Diário de bordo | Azerbaijão – dia 6







Último dia de descoberta deste país, hoje com um programa muito apertado a cumprir.

Como na cidade nunca iríamos ter carro, optámos por adquirir, ainda em Portugal, um tour via Get Your Guide, para visitar alguns dos locais interessantes perto de Baku, e que estariam fora da nossa principal rota de viagem. Seriam os primeiros pontos a visitar, poucas horas após a nossa chegada. Como sabem, o nosso voo inicial saiu com um atraso significativo de Lisboa, o que impossibilitou sairmos neste tour. Felizmente, a agência, a nosso pedido, alterou-nos a data do mesmo, sem nenhuma complicação, para  a nosso regresso a Baku, depois da road trip pelo país. Ainda há pessoas compreensivas!

Voltando ao nosso dia, e chegados ao ponto de encontro indicado pela agência, pouco depois da hora marcada, partimos numa carrinha, com alguns companheiros de viagem temporários e de várias nacionalidades. A primeira paragem, muito perto do local de partida, foi no campo petrolífero de Bibi-Heybat, onde existe o monumento ao primeiro poço de petróleo comercial a ser explorado no país, a partir de 1846. Já não está ativo, mas mesmo ao lado existem outros em plena atividade. Por estranho que pareça, dentro da cidade existem poços de petróleo ativos e a extrair crude! Atualmente este campo está numa fase de maturação madura, estando em declínio natural, produzindo apenas 2 400 barris por dia.

A próxima paragem, muito perto do campo petrolífero, foi na Mesquita de Bibi-Heybat, um dos principais símbolos da herança espiritual do país, combinando relevância religiosa, arquitetura inspirada no período medieval e uma história marcante de destruição e reconstrução. Antes da entrada, e sendo um local de importante relevância espiritual, há muitas regras de vestuário, que todos têm de cumprir, incluindo homens, que não podem mostrar os joelhos. Safei-me à justa, baixando um pouco os calções, porque já não havia calças das “emprestadas”. Construída originalmente em 1281, alberga o túmulo de Ukeyma Khanum, tradicionalmente identificada como descendente do sétimo imã xiita, Musa al-Kazim, o que lhe confere especial significado religioso.

A estrutura original foi demolida durante a campanha antirreligiosa soviética na década de 1930 e reconstruída após a independência do Azerbaijão, preservando o estilo arquitetónico histórico. Pequenas pedras redondas estão um pouco por todo o templo. São as turbah, que na tradição xiita, servem para colocar a testa durante a prostração, para que o toque da testa seja em algo natural e não num tapete ou algo semelhante.

E agora sim, uma viagem um pouco mais longa, talvez 60 ou 70 quilómetros, para visitar os vulcões de lama, em Gobustan/Dashgil, um interessante fenómeno natural de origem geológica. Encontram-se numa zona que já foi mar e que hoje está seca, com a descida do nível do Mar Cáspio. Hora de todo o grupo, fazer transbordo para “rijos” e velhos Ladas, que nos transportaram, sempre “a abrir”, por trilhos poeirentos. A nós calhou-nos um de 1982. Era o carro do pai do condutor, e estava ali “para as curvas”. Que viagem alucinante! Mas muito divertida!

Depois de sacudir o bastante pó que “comemos”, chegámos por fim aos chamados vulcões de lama, porque o seu cone é formado na realidade por lama seca, e na sua cratera, água, lama, sedimentos e por vezes algum crude, borbulham devido à mistura com gás metano. Esse gás é responsável pela formação destes vulcões, uma vez que é a sua subida, através de fraturas na crosta terrestre, que provoca este fenómeno. Os que vimos não são muito grandes, mas existem pequenas ilhas no Mar Cáspio formadas por material expelido por vulcões de lama, pelo que existirão alguns bem maiores, mas submersos. Hora do regresso, e o velho Lada nem um gemido fez, em todo o percurso, apesar do trilho ”manhoso”. Que máquina!

