Sociedade & Ambiente | Os determinantes da baixa natalidade

“(…) Ter filhos é um projeto de futuro e a instabilidade e a incerteza são muito grandes” (Maria João Valente Rosa, demógrafa)

A quebra da natalidade, é um assunto muito sério, que cada vez mais entra na agenda política e social e que terá grandes implicações futuras no desenvolvimento do país, nomeadamente no crescimento económico e na estabilidade social.

A relação entre as baixas taxas de natalidade, o aumento da esperança média de vida e o consequente envelhecimento da população será o grande desafio para as próximas décadas e que irá afetar o “contrato social” e o sistema de solidariedade intergeracional de pensões vigente.

A este propósito, diz-nos Álvaro Matias (1999): “trata-se de um sistema que, no caso específico do risco de velhice, pressupõe um contrato intergerações implicitamente aceite pelos indivíduos que compõem a sociedade, uma vez que é sempre a geração mais nova que suporta o ónus com as reformas da geração envelhecida, e fá-lo na expectativa de que a próxima geração de pessoas venha ulteriormente a suportar os encargos futuros com a reforma da atual geração ativa”

Baixa natalidade, um fenómeno que atravessa toda a Europa e as economias mais avançadas do mundo e que pode criar uma “emergência demográfica”.

De acordo com o último relatório publicado pelo Fundo de População das Nações Unidas sobre a Situação da População Mundial em 2024 “A Verdadeira Crise de Fecundidade”, cerca de 20% dos adultos em idade reprodutiva acreditam que não conseguirão ter o número de filhos que desejam, destacando como a principal barreira as limitações financeiras.

O relatório recomenda o “investimento em habitação acessível, promoção de trabalho digno e estável, reforço das licenças parentais e da conciliação entre vida familiar e profissional, creches gratuitas, acesso universal à saúde reprodutiva e políticas inclusivas que apoiem todos os tipos de famílias, incluindo mães solteiras, casais não-casados e famílias não-tradicionais, reconhecendo a diversidade das estruturas familiares”.

A previsão da ONU é que devido aos baixos níveis de natalidade a população no mundo continue a reduzir-se até 2050. A exceção acontecerá no continente africano, em particular nos países da África Subsariana, onde tudo indica que a sua população continuará a crescer. Explosão demográfica que já levou a ONU a concluir que o continente africano vai desempenhar um papel central na formação do tamanho e distribuição da população mundial nas próximas décadas.

Em 2024, mais de um quinto da população da União Europeia (21,6 %) tinha 65 anos ou mais, com uma idade média de 44,7 anos.

Entre 2014 e 2024, a idade mediana aumentou em todos os Estados-Membros, com exceção de Malta e da Alemanha, onde diminuiu. É mais alta na Itália e a mais baixa na Irlanda.

Em Portugal a idade média da população residente passou de 47,1 anos em 2023 para 47,3 anos em 2024 (Estatísticas do Eurostat).

Os dados mais recentes do INE confirmam que o envelhecimento em Portugal está a acentuar-se, com um índice de envelhecimento de 192,4 em 2024 o que equivale a dizer que existem 192,4 idosos (65 anos e mais) para cada 100 jovens (até aos 14 anos).

Na Europa e segundo as previsões, até 2050 a população diminuirá cerca de 7%. Em 2022 a média europeia do ISF, era 1,53.

Índice Sintético de Fecundidade (isf): é o número médio de nados-vivos por mulher em idade fértil (entre os 15 e os 49 anos de idade). Nos países desenvolvidos, considera-se o número 2,1 como o nível mínimo para a efetiva substituição de gerações.

Os especialistas acreditam que o declínio da taxa de natalidade pode ser motivado por fatores como as preocupações com as alterações climáticas, a pandemia e o maior aumento da inflação numa geração (Euronews, 2024).

Em Portugal, e não obstante o número médio de filhos em Portugal até tenha aumentado ligeiramente nos últimos anos, muito em parte impulsionada pela imigração, o Índice Sintético de Fecundidade continua a ser baixo.

Em 2024 e de acordo com o INE/Pordata, tínhamos em Portugal um Índice de 1,44 filhos. E em 2023, cerca de 22% das crianças nascidas no nosso país eram filhas de estrangeiras, quando há uma década não chegavam aos 10%.

Com efeito, desde 1960 que o número de nascimentos está a descer em Portugal. À época o ISF era de 3,19 filhos por mulher, mas desde 1982 que esse índice está abaixo do nível de reposição. E não só a idade média das mulheres ao nascimento do primeiro filho tem vindo a aumentar em Portugal, como se está a ter filhos até mais tarde.

Estudos diversos mostram que as gravidezes após os 35 anos têm aumentado quase para o dobro nas últimas décadas, enquanto a maternidade antes dos 20 caiu para metade.

Em Portugal, a realização dos censos remonta a 1864, evidenciando um crescimento irregular embora globalmente positivo.

Segundo os Censos 2021 a população era de 10.347.892 milhões, uma redução de 214.286 habitantes comparativamente a 2011.

