Diário de Bordo | Azerbaijão – Dia 5







A manhã estava reservada para visitar os monumentos do centro histórico da cidade, classificados como Património Mundial da UNESCO.

Entrámos no Castelo, e fomos diretos ao Palácio dos Khan, os antigos governantes do Khanato de Sheki, um pequeno estado muçulmano, que aqui existiu, entre 1743 e 1819, altura em que foi absorvido pelo Império Soviético.

O Palácio foi construído no final do século XVIII, e era a residência de verão dos khans. O seu luxo era uma demonstração de poder, mostrando a todos, que os governantes eram ricos e independentes.

Neste palácio há que destacar duas coisas: as janelas shebeke e as pinturas murais. As janelas são absolutamente extraordinárias. Feitas de pequenas peças de madeira e vidro colorido, tudo encaixado sem utilização de pregos ou colas, criando desenhos geométricos, num trabalho de artesão muito minucioso. Cria um efeito lindo, quando a luz atravessa os vidros, ficando o interior cheio de cores. O segundo destaque, as pinturas murais, muito elaboradas, cobrem grande parte das paredes e tetos interiores, com motivos florais, cenas de caça, animais, entre outros. Mais um trabalho minucioso de hábeis artesãos. Cada sala tem uma decoração própria, transformando as pinturas parte fundamental da conceção arquitetónica do edifício.

O palácio mostra bem a posição da cidade entre diferentes mundos, com uma mistura de tradições persas, islâmicas e caucasianas. É um edifício relativamente pequeno, sendo que a sua importância e “imponência” está na qualidade e riqueza da sua decoração. Infelizmente, numa “paranoia” que ainda vai acontecendo nalguns locais do mundo, não é possível fotografar o interior. E somos avisados à entrada, que existem câmaras de vigilância em todo o espaço, e que os infratores serão penalizados. Compreendo, em muitos locais, a proibição de fotografar com flash, uma vez que isso pode danificar pinturas antigas. Mas atualmente, as máquinas e telemóveis, fazem o seu trabalho em situações de muito pouca luz, pelo que esta proibição de “no photos” não me faz muito sentido, ficando a perder o turismo do país, promoção gratuita, de um dos  locais muito interessantes a visitar.

A fachada do edifício é de apreciar também, para se ver a beleza da construção exterior, apreciando os padrões geométricos, e a relação entre pedra, madeira e vidro.

Muito perto do palácio, nos seus jardins, árvores centenárias mereceram a nossa atenção. Choupos gigantes, com troncos de imenso porte, certamente com algumas centenas de anos de existência, e que terão sido testemunhas de séculos de história. Mas não falam! Apenas dão uma sombra refrescante num quente e abafado dia de verão.

Nas imediações do palácio, e ainda dentro das muralhas da fortaleza, visitámos o centro dedicado à cerâmica, o ABAD Sheki Ceramics Center. Tivemos sorte e  conseguimos ver os artesãos a trabalhar, podendo assim apreciar toda a sua mestria e precisão nas pinturas à mão das peças que trabalhavam. Apetecia trazer todas as peças! Uma que surge muito são romãs, que simbolizam a abundância, a fertilidade e a prosperidade. As suas inúmeras sementes representam a riqueza da vida e a continuidade das gerações, transformando esta fruta num dos motivos mais emblemáticos da cultura azerbaijana. Mas os potes ornamentados são autênticas obras de arte, e que deixam pena em não se conseguir trazer. Então aqueles, onde a herança artesanal se cruza com a criatividade contemporânea, são deslumbrantes !

O passeio pelo resto da fortaleza é bastante interessante. Só não tivemos sorte de estarem a trabalhar na oficina de shebeke, para percebermos como são feitas as janelas do palácio. Aproveitámos para uma pequena diversão, vestindo fatos tradicionais, com vários acessórios, e fazendo uma sessão de fotos. Não se conseguiu brincar por muito tempo, porque as roupas e os chapéus de lã, faziam um calor, que já sem elas, estava difícil de suportar.

E estava na hora de nos despedirmos da cidade, e antes de seguirmos para Baku, ainda iríamos visitar, a poucos quilómetros de Sheki, na aldeia de Kish, uma antiga igreja cristã, conhecida como Igreja de São Eliseu. Dizem existir desde o século I, sendo o local onde o apóstolo Eliseu iniciou a sua evangelização. Recentes escavações arqueológicas puseram a descoberto antigas sepulturas, que hoje podem ser observadas pelos visitantes. A paisagem envolvente à igreja é linda, com as verdejantes montanhas que a ladeiam.

No regresso a Sheki, e antes de iniciar a longa viagem até Baku, parámos num bloco habitacional, do período soviético, que nos despertou a atenção, pela sua atual “arquitetura”, bastante confusa e degradada. A partir de 1920, a rápida industrialização da cidade, nomeadamente com a abertura de uma gigantesca central de produção de seda, com fiação mecânica, obrigou o governo a construir blocos de construção rápida, para alojar o grande fluxo de trabalhadores que começou a afluir à cidade. Este é, muito provavelmente, um bloco habitacional soviético construído para trabalhadores de algum complexo fabril, e que nunca deve ter tido nenhum tipo de manutenção.

E chegou a hora de deixar as montanhas para trás e regressar a Baku, numa viagem de quase 300 quilómetros. Chegar atrasados não era opção, porque tínhamos hora para devolver o carro ainda nesse dia. E acelerar nestas estradas não é boa ideia, com as centenas de radares que vamos encontrar pelo caminho, já para não falar nas vaquinhas que vão de certeza ocupar as faixas de rodagem.

Bom bom, foi atestar o carro, e gastar apenas 20 €. Bom bom, foi o kebab de frango grelhado, que almoçámos num pequeno restaurante à beira da estrada, já sem clientes dado o adiantado da hora, mas que amavelmente ainda nos serviram, apesar da dificuldade na escolha. Tive de ir à cozinha ver o que havia, porque inglês ninguém falava.

A poucos quilómetros de Baku, lavagem da viatura, e apesar do intenso trânsito, conseguimos chegar dentro do horário para a entrega no rent-a-car.

O jantar de hoje foi uma repetição. Regressámos ao “Kurban Said”, e era impossível não voltar a comer o delicioso plov de borrego, e as legzi afars de carne, polvilhadas com sumagre. Desta vez jantámos na varanda, a apreciar as belas vistas noturnas das “Flame Towers”.

No regresso ao hotel, pelas estreitas ruelas da cidade antiga, um pequenito gato bebé, a quem fizemos algumas festas, não nos largava. A mãe não estava à vista, e o gatinho continuava a seguir-nos com entusiasmo, rua após rua. A certa altura, e já bem longe do seu local habitual decidimos pegar nele e voltar para trás, não fosse o gato perder-se da mãe.

Amanhã, o dia será bem longo e totalmente dedicado a Baku.




  • Diário de Odivelas - Redação

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