23 de Abril — Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor







O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor celebra a força transformadora da leitura e o papel essencial de quem escreve, edita, traduz e protege a criação intelectual. É um dia que recorda que cada livro é um encontro entre vozes: a de quem o cria e a de quem o lê, num diálogo que atravessa gerações, geografias e culturas.

A leitura amplia horizontes, fortalece o pensamento crítico e alimenta a imaginação. Num mundo marcado pela velocidade e pela fragmentação, o livro permanece como um espaço de pausa, profundidade e liberdade — um lugar onde cada pessoa pode descobrir novas ideias, revisitar memórias ou encontrar respostas que ainda não sabia procurar.

Celebrar este dia é também defender os direitos de autor, que garantem que a criatividade é respeitada, valorizada e protegida. Sem estes direitos, não haveria diversidade literária, nem condições para que escritores e escritoras continuassem a criar com liberdade e dignidade.

Em Odivelas, esta celebração ganha um significado especial. O concelho tem sido palco de autores e autoras que escrevem sobre a sua história, as suas gentes e os seus lugares — obras que preservam a memória coletiva e revelam o património cultural local. Livros sobre os moinhos, sobre o Mosteiro de São Dinis e São Bernardo, sobre as tradições e o quotidiano das freguesias, são testemunhos vivos de uma identidade que se escreve e se lê com orgulho.

Hoje, honramos todos os que fazem dos livros uma ponte para o conhecimento e para a humanidade — e celebramos também os que, em Odivelas, continuam a transformar a palavra em legado.

E talvez não seja má ideia, falando de autores de Odivelas deixar-vos aqui a “Ode a Odivelas” onde em 25 sonetos, escritos em 2006, o poeta odivelense Joaquim Sustelo fala desta terra, onde não nasceu, mas vive há mais de 50 anos

Imagem gerada pelo Copilot da Microsoft

ODE A ODIVELAS

1.

Falar desta Odivelas, meu amigo,

aquela que me acolhe há tanto ano,

deixa-me aqui tentar, ver se consigo,

fazê-lo com rigor; se não me engano…

 

Envolve esta tarefa sempre um perigo;

o esforço vai ser grande, mas humano.

Daí que já comece. E já prossigo

que vou ter para mangas muito pano.

 

Cidade muito antiga em sua história.

de muito cedo existe uma memória

de um burgo, que estes sítios, os povoa.

 

Aqui, por estes vales e encostas…

Um pouco mais atrás, mesmo nas costas

dessa cidade linda que é Lisboa.

 

2.

Mas linda também é minha Odivelas!

Ostenta também estátuas, monumentos,

tem ruas bem estreitinhas ou vielas,

cruzeiros, pelourinhos e conventos.

 

Pessoas que te acolhem. E com elas

adorarás falar, por uns momentos.

Tens desde essas bem simples ‘té àquelas

que têm outras artes ou talentos.

 

Lá quando sem saberes aonde ir

te der o tal impulso de sair,

aquele que é andar só por andar,

 

Muda para estes sítios a vontade;

talvez leves daqui uma saudade

aquela que nos faz querer voltar.

 

3.

Dirige-te à cidade pelo sul

descendo pela Encosta (que é) da Luz;

e vê-a sob um céu todo ele azul

que é belo o que a imagem te produz.

 

Mas mesmo estando envolta em véus de tule,

as nuvens emprestando-lhe um capuz,

verás que nem há brisa que lhe anule

todo esse seu encanto, que seduz.

 

Perante o olhar teu que já se alegra

verás uma cidade que se integra

num espaço bem enorme que a confina;

 

Há uns quarenta anos, já remotos,

do alto dessa encosta guardo fotos

quando Odivelas era… pequenina.

 

4.

Era o Espírito Santo e a Memória

Pombais e mais algum bairro a seu lado.

Aqueles que já andam pela História

pois albergaram gentes do passado.

 

Cidade duma fama meritória

guarda relíquias desse predicado.

Que as há ! Na parte antiga a mais notória

decerto irá fazer o teu agrado.

 

Depois, uma extensão já mais recente

de bairros apinhados, tanta gente!…

Arroja, Quinta Nova, Codivel…

 

Bons dias, Radial, outros… Chapim…

de prédios já mais novos e que assim

circundam os antigos num anel.

5.

