
    • Alimentação
    • Doenças associadas: hipertensão arterial, diabetes, doença renal crónica e obesidade estão frequentemente ligadas à gota
    • Medicamentos: Alguns fármacos, como certos diuréticos, podem aumentar os níveis de ácido úrico

Como identificar os sintomas?

A gota manifesta-se geralmente através de crises agudas. O sinal mais clássico é uma dor súbita e muito intensa numa articulação, sendo a base do dedo grande do pé o local mais comum, mas pode ocorrer noutras articulações.

Os sintomas típicos de uma crise incluem:

  1. Dor aguda: frequentemente começa durante a noite ou ao início da manhã.
  2. Inchaço e vermelhidão: a articulação fica inchada, quente e com a pele muito vermelha e brilhante.
  3. Hipersensibilidade: a zona fica tão sensível que até o roçar dos lençóis pode ser insuportável.
  4. Limitação de movimentos: a dor e o inchaço dificultam o andar e/ou o uso da articulação afetada.

Sem tratamento, estas crises podem durar de 2 a 7 dias e tornar-se mais frequentes e graves ao longo do tempo, afetando outras zonas como tornozelos, joelhos, pulsos e cotovelos. No entanto, algumas pessoas apresentam hiperuricemia durante muitos anos sem qualquer sintoma.

 Como Tratar e Prevenir

A boa notícia é que a gota é uma doença tratável. O tratamento divide-se habitualmente em duas partes:

  • Tratamento da crise:
    • O objetivo é parar a dor e a inflamação.
    • O tratamento é iniciado o mais precocemente possível e pode incluir anti-inflamatórios, analgésicos, entre outros, conforme indicação médica.
    • O repouso e a aplicação de gelo na zona afetada ajudam a aliviar os sintomas.
  • Prevenção a Longo Prazo:
    • O médico pode sugerir alguns cuidados alimentares e em algumas situações, como crises recorrentes, presença de tofos, doença renal crónica ou litíase renal por ácido úrico, poderá ser necessário iniciar medicamentos para reduzir permanentemente os níveis de ácido úrico.

 Cuidados com a alimentação: o seu melhor aliado

A alimentação já não é vista como uma “dieta de castigo”, mas sim como uma ferramenta de saúde. O segredo está no equilíbrio, seguindo o padrão da dieta mediterrânica.

Alimentos a evitar (ricos em purinas):

  • Carnes vermelhas
  • Vísceras: fígado, rins, coração, moelas
  • Peixes e mariscos: sardinha, anchovas, cavala, marisco, polvo e lulas
  • Bebidas açucaradas: refrigerantes e sumos de fruta com muita frutose
  • Álcool: Especialmente a cerveja (mesmo sem álcool) e as bebidas brancas (licores) – parece existir uma relação dose-dependente entre a ingestão de álcool e a gota, sendo que o aumento do consumo de álcool leva a um maior risco de crises de gota.

Alimentos que pode (e deve) consumir:

  • Laticínios magros: o leite e os iogurtes magros ajudam a reduzir os níveis de ácido úrico;
  • Água: beba entre 1,5 a 3 litros de água por dia. Uma boa hidratação ajuda os rins a “limpar” o excesso de ácido úrico e previne “pedras” nos rins;
  • Vegetais e fruta;
  • Preferir cereais integrais.

Conselhos finais práticos:

A gota não tem de o parar. Com acompanhamento médico regular e pequenas mudanças nos seus hábitos diários, é possível controlar os níveis de ácido úrico e viver sem a sombra da dor.

Nunca interrompa nem inicie medicamentos para baixar o ácido úrico sem aconselhamento médico.

Em caso de dúvida, consulte sempre o seu médico de família.

 Fontes bibliográficas:

  • Dalbeth, N., Gosling, A. L., Gaffo, A., & Abhishek, A. (2021).GoutThe Lancet, 397(10287), 1843–1855.
  • FitzGerald, J. D., Dalbeth, N., Mikuls, T., Brignardello-Petersen, R., Guyatt, G., Abeles, A. M., et al. (2020).2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of GoutArthritis Care & Research, 72(6), 744–760.
  • Richette, P., Doherty, M., Pascual, E., Barskova, V., Becce, F., Castañeda-Sanabria, J., et al. (2017).2016 Updated EULAR evidence-based recommendations for the management of goutAnnals of the Rheumatic Diseases, 76(1), 29–42.
  • Associação Portuguesa de Nutrição. (2021).O papel da alimentação no tratamento da pessoa com gota (E-book n.º 58). Associação Portuguesa de Nutrição.

Autora: Cláudia Andrade

(Médica interna de Medicina Geral e Familiar)

Revisão: Dra. Susana Branco. 

 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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