O reencontro com a nossa carrinha foi, por sorte, em frente a um supermercado, o que nos permitiu comprar água fresca para limpar a garganta da poeirada ingerida. Que bem que soube!

A próxima visita seria ao Parque Nacional de Gobustan, Património Mundial da Unesco, famoso pelas suas gravuras rupestres gravadas na rocha. Existem mais de 6 000 gravuras, representando pessoas, animais, danças, símbolos, barcos, entre outras situações. Têm entre 5 000 e 20 000 anos.

Esta zona foi habitada desde muito cedo, pela existência de água, vegetação, animais e abrigos naturais nas escarpas calcárias desta região. Vimos, perto da borda de falésias, pequenas cavidades na rocha. Segundo os historiadores, serviriam para manter pontos de água, onde os animais iriam beber, sendo de repente assustados em direção à falésia, onde os caçadores os recolheriam. O engenho humano a trabalhar, desde há muitos séculos. Um outro objeto fantástico que pudemos ver foi um antigo instrumento musical, o gaval dash, ou pedra do tambor.

São grandes pedras planas, apoiadas nos extremos para ficarem parcialmente suspensas, que produzem sons, quando se lhe bate com uma outra pedra. Nesta zona calcária, as pedras são muito porosas, e com pequenas cavidades internas, e estas pedras, as mais planas, conseguem produzir ressonâncias, devido à sua estrutura interna. A visita termina no museu local, onde se podem apreciar peças arqueológicas recolhidas nesta área, e descrições mais aprofundadas das gravuras. Uma visita imperdível, pelo menos para mim, que finalmente descobri a origem dos meus desenhos: a pré-história. São igualzinhos a estes!

No regresso a carrinha avariou. Felizmente já estávamos na cidade e aproveitámos para nos despedir do grupo, que ainda iria continuar para locais que já tínhamos visitado, num tour de dia completo, com almoço incluído. Bom… talvez hoje seja lanche…

A avaria aconteceu mesmo perto do local onde iríamos começar a tarde, o edifício do Museu dos Tapetes, uma obra arquitetónica fabulosa, com a forma de um tapete azeri enrolado. É uma obra de fusão entre arquitetura moderna e a tradição milenar dos tapetes, em que o edifício se transforma numa representação dos objetos que guarda. Como já vimos muitos tapetes, optamos por saltar a visita ao interior do museu, sendo que o edifício já nos disse tudo, pela sua beleza.

Não muito longe, salta à vista um outro icónico edifício, o Deniz Mall, inicialmente pensado para ser um Centro de Congressos, mas que foi adaptado a centro comercial. O edifício tem oito braços em forma de estrela, inspirado na estrela de 8 pontas presente na bandeira do país. Por fora é lindo, por dentro, não estivemos lá 1 minuto.

Mais afastado, e decidimos não ir, um outro belo edifício, o Crystal Hall, construído para receber a Eurovisão de 2012. Desde aí que passou a ser a sala de espetáculos da cidade, acolhendo grandes eventos desportivos e concertos internacionais. Vimos ao longe. Fica para uma próxima visita a Baku. Também ao longe, apreciámos o edifício em forma de meia-lua, o Crescent Hotel, que cremos não estar ainda em funcionamento. Mais uma das modernas e impressionantes construções da cidade e mais uma representação de um dos símbolos da bandeira.

Uma das coisas que gostamos de fazer quando conhecemos uma cidade é utilizar os seus transportes públicos. Aqui não foi exceção, e teríamos de dar uma volta de autocarro e conhecer algumas estações de metro.

