Dia 2 Istanbul – o lado asiático







Pequeno almoço no nosso hotel, simples, reconfortante e com uma vista fantástica para a cidade, num último andar de um antigo, mas bem conservado prédio de Kadikoy, e onde uma gaivota se equilibrava com dificuldade no ferro da varanda, a tentar a sua sorte de levar alguma guloseima.

A manhã estava muito cinzenta, e a cidade ainda despertava de uma noite chuvosa. O objetivo do nosso dia seria o de chegar ao Mar Negro, ou o mais perto possível dele.

Para isso acontecer, fizemos uma longa viagem de quase duas horas, até Anadolu Kavagi, um bairro essencialmente de pescadores. Primeiro, um autocarro urbano até determinado ponto, numa viagem muito interessante, e que em grande parte, se desenrolou nas margens do Bósforo. Depois de muitas paragens, hora de fazer um transfer para outro autocarro, que acabámos por não apanhar, porque um simpático idoso, nos deu boleia até Anadolu Kavagi! Estes imprevistos são simplesmente adoráveis! Connosco entrou também um local, mas inglês, nenhum deles falava. Mas tudo muito tranquilo. Deduzimos mais tarde, que seria um transporte para civis, para uma base militar que ali existe. O local saiu na base, e a nós foi-nos deixar no bairro. Até nos queria ir deixar no Castelo, bem no cimo do monte. Um luxo! Optámos pelo bairro, e bem nos arrependemos mais tarde… ter feito apenas a descida, tinha sido mais simpático.

Anadolu Kavagı é um pequeno bairro costeiro no lado asiático do estreito de Bósforo, em Istanbul. Tem um

ambiente muito tranquilo, completamente diferente do frenesim da megacidade, e tem também bons restaurantes de peixe. Historicamente é um bairro de pescadores, e fica no sopé do Castelo Yoros, que já falaremos. Para muitos, é aqui que se considera o fim do Bósforo e o início do Mar Negro. Anadolu Kavagi tem uma importante posição estratégica desde sempre, pelo que todos os impérios ali mantiveram guarnições militares. Poderá ter sido ponto de ancoragem de enormes correntes, que antigamente eram estendidas pelo estreito para impedir a passagem de navios inimigos, e assim defender Constantinopla.

Quando chegámos, a zona estava praticamente deserta, tirando um ou outro local que ia passando. Fizemos a visita a Anadolu, e novamente, tivemos a companhia de um gigante, mas muito dócil cão, que fez questão de nos acompanhar a maior parte do percurso. Ficou com o dia ganho em festas!

Já que falámos no Bósforo, ele é um estreito que se formou por processos geológicos naturais ligados ao fim da última Era do Gelo, que levou à conexão do Mar de Marmara ao Mar Negro, um mar, à época, interior. É também aqui a separação da Europa e da Ásia.

A base militar no topo da montanha, tem ramificações dentro do bairro, onde estão ancorados vários barcos patrulha da marinha. Percebemos que toda esta zona é militarmente muito sensível, e ocupa uma área importante desta região. Tudo muito ligado ao controlo do Estreito do Bósforo.

Entretanto decidimos que teríamos de ir ao Castelo antes de almoço. A subida… que saudades da carrinha do velhote! A meio da encosta, e aproveitando para restabelecer o fôlego, ficámos por uns momentos a ver filmagens para novelas turcas, que estavam a decorrer junto a uma linda casa branca de madeira. A cena era das pesadas, com muita discussão, gritos e até uma pistola. Retomado o fôlego, continuámos até ao Castelo de Yoros, numa subida que parece não ter fim!

Finalmente o Castelo! Fortaleza histórica com uma das vistas mais estratégicas do Bósforo. Esta localização fez dele um ponto militar extremamente importante durante séculos, porque quem controlava ali conseguia observar e, em parte, controlar a entrada de navios no estreito. Tem origem bizantina, provavelmente construído entre os séculos IX e XIV, e reforçado pelos genoveses na Idade Média, quando eles tinham forte presença comercial na região do Mar Negro. Durante o período bizantino, o castelo fazia parte de uma rede de defesa de Constantinopla. Há relatos de que sinais de fogo ou bandeiras eram usados para alertar a cidade sobre navios inimigos que se aproximassem do estreito.

Pela quantidade de esplanadas que fomos encontrando pelas encostas, será zona de grande afluência ao fim de semana ou no verão. Esta manhã estavam desertas, mas as lindas vistas, essas sim, estavam lá.

A descida foi substancialmente mais fácil que a subida. As filmagens continuavam, e a pistola chegou a ser utilizada no interior da casa.

Chegámos de novo a Anadolu Kavagı, e despoletámos uma pequena guerra, entre 10 ou mais restaurantes. Apenas dois turistas para almoçar e muitos restaurantes vazios. Acabámos por optar por um que tinha uma mesa mesmo junto à água, para tornar a refeição mais agradável. Estando numa zona piscatória, peixe claro está! A escolha recaiu sobre uma sopa de peixe e anchovas fritas, outro petisco local. Para companhia, de novo uma gaivota que tentou a sua sorte e dois simpáticos gatos, sempre muito bem-comportados.