Mas já que te meti por estas sendas

deixa que uns dois minutos eu te tome;

pra dar-te a conhecer as duas lendas

que – dizem – à cidade dão o nome:

 

Deram-lhe em tempos idos como prendas

Para moer o pão, que mata a fome,

moinhos espalhados p’las fazendas

e deu-lhe a natureza, sem renome,

 

dois ribeirinhos… (de água, hoje pouca.)

“Ribeiro,” que era “odi,” o que provoca

aliada aos moinhos ou às velas?

 

É claro que já viste e bem depressa

e assim nessa junção é que começa

à cidade, a chamar-se, de Odivelas.

6.

A outra lenda, ao lê-la, tu sorris,

pois tem a ver com coisa de mulheres.

Que delas grande fã, o Dom Dinis,

em toda a parte tinha uns “afazeres…”

 

Um dia diz-lhe um aio de ar feliz:

“Conheço dessa gente uns lindos seres!”

O Rei, que tais mulheres sempre quis,

Inquere: “e ficam longe? Onde as conferes?”

 

Saiu então, sabendo onde é que era…

Porém tinha a Rainha à sua espera

no caminho… prevendo que ia a elas;

 

E ela, nessa mágoa que a aflige,

a frase que ao marido então dirige:

“ide vê-las, senhor!” – deu Odivelas.

 

7.

Depois desta conversa bem disposta

(as lendas que conheço sobre o tema),

recorda, estás no alto da encosta,

onde o concelho tem também a estrema.

 

Eu sei que do que vê a vista gosta

e dava inspiração para um poema.

Mas não é essa só, minha proposta!

E fácil é descer sem ter problema.

 

Sem que as horas te voem, por ligeiras,

desce essa rampa, até às Patameiras,

um bairro p’lo qual sinto… simpatia.

 

Foi lá… quando das fotos que falei,

que em anos já distantes namorei

aquela que me faz hoje companhia.

8.

Tinham as Patameiras poucas ruas:

a parte do terreno que vês plano.

Da chuva, a muita água, fez das suas

enchentes, se invernoso vinha o ano.

 

Hoje entras ali dentro, continuas

num bairro bem maior e soberano;

passam por ele sóis, chuvas e luas

e a água não lhe faz já nenhum dano.

 

Ao cimo, a rua larga, a avenida…

Com uma linda Igreja na subida

em frente, logo junto, o cemitério.

 

E no lado poente, à urbe externo,

um “Odivelas-Parque” bem moderno!

(A era é destes Centros. Caso sério.)

9.

Contíguo tens o Bairro dos Pombais,

ele também no tempo tão velhinho.

Porém sem ter motivos, esses tais,

que façam demorares no teu caminho.

 

Prossegue mais um pouco, um pouco mais

e hás-de atravessar um ribeirinho,

ao lado, linda casa, de ancestrais

os prédios já com ela em desalinho.

 

Mas vira à tua esquerda mais à frente;

tens o Espírito Santo inda presente?

Entra no Bairro (e Rua… mesmo nome).

 

Aí direi de modo categórico:

entraste na cidade, em centro histórico,

verás de um monumento que se assome.

10.

Exato: um pouco à frente, em teu roteiro,

encontras um coreto e um chafariz.

Ali ao lado de um… velho mosteiro

a que foi dado o nome S. Dinis.

 

Direi desse coreto então primeiro

que teve como origem ou raiz

donativos do povo, em seu dinheiro,

que há cerca de cem anos lá o quis.

 

No centro da cidade, é essa a regra.

E bem no centro histórico se integra

no pequeno jardim por onde andas.

 

Ouviu longos discursos. Ou então,

quando chegava ao fim a procissão,

sentia em alternância muitas bandas.

11.

Mas não te vou falar de algum discurso

e sim desse mosteiro que é ao lado;

mandado construir após um urso

um dia a D. Dinis ter atacado.

 

Em A-da-Beja, El-Rei, no seu percurso

de caça, encontra um urso agigantado.

Mas crava o seu punhal, que era o recurso,

no meio do coração desse malvado.

 

Invocara entretanto S. Dinis

e o bispo de Tolosa, S. Luis,

para a sua defesa, ante tal perigo;

 

Promessa? A construção deste mosteiro.

Morria o séc’lo décimo terceiro

e assim é monumento muito antigo.

12.