Começámos pelo metro, e decidimos ir até à estação de Old Baku, e aqui gostaria de fazer um parêntesis, para falar sobre a famosa torre da cidade velha, tão destacada na paisagem, conhecida pela Torre da Donzela, pelas lendas que a acompanham. É um monumento icónico e misterioso da cidade, classificado como Património Mundial da UNESCO. Dizem os historiadores que terá começado como templo zoroastra, mas a história mais comum, ou lenda, se preferirem, é a que fala de uma princesa cujo pai a queria forçar a casar contra a sua vontade. Para ganhar tempo, ela pediu ao pai que construísse uma torre alta. Quando a obra ficou pronta e o casamento continuou a ser exigido, ela subiu ao topo e atirou-se ao mar Cáspio.

Voltando à estação de metro da cidade velha, com o nome de Icherisheher, destaca-se a sua arquitetura. É uma estrutura piramidal de vidro que lembra bastante a famosa pirâmide do Louvre. Adquirimos um cartão recarregável, que dá para mais de um passageiro, e iniciamos a longa descida até à plataforma. Esta é uma estação bem profunda, que serviria também de possível bunker em caso de ataque. Não esquecer que o metro foi planeado e construído na época soviética, em plena guerra fria. Ainda hoje continua a haver muito cuidado com a segurança. Malas e mochilas têm de passar por Rx, passageiros por detetores de metais, no final das escadas rolantes, uma cabine tem sempre alguém a observar, câmaras de vigilância também haverá com certeza, e junto à plataforma, polícia. A estação em si transporta muito do espírito soviético, com pisos e colunas de mármore e granito polido, mantendo sinais de imponência e opulência, tão característicos dessa época.

As viagens são muito baratas, ficando sensivelmente a 0,30 € cada uma, quando em Lisboa está quase a 2 €, ou seja, um preço pouco atrativo para a utilização de transportes públicos.

Ainda fomos ver uma outra estação, a Nizami, famosa pelos seus mosaicos detalhados. Lembram-se de vos ter falado sobre os quadros que informam a proibição de filmar ou fotografar. Adivinhem que filmou? A Ana! De imediato um polícia surge, e, felizmente, não aconteceu nada de problemático. Apenas a informou que era proibido fazê-lo, e continuamos na nossa vidinha, sem olhar para trás.

Decidimos regressar ao centro da cidade de autocarro, uma vez que pretendíamos subir o funicular que nos levaria até às Flame Towers. A fila estava enorme, e quase que ficámos em risco de não subir, porque o funicular encerra às 20H00. Felizmente subimos! No topo, para além da beleza da mesquita e das Flame Towers iluminadas, consegue-se a melhor vista para a cidade e para o Mar Cáspio. Foram umas fotos noturnas bem interessantes. E descemos, pela longa escada, que acompanha o trajeto do funicular, e onde vamos descobrindo grandes espaços de jardins, miradouros e zonas de descanso. Numa zona algo escura, num pequeno viaduto por onde passa o funicular, sai, da penumbra, sem avisar, um soldado fortemente armado! Aqui não se brinca com a segurança. O viaduto será um local ideal para colocar um engenho explosivo, se alguém quiser fazer mal, e estará guardado 24 horas por dia. Exagero? Talvez… Não me parece haver assim tantas ameaças que pairem sobre o país. Mas enfim, eles saberão o que fazem.

Mas este dia não acabaria sem mais uma surpresa. Ao jantar, recebemos uma mensagem de WhatsApp, a informar que o hotel de amanhã, tido sido mandado encerrar e a nossa reserva estava cancelada. Como? Não faltava mais nada! Ligámos para o hotel e explicaram que tinha havido um problema técnico que os obrigou a encerrar temporariamente. Por sorte foi bastante fácil conseguir outro alojamento em Tbilisi na Geórgia, onde estaremos amanhã, na nossa “passagem” para a Arménia. Por acaso até localizado numa zona mais favorável para o que pretendemos. Não foi assim tão mau este cancelamento. Explicaremos estes pontos na próxima crónica. Amanhã, Tbilisi, Geórgia!

  • Diário de Odivelas - Redação

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