Consultada a previsão meteorológica, que dava chuva para a tarde, optámos então por visitas interiores, e decidimos ir até à Mesquita Camlica. Só que, entretanto, a luz ficou espetacular e saímos do autocarro, no bairro de Beykoz, que aproveitaríamos para explorar.  Este bairro é um dos distritos mais verdes e menos densos de Istanbul, ao longo do lado norte do Bósforo. Historicamente, sempre foi uma área mais residencial e de veraneio, especialmente durante o período otomano, quando a elite construía “yalıs” (casas de verão) ao longo da costa. Outro ponto interessante é a presença de antigos palácios e pavilhões otomanos, e optámos por visitar o Palácio Beykoz Mecidiye. Digo-vos que os preços deste lado, nada têm a ver com as exorbitâncias que se cobram pelos monumentos do lado europeu da cidade.

Logo à saida do autocarro, um pequeno café tradicional chamou a nossa atenção e que lugar perfeito para beber um chá. De seguido fomos ao palácio, e a chuva voltou a cair, pelo que a opção se mostrou excelente! Este Palácio fazia parte das residências de verão da família imperial otomana. Construído no século XIX, já tem muitas influências europeias. O que mais impressiona na decoração, são os gigantescos lustres, símbolo de poder e riqueza do sultão.

Com a chuva ainda a cair, retomámos o plano original da Mesquita Camlica, mas já muito perto da fortaleza Anadolu Hisari, o céu voltou a abrir quase que milagrosamente, invadindo toda a zona de uma luz extraordinária, e… nova descida apressada do autocarro, para visitar a fortaleza!

Anadolu Hisarı ou a Fortaleza de Anatólia, é uma fortaleza medieval otomana, junto às margens do Bósforo. Construída em 1394, serviu para pressionar o Império Bizantino durante o cerco a Constantinopla, bloqueando todos os navios vindos do Mar Negro, impedindo o reabastecimento à cidade. É a estrutura otomana mais antiga ainda existente em Istanbul. Mais tarde foi complementada pela fortaleza de Rumeli Hisarı, construída na margem oposta em 1452, fechando totalmente o estreito. Após a conquista da cidade, perdeu importância militar, e já foi posto alfandegário e prisão. Foi restaurada há uns anos.

Como o tempo se manteve excelente, acabámos por caminhar alguns quilómetros até ao bairro de Çengelkoy, num passeio muito agradável sempre junto ao Estreito, descobrindo alguns recantos maravilhosos. Num desses locais mais escondidos, fizemos uma sessão fotográfica com um gato bebé, que foi uma delícia! Nesta zona, moradias de luxo forram a encosta. Quase todas com vários pisos em socalcos, com grandes elevadores panorâmicos que ligam os diferentes pisos. Outras usam elevadores exteriores, tipo funiculares, para resolver a diferença de alturas.

O clima manteve-se perfeito e continuamos a caminhar até à antiga escola militar, a Kuleli Askerî Lisesi, que estava implantada num lindo edifício junto ao Bósforo, construído em 1871, no local onde existiam antigos quartéis de cavalaria otomana. O seu nome, Kuleli, está ligado às suas bonitas torres. A partir de certa altura passou a ser a escola de elite para formação de oficiais, que terminou em 2016, após mudanças profundas no sistema militar turco, com a tentativa de golpe naquele ano. Continua a ter uma utilização militar, pelo que não é visitável no interior. No cais junto ao edifício, dezenas de pescadores vão sacando anchovas para os baldes, e muitos já estavam cheios. Foi um bom dia de pesca.

Aproveitámos a zona de restaurantes de kokoreç, para jantarmos este delicioso petisco local e especialidade turca. Pode parecer muito estranho à partida, mas a verdade é que sabe muito bem. Mas afinal o que é o kokoreç? É feito com intestinos de cordeiro ou de cabrito, que são, depois de bem limpos, enrolados num espeto e grelhados lentamente sobre carvão. Depois de assado, é picado em pedaços pequenos, misturado com sal, pimenta, especiarias, e colocado dentro de um pão. Apenas delicioso!

Como já repararam, a Mesquita Camlica vai ficar para outro dia, e apanhamos autocarro de regresso ao nosso hotel. A meio do percurso entra um grupo de jovens raparigas, a fazer perguntas ao motorista, que não entendia nada de inglês. Lá percebermos o que elas pretendiam. Todas espanholas, e basicamente estavam um bocado perdidas. Estavam alojadas na parte europeia, e vieram à maluca para a parte oriental e não sabiam bem como voltar. Perderam pontos de referência por ser já noite cerrada e já não tinham dados nos telefones. Tivemos de as levar ao barco em Kadikoy, para retomarem o rumo certo. A boa ação do dia.

O dia teria de terminar com um chá, num local acolhedor.




 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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