Diário de Bordo | Azerbaijão – dia 2







O dia 2 desta viagem, avizinhava-se comprido. Teríamos de cumprir um percurso de mais de 200 quilómetros, que nos levaria mesmo junto à fronteira com a Rússia, e só uma pequena parte dele seria em autoestrada.

Quando nos dirigíamos à rua principal, para apanhar um BOLT até à rent-a-car, fomos barrados pela polícia, a uns bons 20 metros da estrada. Percebemos que toda a gente estava também afastada, e que nenhuma viatura circulava na rua. Um simpático senhor disse-nos “Prezident!”. OK! Passa o Presidente e tudo fecha. Uns minutos depois lá passa o Sr. Presidente, numa grande comitiva encabeçada por vários carros e motos da polícia, seguidos por vários jipes pretos, todos iguais, e certamente blindados, para não se saber em qual deles vai a figura mais importante do Estado. Assistimos assim a uma boa “americanada”. Aproveitamos para mencionar que aqui a segurança é levada muito a sério. A presença visível da polícia é constante, quer de carro quer apeada, e existem câmaras de vigilância em todo o lado.

Às 09h00, hora de abertura, estávamos na agência de rent-a-car para levantar a viatura. Mais uma vez, escolhemos o mais baratinho e dão-nos um grande Chevrolet, com uma bagageira, que levaria o dobro da bagagem que tínhamos. Depois de todos os trâmites legais do aluguer, e da realização do seguro extra de “zero responsabilidade”, começou a nossa aventura pelas estradas do Azerbaijão.

O trânsito na cidade é intenso, mas circula-se bem. Desde logo, e foi algo que nos acompanhou toda a viagem, muita atenção aos radares de velocidade. Passámos seguramente por centenas ao longo dos dias que percorremos o país. E os limites de velocidade são mais baixos dos que temos em Portugal.

A primeira paragem foi em Yanar Dağ, o que significa literalmente “montanha em chamas”. E assim é! Numa encosta, bastante perto de Baku, o gás natural que escapa do subsolo, pelas fissuras das rochas, em contacto com o oxigénio, pega fogo. Este fenómeno, que impressionou bastante os povos antigos, foi até relatado por Marco Polo, nas suas crónicas de viagem. Não é por acaso que o país é conhecido como a “terra do fogo”. Símbolo disso, as famosas “Flame Towers”, que se destacam na paisagem de Baku. Estes locais são também considerados sagrados pelos zoroastras, uma religião que já teve bastante peso na região, exatamente por esta questão do fogo, que tem, para estes praticantes, um importante valor simbólico, representando a pureza, a luz e a verdade. Como apontamento, talvez não saibam, mas Freddie Mercury, nasceu numa família parse (zoroastriana indiana) e foi criado nessa tradição.

Uns quilómetros de auto estrada ou talvez mais uma via rápida, sempre de olho nos radares, e saímos para as Candy Mountains, numa linda estrada que, durante muitos quilómetros, foi serpenteando um vale. Estão situadas a norte de Baku, e são famosas pelas suas faixas naturais de cores vermelha, rosa, laranja, cinza e branco, fazendo lembrar as típicas bengalas de rebuçado. Estas cores resultam da oxidação de minerais de ferro, combinado com diferentes camadas sedimentares. Estas montanhas são os primeiros relevos do Grande Cáucaso, ficando próximas da grande planície costeira do Mar Cáspio.

Aproveitámos para almoçar no Rei do Kebab, mas deparámo-nos com um “reino” completamente vazio. Dois velhotes apenas, que bebiam um chá e fumavam uns cigarritos finos. Sim, aqui ainda se pode fumar em qualquer lado. E as tampas das garrafas também saem, não ficando presas. Mas com a excelente boa vontade do “rei”, lá se desencantou dois kebabs de frango, que por sinal estavam bem bons.

Depois da maravilha geológica e do belo petisco, fomos até às enormes praias do Mar Cáspio, onde chegámos muito perto da fronteira com a Rússia, ficando apenas a alguns quilómetros da mesma. O acesso às praias desta zona, é feito apenas por estradas de terra e areia. Quem conhece o caminho, leva o carro literalmente até à água. Não conhecendo nós o trilho de areia dura, achámos mais prudente deixar o carro e seguir a pé, até porque quase não se via vivalma, que nos pudesse ajudar em caso de ”atascanço”.