De início totalmente em estilo gótico,

tem neoclássico hoje e manuelino.

Pois a reconstrução pós o caótico

terramoto, deu-lhe outro figurino.

Viveu muito momento apoteótico

já que era para nobres seu destino;

mas teve também tanto o lado erótico!

Que amor… às vezes leva ao desatino.

 

Foi de freiras bernardas. De Cister.

De filhas da nobreza (as de não ter

um dote que as levasse ao casamento);

 

não estando prometidas a um nobre

o ingresso era em mosteiro, que ele as cobre

de faltas, incluindo as de sustento.

13.

A total proteção das recolhidas

não era assunto sempre afiançado:

os próprios reis, por lá, em suas idas,

escolhiam sempre alguma ao seu agrado.

 

Consulta bem a História, as “investidas”

que muito ter-se-á ali passado…

Dom Dinis, Dom João Quinto, as queridas,

o amor a fazer “estragos” ou pecado.

 

Não quero dar-te aqui alguma aula

mas dizem que uma tal de Madre Paula

esteve de Dom João sempre nos trilhos;

 

Foi tudo de tal modo, vê lá tu,

que a História nos relata nu e cru:

a Madre ser a mãe dum dos seus filhos.

14.

Deixemos nossos reis, seus desvarios,

quem sabe do que tinham então míngua…

Senão inda ouvirei uns assobios

pensando tu que sou… a tal má língua.

 

Antes que te provoque calafrios

toda essa inconfidência agora extingo-a.

Voltemos à conversa, a outros fios,

se assim prossigo, borro a obra… “pingo-a”…

 

De coisas sérias, queres que te alastre?

Morreu Dona Filipa de Lencastre

lá dentro. A distinção da realeza!

 

E em recolhimento bem profundo

esteve a irmã de Dom João Segundo

Que foi Santa Joana – a princesa.

15.

Viveram-se momentos de epopeia

entre as suas paredes, sua gente:

ali p’la vez primeira a Cananeia

se recitou (de mestre Gil Vicente).

 

Padre António Vieira ali semeia

um seu sermão, decerto comovente.

Almeida Garrett também por lá passeia

narrando do mosteiro o que então sente.

 

Ainda à de Lencastre queres que aporte?

Foi no mosteiro, em leito, quase à morte

que abençoou, qual cura terapeuta,

 

os filhos que seguiram pró Restelo

unindo-os mais a ela, em maior elo,

quando no barco foram para Ceuta.

16.

Que mais te vou dizer de um monumento

que conheceu reis, príncipes, artistas,

fidalgas, freiras, em internamento,

narrado por escritores, por cronistas?

Que alberga ele uma escola no momento,

e bons ensinamentos, catequistas?

Mas o melhor será vê-lo por dentro

espalhando bem por ele as tuas vistas.

 

Dizer que ele acolheu sua raiz,

que o túmulo possui, de Dom Dinis,

citar tudo num pouco, aqui narrar?

 

Ah não! Uma visita te sugiro!

E vamos prosseguir o nosso giro

que tenho ainda mais pra te mostrar.

17.

Em centros é normal que se preveja

(repara que nos burgos é verdade)

ter algo mais de histórico, uma Igreja…

e vamos à Matriz, desta cidade.

 

Sumptuosa, a muitas outras faz inveja

verás o que lhe dá sumptuosidade:

douradas talhas, tudo relampeja,

‘té mármore nas cores e qualidade.

 

Azulejos, com cenas de louvor,

vestida a mármore a capela mor,

e escadas duplas, por onde se passa…

 

No baptistério, e com brilhantismo,

há azulejos, cenas de baptismo,

até uma pia em forma de taça!

18.

Foi tanto de riqueza o que lhe coube

e quer em peças fixas quer em soltas,

que há sempre quem cobice, até quem roube

depois as escondendo noutras voltas.

 

Ali um tal Ferreira um dia sobe

talvez numa carência, ou em revoltas,

rouba umas quantas peças, leva e cobre,

ficando nuns caniços bem envoltas.

 

Consta que foram contas de um rosário

e do Menino, peças… vestuário,

além de Vasos, tudo tão sagrado…

 

E tendo-as escondido bem por perto,

o roubo foi mais tarde descoberto

onde há um monumento: Senhor Roubado.

19.

