Crónica do Rafu – Migra, desculpa lá







A Ministra da Saúde afirmou que “…o aumento circunstancial brusco causado pelo acolhimento de imigrantes que entram no país sem regras e sem humanismo fazem com que o esforço…no aumento do número de médicos de família pareça não existir” . Não foi a ministra que falhou em não encontrar médicos suficientes, foram os imigrantes que falharam com o SNS ao existirem.

Já Leitão Amaro diz que “desde 2024…o volume da imigração estabilizou.”, a imigração ficou controlada”, “O fluxo de entradas foi estabilizado”. O governo inventou a imigração de Schrödinger: dizem que está controlada desde 2024 e ao mesmo tempo dizem que é a culpa de todos os males dos últimos 2 anos. Depende de quem abrir a conferência de imprensa.

Tudo o que corre bem é por mérito do governo, tudo que corre mal é por culpa de todas as outras pessoas.

E esta insistência em culpar a imigração quando dá jeito para todo e qualquer problema lembra bastante um certo partido, mas é claro que qualquer semelhança é pura coincidência. Vejamos o concorrente na disputa da narrativa da imigração e como esta também saltita entre ser culpada de tudo e ser solução para todos se estiver controlada:

André Ventura diz que os imigrantes estão a ocupar demasiadas casas e no mesmo minuto diz que estão a ir viver para a rua. Aparentemente imigrantes são seres mágicos que conseguem viver em dois locais ao mesmo tempo.

No seu discurso afirma: “Se imigrantes contribuem com 4 mil milhões para a Segurança Social e baixar a idade da reforma custa 1,8 mil milhões, porque não usar essa contribuição?”. É sempre boa a lógica: os imigrantes têm todos de ir embora, a não ser que me ajudem a baixar a idade da reforma.

Seria de esperar que fizessem menos questão de reforçar a incoerência de que um imigrante rouba empregos aos portugueses ao mesmo tempo que não faz nada e vive de subsídio, mas imagino que seja difícil quando a imigração é a resposta para tudo. Afinal, sinto que se perguntarem ao André Ventura como está o tempo lá fora ele vai dizer que está com mais imigrantes.

Quando políticos usam a imigração como a causa dos problemas do país eu gosto sempre de perguntar como raio os imigrantes causaram o congelamento de carreiras, as falhas de comunicação nos serviços de urgência, o desinvestimento na ciência, os casos de corrupção em grandes empresas, etc.

É que culpar imigrantes por falta de fiscalização e problemas de gestão do estado é como receber uma carta a dizer que a renda da casa vai subir e culpar o carteiro.

Claro que isto de arranjar a quem atribuir responsabilidades quando algo não corre bem não é algo de agora. Já Marta Temido, antiga Ministra da Saúde, dizia que a falta de médicos era culpa de decisões dos anos 80. Paulo Macedo, Ministro da Saúde na altura da Troika, dizia que a falta de medicamentos era por as pessoas consumirem medicamentos a mais. Sinto que se formos ver declarações até ao início da história do país vemos D. Afonso Henriques a culpar a mãe por forçar soldados a andar à pancada. Há sempre um bode expiatório para que governantes não tenham de assumir responsabilidades. É uma tradição tão antiga quanto a sardinha assada no S. João e tal como no S. João também parece que é tudo metido a martelo.

O que é preocupante neste momento é que os bodes expiatórios da moda do governo passaram a ser os imigrantes, algo que deve infringir os direitos de autor e o usucapião do discurso por parte da extrema-direita. O Chega já usava isso antes de o governo tornar mainstream, e o problema é que os groupies desse grupo, que se diz indie, não vão preferir a versão pop da sua xenofobia.




  • Diário de Odivelas - Redação

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