As praias, com quilómetros e quilómetros de extensão, estavam completamente vazias. Apenas vimos uma família num dos compartimentos que existem ao longo da praia, e uma outra, que seguiu de carro para o lado contrário. Os compartimentos que existem, são como se fossem pequenas esplanadas, tapadas, para dar privacidade aos seus ocupantes. Na água, não vimos ninguém. Também não estava apetecível. Muita ondulação e água muito turva, apesar de quente.

Quando saímos da estrada de terra, atravessámos uma aldeia de agricultores, pelo que pudemos ir observando. Bem camuflados, e já à saída da terra, uma unidade militar de radares, fazia o seu trabalho. Nada de fotos, filmes, paragens ou algo do género, junto deles. Com a geopolítica atual e na zona onde estávamos, foi a atitude sensata a tomar.

E como o dia já ia longo, tomámos a estrada para o destino do dia, a cidade de Quba. Havendo ainda alguma luz, fomos ver a floresta que existe bem perto da cidade – floresta de Gachrash –  onde existem dezenas de restaurantes e pequenos cafés, e onde as copas das árvores formam um autêntico túnel na estrada, tornando o local bem refrescante nos dias quentes de verão.

Regressámos a Quba e atravessámos o rio, para visitar a “Red Village”, um lugar especial, porque é uma comunidade histórica dos “Judeus das Montanhas” que vivem na região há séculos. O museu já estava encerrado, mas conseguimos apurar que esta comunidade chegou ao Cáucaso em antigas migrações de judeus da Pérsia. Têm uma língua própria, o Juhuri, pertencente ao grupo das línguas iranianas. O nome “Judeus das Montanhas”, vem pela questão de muitas comunidades estarem espalhadas pelas regiões montanhosas do Cáucaso Oriental.

Passeando pela localidade, com os seus enormes telhados vermelhos – daí o nome de vila vermelha – fomos ter à Sinagoga, onde rapidamente fomos impedidos de progredir por soldados fortemente armados. Desde o ataque do Hamas a Israel, em 2023, a segurança foi fortemente reforçada, por iniciativa do governo Azeri, em torno de instituições judaicas no país. Com esta situação, não nos foi permitido entrar na sinagoga, nem sequer nos aproximarmos do seu perímetro.

Com tudo isto, estava na hora de regressar a Quba e de beber um chá. Parámos num jardim, mesmo em frente à Mesquita principal. Em pequenas mesas e junto a um quiosque de chá, onde o samovar fumegava intensamente, animados idosos jogavam gamão ou algo muito semelhante. Pedimos um bule de chá, que aqui é muito mais do que uma bebida, mas sim um ritual de hospitalidade. O chá vem sempre acompanhado de pedras de açúcar, meias luas de limão, compotas e rebuçados. Desta vez calhou-nos rebuçados, para além das pedras de açúcar, que ao contrário do que vão pensar, não é para colocar dentro da chávena.

Assim sendo, o costume aqui, de servir o chá preto é:

– Pegar numa pedra de açúcar

– Colocá-la na boca

– Beber o chá quente por cima

O açúcar vai-se dissolvendo enquanto se bebe o chá.

E os rebuçados? Têm outra função, que é a de demonstrar generosidade ao convidado. A mensagem é basicamente a seguinte: “És nosso convidado; senta-te, bebe chá e fica à vontade.”

Na cidade, creio que não nos cruzámos com outros turistas. Aliás, quando fizemos check-in no nosso hotel, percebemos que eramos os únicos hóspedes do dia.

Fomos jantar ao centro da cidade, e junto ao restaurante, uma animada festa de casamento decorria. Ainda conseguimos ver a noiva a dançar alegremente, rodeada de outras jovens, num ritual certamente tradicional. Depois do jantar, uma volta pela cidade, onde descobrimos uma padaria, que fazia pão de forma tradicional num “təndir”, um forno de barro e tijolo em forma de grande vaso. A massa é esticada e “colada” diretamente às paredes interiores quentes do forno, onde fica a assar. Impressionante a “ginástica” da padeira, que já com alguma idade, colocava o pão a assar com uma ligeireza impressionante, dando a sensação de quase cair para dentro do forno.

Ainda conseguimos entrar num supermercado e ver alguns produtos a que não estamos habituados, o que não significa que sejam bons. Existe Ayran de litro! Yes! E uma variedade monstruosa de carnes frias e queijos. Uma perdição. Vimos também “latas” de bebidas, em que o corpo é transparente, ou seja plástico, e só tampa e a abertura é que são de metal.

Amanhã é dia de alta montanha.

 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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