Teve esse tal Ferreira pouca sorte:

foi visto noutro roubo no mosteiro;

quem rouba normalmente não é forte

que fique só por um… o tal primeiro.

 

Confessa logo ali o seu desnorte,

o da Igreja, que o leva ao cativeiro;

cumprindo uma implacável lei da Corte

foi condenado logo o desordeiro:

 

Desculpa se te causo um calafrio…

Foi posto então no Largo do Rossio,

Ambas as mãos cortadas! Decepado!

 

Queimadas bem à frente, à sua vista;

depois cumprindo a norma legalista

seu corpo se findou… incendiado.

20.

Porém, olvida agora esse que peca

nem fiques pela história assim tão preso;

embora tenha sido dura e seca

a forma de tratar alguém repeso…

 

Vamos ali ao lado, à Biblioteca

onde tu podes ler gente de peso;

que o tempo até nos voa…Com a breca!

E contra as horas fico… eu indefeso.

 

Um amplo espaço vês, bem concebido!

Além de livros, coisas com sentido,

a música, o CD, ali se alinha…

 

Escritores, poetas, livros variados;

quem sabe se mais uns anos passados

ainda lá verás uma obra minha?…

21.

Oh… deixa agora as minhas pretensões

que às vezes da vaidade vem-me um cheiro…

Anda comigo um… dois quarteirões,

que temos para ver lindo Cruzeiro.

 

– A porta da cidade? – Opiniões…

A uns duzentos metros do mosteiro…

Ele ouve do coreto hoje canções

tal como ouviu as bandas bem primeiro.

 

Abaixo onde era a Quinta da Memória,

dum bairro que já viste estar na História,

onde um tão rico centro se descobre,

 

Verás um lindo prédio amarelo

que faz com a cidade hoje outro elo:

– os Paços do Concelho… o Salão Nobre…

22.

Mas não pretendas ver tudo num dia,

tantas coisas de interesse e tão distintas!

Pois logo, ainda em centro, ou periferia,

tens outros tantos bairros que eram quintas.

 

Quintas de férias: ricos! fidalguia!

Talvez de certo modo ainda os sintas…

Quinta do Mendes, Nova… outras que havia,

que no erguer de prédios foram extintas.

 

Verás a parte nova, mais menina,

um canto arborizado, uma piscina,

e pontes, auto estradas, e progresso.

 

Tudo conservarás numa saudade…

até que quase aposto, na verdade,

de tudo bem dirás desde o começo.

23.

Só quero que o desejo tu despontes

e voltes outro dia, outra semana…

Que nem viste Caneças, suas fontes,

nem o moinho além, da Laureana.

 

Mas quando regressares a estes montes

em vez de vires só, traz caravana;

pra verem no local o que lhes contes

de tudo o que de bom daqui emana.

 

Visitarás as outras freguesias

tens Antas, Aquedutos, e avalias

o quanto a tua alma deles gosta.

 

Em cada, é a cultura que te brinda!

Numa viagem que darás por finda

no Centro Cultural da Malaposta.

 

24.

Agora irás mais rico, meu amigo!

Sobe a Calçada *, lembra Gedeão!

Canta! Se não souberes vou contigo,

faz desse seu poema uma canção!

 

Talvez eu já nem saiba o que te digo

pois faço-o com bastante comoção…

Simples imaginar… o que consigo:

Luísa… odivelense? Porque não?

 

Cidade onde inda hoje as suas gentes

arrancam p’la manhã em contingentes

cumprindo por Lisboa o seu trabalho.

 

Contudo, a minha mente já divaga:

um poeta em ideias se embriaga

mas são sem fundamento. Não baralho…

* Calçada de Carriche

25.

E nisto dou por finda a minha ode

a esta que nem me é cidade-berço;

cantando quanto a alma sabe e pode

muitos dos seus encantos e em verso.

 

Porém é a cidade que me “acode”

desde um remoto tempo, a este terço;

que nela o meu Outono se acomode

até vir outro tempo mais adverso!…

 

Minha Odivelas, sabes que te amo!

Assim neste poema aqui proclamo

que és tu, já para mim, uma Rainha

 

Não sei se teus encantos eu mereço…

Mas pelo que de ti canto e conheço,

permite que te chame sempre minha!

Joaquim Sustelo

Em edição do autor _Ode a Odivelas_J.Sustelo_2006




  • Diário de Odivelas - Redação

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