Então, cá estamos

O nascimento é uma situação de urgência num país onde as urgências estão muito mais fechadas que as latas de atum com cadeado e alarme dos supermercados.

Há cada vez mais bebés a nascer na estrada; problema esse que em breve será resolvido quando o preço da gasolina aumentar o suficiente para ninguém poder andar de ambulância.

A natalidade nacional é diminuta. Isto é algo que não se entende tendo em conta tão grandes vantagens existentes para famílias com filhos, como receberem abonos familiares que pagam pouco mais que uma refeição e um chupa-chupa.

As crianças crescem e vão para a creche, ou iriam se existissem vagas, mas ninguém tem vagar para resolver isso.

Um jovem cresce e precisa desenvolver conhecimento, algo difícil de fazer sem antes desenvolverem professores para todos os alunos. Entende-se, com o aumento de preços mal se desenvolve comida para todos, quanto mais professores.

Há a ameaça no ar do aumento das propinas universitárias, mas felizmente o governo havia instaurado um apoio para os jovens que terminam o curso. Claro que este apoio está em risco, sendo a retirada de custos a única coisa apoiada pelo governo em curso.

Um jovem cresce e precisa encontrar emprego. Com muita dificuldade, com um mestrado no bolso, a pessoa depois de vários anos e tentativas consegue uma vaga numa multinacional, ou não estivessem os restaurantes de fast food sempre a precisar de funcionários na caixa.

Depois disto tem o emprego assegurado; pelo menos no sentido de ser assegurado que em qualquer emprego a carreira não avança, tendo o salário mais congelado que um gelado de pressão.

Pelo menos tem emprego para a vida. Afinal, toda a gente sabe que é bem possível trabalhar na mesma profissão para o resto da vida neste país, mas só se a pessoa tiver um ataque cardíaco logo após ser contratada.

Com o emprego vem a necessidade de encontrar casa, algo fácil de arranjar se estivermos dispostos a pagar o equivalente a um ano de renda, um rim e a vida do filho primogénito como sacrifício só como entrada.

O governo neste caso fornece um apoio público para a habitação. Isto eventualmente, porque já se passou quase um ano sem qualquer resposta às candidaturas. Talvez ter um telhado por cima da cabeça seja sobrevalorizado quando uma pessoa mal tem um chão onde cair morta.

Há que movimentar a economia, portanto vamos investir no registo de marcas…ou iríamos se o site estivesse a funcionar.

O ser humano precisa se cultivar, e por vezes não há nada melhor do que consumir cultura. Infelizmente, com um ministério extinto, resultados de candidaturas sem resposta e uma percentagem do orçamento do estado abaixo do 1%, o mais próximo de um teatro que é possível ver começa a ser o do primeiro-ministro a tentar esquivar-se de qualquer culpa em relação a movimentações de empresas.

Cerca de 1,8 milhões de pessoas em Portugal vivem abaixo do limiar da pobreza enquanto a percentagem do orçamento da defesa vai aumentar. Nada como investir num exército que pode muito bem ser composto por soldados sem nutrição suficiente para levantar uma arma.

Felizmente na velhice o português tem a segurança de receber em média um valor de pensão abaixo do valor do limiar da pobreza, ou não fossem as pessoas idosas se sentirem excluídas.

Mas tudo bem, em breve tudo será resolvido: o governo decidiu tirar a nacionalidade a pessoas que cometam crimes graves.

  • Diário de Odivelas - Redação

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