
O dia começou bem cedo, com o voo matinal que nos levou até Tbilisi, capital da Geórgia, cidade que já conhecemos, aquando da nossa viagem pelo país, há uns anos.
Dado o prolongado conflito que teima em existir entre o Azerbaijão e a Arménia, não há nenhuma forma de passar diretamente entre os dois países, por nenhum meio. As relações entre ambos continuam muito tensas, devido à questão de Nagorno-Karabakh. Esperamos que consigam resolver esta questão de uma forma pacífica e rápida!
Assim sendo, optámos por uma das soluções possíveis e talvez a mais utilizada, que é fazer uma triangulação pela Geórgia. Optámos por voar, sendo que recentemente foi reativada a viagem de comboio noturno, que liga Baku a Tbilisi, e que já não operava desde o COVID. Como o nosso planeamento foi feito com muitos meses de antecedência, esta opção nem se colocou, mas é uma opção a considerar, até porque a viagem é noturna, e ficará certamente mais económica que voo e noite de hotel. Fica a dica.

Assim que nos despachámos das formalidades de desembarque e entrada no país, seguimos direto para o hotel, para conseguirmos aproveitar ao máximo, revivendo locais que nos ficaram na memória, e deliciarmo-nos com as especialidades da cidade, onde não pode faltar o khachapuri, um verdadeiro ícone da gastronomia local, que basicamente é um pão em forma de barco, que se enche com queijo e no centro leva um ovo e manteiga. Vai ao forno e já está! Simples, mas delicioso!

Largada a bagagem, demos uma volta pelas imediações do hotel, e fomos verificar o ponto de saída das carrinhas, que amanhã nos levarão até Yereavan, Arménia, e que ficam mesmo quase junto ao hotel. Tratado este tema, e depois de uma breve visita a uma igreja ortodoxa, optámos por um almoço rápido e antecipado, porque teríamos de ir visitar o monumento “Chronicle of Georgia”, uma visita que tínhamos em falta.

Este monumento é um enorme conjunto de 16 colunas monumentais, com cerca de 30 metros de altura, construído numa colina com vista para o mar de Tbilisi e para a parte norte da cidade. As colunas têm relevos que representam episódios da história da Geórgia, além de figuras religiosas e personagens importantes.
A vista da colina é impressionante, e com dois panoramas completamente diferentes.

De um lado o Mar de Tbilisi, que apesar do nome, não é mar mas sim um enorme reservatório, criado no período soviético, para garantir água à cidade e a irrigação de campos agrícolas. Atualmente tem também uma vertente de lazer, com praias e também de desporto, com destaque para os desportos aquáticos. Do outro lado, uma paisagem urbana de arquitetura brutalista soviética, com enormes conjuntos de apartamentos de betão.

Chamado o BOLT – a melhor opção de transporte, rápida e muito económica – voltámos ao centro da cidade, para o regresso, há muito tempo aguardado, desde o planeamento desta viagem, a um dos meus locais favoritos por onde passámos, nas nossas viagens pelo mundo, para usufruir de uma tranquila bebida, ouvindo uma das melhores playlists de sempre, num ambiente absolutamente fantástico! O que será?

Claro está que só poderia ser a FABRIKA! Imperdível esta visita! Uma antiga fábrica soviética de confeção de roupa essencialmente feminina, conhecida como “Nino”, que, depois do fim da União Soviética ficou abandonada durante anos.

Felizmente o edifício foi reaproveitado, mantendo a sua matriz fabril, com paredes de betão, antigos pavimentos, estruturas industriais e elementos soviéticos na fachada. Atualmente é uma pequena cidade criativa, com hostel, bar, diversos ateliers e estúdios ligados às artes, pequenos negócios, coworking, eventos, exposições, entre muitas outras coisas. Nas imediações e em todo o enorme edifico, a “street art” está em grande, com murais muito interessantes, pelo que esta visita é altamente recomendada!

Depois deste regresso, o programa foi apenas o de nos perdermos pela cidade, sem grandes planos, à procura de “cenas” diferentes para fotografarmos. A cidade mantém o seu aspeto pesado e cinzento, que é atenuado pela vibrante arte de rua, criando pequenos espaços maravilhosos de cor e movimento. Notámos também que há partes da cidade bastante degradadas, com edifícios já muito antigos e com pouca ou nenhuma manutenção, fazendo por vezes lembrar Havana.

Atravessámos uma das pontes sobre o rio Kura, para revisitar a cidade velha, que continua muito igual, com centenas de restaurantes e bares a digladiarem-se pela conquista de quem passeia nas ruas.

Demoramos um pouco mais de tempo na Catedral de Sioni, para nos deliciarmos com os cânticos religiosos que estavam a acontecer, e que nas igrejas ortodoxas soam sempre maravilhosamente bem.

O regresso à nossa margem foi feito pela Ponte da Paz, uma moderna ponte de vidro e aço, construída em 2010. O seu nome poderá ter a ver com o conturbado período que a Geórgia viveu com a Rússia, em 2008, com a guerra, felizmente curta, pela posse de dois territórios georgianos, Abcásia e Ossétia do Sul, agora, considerados pela Rússia, como estados independentes.

Dia 8 – Arménia
Deixámos Tbilisi pela manhã e embarcámos numa carrinha que nos levaria até Yerevan, na Arménia.

Como já sabíamos, a viagem é totalmente alucinante! O condutor vai sempre a “abrir”, as ultrapassagens são feitas em qualquer lado, e quem vier de frente que se encolha, mas pronto, conseguimos chegar sãos e salvos. A travessia da fronteira, para nós, é bastante rápida, uma vez que nem de visto precisamos para entrar no país. Uma hora antes de chegarmos a Yerevan, as carrinhas param numa estação de serviço, que tem um restaurante até bem bom, e com preços muito económicos.

Chegámos à cidade já bem dentro da tarde, e aqui a opção de transporte é a plataforma Yandex Go, com preços mesmo muito baratos. Acabámos por dar boleia a um alemão, companheiro de carrinha, que estava sem net, e que por acaso ia para a mesma zona da cidade. Ainda conseguimos fazer um milagre, que foi o de colocar a nossa bagagem no carro que nos transportou, que vinha com dois pneus na bagageira, sabe-se lá porquê…

Durante a viagem, a cidade mostrou-nos largas avenidas e uma tonalidade dominante, entre o rosa e ocre, conferida pela pedra que reveste a maioria dos seus edifícios, criando uma paisagem urbana singular, mas por vezes monótona.
O alojamento de hoje foi num pequeno hotel, num edifício de verdadeira arquitetura soviética e também cinema, o Moscow Hotel. Neste local existiu inicialmente uma igreja, demolida pelos soviéticos em 1930. No seu lugar foi construído o Moscow Cinema, inaugurado em 1936, com capacidade para 1 400 espectadores. É onde funciona também o rent-a-car, pelo que aproveitámos já a oportunidade para avançar com o processo de aluguer da viatura a ser levantada amanhã de manhã.

Mesmo em frente ao hotel, temos a estátua “La Bohème”, representando Charles Aznavour, durante uma atuação e as palmas do público. Os seus pais eram de origem arménia, que se refugiaram em Paris, na altura do Genocídio Arménio de 1915. Tornou-se uma das figuras internacionais mais associadas à cultura e causa arménia, chegando a ser o embaixador do país na Suíça e representante da Arménia junto da ONU em Genebra. A estátua foi colocada nesta praça, agora também com o seu nome, porque ele adorava ficar na varanda do seu habitual quarto de hotel, a contemplar a beleza deste local.

Como a tarde já ia bem adiantada, fomos até à Praça da República, antiga Praça Lenine, o coração monumental de Yerevan. Aqui temos a Casa do Governo, o Museu de História da Arménia, a Galeria Nacional, os Correios Centrais e alguns ministérios. Como em grande parte da cidade, também estes edifícios têm o mesmo tipo de pedra rosa e alaranjada. A pedra chama-se tufo vulcânico e existe em abundância na região. Esta cidade até é conhecida pela cidade rosa.

Não muito longe da Praça, e sendo domingo, era impensável não ir à feira de artesanato e antiquários que decorre neste dia da semana, numa longa alameda. Até porque tínhamos um presente a comprar, uma promessa feita um mês antes e aqui poderia haver opções interessantes, o que acabou por acontecer num antiquário, depois de negociações intensas e só à segunda passagem. Mas conseguimos!

Sem estarmos a contar, e numa improvisada “banca” de livros usados de um simpático idoso, ainda conseguimos um livro em inglês sobre o genocídio arménio, o presente perfeito para outra pessoa, que nem estava nos planos. Mas era a cara dela! Não resistimos! Até porque não costumamos comprar presentes nas nossas viagens. Desta vez abrimos exceção, porque viajámos de mala ao invés da nossa mochila de 40 litros.

A noite começou a cair e voltámos para a parte alta da cidade, aproveitando para um jantar rápido num restaurante libanês. Queríamos ainda visitar a Ópera e voltar a descer à Praça da República para o espetáculo noturno das fontes dançantes. A Ópera é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, e também ele revestido em tufo rosado, que lhe dá uma certa leveza, dentro da sua opulência. Está inserido numa grande praça circular, e distingue-se pela sua monumentalidade e pela sua forma curva. Esta praça, sempre muito movimentada, é ponto de encontro para pais com crianças, que brincam alegremente em carros elétricos e para enormes rodas espontâneas de voleibol, criando uma forma de sociabilidade urbana muito interessante.

E estava na hora de voltar para a Praça da República para o espetáculo das fontes dançantes, onde jatos de água são iluminados e sincronizados com música, numa coreografia de luz, cor e movimento.

A envolvente dos edifícios, nos seus tons rosa e alaranjado e totalmente iluminados, torna a atmosfera quase mágica. Também a playlist é surpreendente! Vai de música clássica a pop moderno!

E pronto, terminou a noite e chegou a hora de descansar, porque amanhã é dia de sair cedo, e dar início à road trip pelas montanhas arménias.