Porém, e de acordo com as Estimativas do INE, em 2024, a População residente aumentou – somos hoje 10 749 635 – muito devido à entrada de imigrantes, mantendo-se, contudo, o agravamento do envelhecimento.

Ora, o facto de possuirmos um número de nascimentos baixo e um número de idosos continuamente a crescer é considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população, pois o desequilibro da estrutura etária da sociedade terá fortes repercussões sociais, económicas e culturais em Portugal e no resto da Europa.

Se nos devemos regozijar pelo progresso e pelo aumento da esperança média de vida e redução da mortalidade, uma grande conquista civilizacional – de 50 anos em 1940 para cerca de 82 anos em 2024 –, o facto de termos um número de nascimentos baixo coloca-nos num quadro de “duplo envelhecimento” e num sério desafio para a economia e consequentemente para os sistemas de segurança social, pois serão cada vez menos pessoas em idade ativa a contribuir para um número maior de pensionistas reformados.

“No triénio 2021-2023, a esperança de vida à nascença em Portugal foi estimada em 81,17 anos, sendo 78,37 anos para os homens e 83,67 anos para as mulheres. Já a esperança de vida aos 65 anos, no período 2021-2023, foi estimada em 19,75 anos para o total da população. Aos 65 anos, os homens podiam esperar viver 18,00 anos e as mulheres 21,11 anos” (INE,2024)

De acordo com os dados do INE/Pordata, em seis décadas, o número de nascimentos em Portugal caiu para menos de metade (…) Em 1982, o número médio de filhos por mulher caiu abaixo de 2,1, valor considerado o limite da substituição de gerações.

Se nos anos 80 do século XX a preocupação era o “inverno nuclear,” pelos grandes receios de uma guerra nuclear, as consequências a longo prazo do “inverno demográfico” poderão ser igualmente devastadoras.

Em Portugal, são vários os argumentos apontados que obstaculizam e desincentivam a vontade e o desejo dos jovens terem filhos e que vão desde fortes barreiras económicas e laborais (a difícil articulação de tempos entre o trabalho e a família, a precariedade laboral e os baixos salários), até à insegurança sentida em relação ao futuro (guerras, alterações climáticas, crises financeiras).

Os diminutos apoios do Estado, seja na escassa cobertura pública do apoio às crianças (creches grátis), seja no acesso à habitação, são outros dos fatores que desencorajam muitos casais em ter filhos.

Porém, e como sublinha a socióloga Maria Filomena Mendes, “a decisão de ter filhos continua a caber aos casais, por mais políticas de natalidade que se adotem”.

Outro motivo central neste quadro é para muitos a priorização da liberdade individual e a opção por um estilo de vida mais hedonista dos atuais jovens, algo muito próprio de quem vive numa sociedade de abundância e de consumo. Os jovens casais não querem hipotecar a sua vida privada muito cedo com o nascimento de um filho.

O tempo de família é cada vez mais reduzido e isso influencia a decisão de ter filhos.

Na realidade, nas últimas décadas, sobretudo no mundo mais desenvolvido, os novos modos de vida urbanos alteraram todo o contexto cultural, económico e social e os próprios valores morais e sociais que vinham orientando a sociedade, a começar desde logo pela evolução e valorização do cuidado e do afeto em relação às crianças e mais recentemente com o aparecimento de novos tipos de família.

Por outro lado, e de acordo com o geógrafo, José Malheiros, a possibilidade de planificar é uma das grandes responsáveis pelo fenómeno.

“O facto de se poder separar a sexualidade da reprodução sinalizou-se em todo o lado, mesmo nos países mais conservadores” (…) A maioria da população em idade fértil sabe que pode controlar a fecundidade. “

Do mesmo modo que o empoderamento e a autonomia da mulher – com maior acesso à educação e ao mercado de trabalho, atualmente um ambicionado e fundamental projeto de vida pessoal – têm contribuído para o adiamento do momento de serem mães.

“O adiamento do projeto de parentalidade é potenciado por vários fatores, tais como o prolongamento dos estudos, o momento da entrada no mercado de trabalho, a instabilidade ou inexistência de uma relação conjugal, a saída tardia de casa dos pais, o discordar que ter um filho é essencial para a realização pessoal ou o acreditar ser preferível ter menos filhos de modo a poder assegurar-lhes melhores oportunidades.” (Fundação Francisco Manuel dos Santos,2016)

Em suma, a crise demográfica e a quebra de natalidade no Mundo Ocidental são um problema social contemporâneo que vai obrigar os governos e os cidadãos a agirem e a refletirem.

Para fazer face ao problema será prioritário criar medidas que facilitem a conciliação do trabalho com a vida pessoal e familiar (por exemplo com o “trabalho remoto”) e que passará por melhor remuneração e pela flexibilização dos horários de trabalho para mães e pais com filhos pequenos.

Muito importante será também tudo fazer para evitar a emigração dos nossos jovens, garantindo a todos eles boas condições para aqui residirem, trabalharem e terem filhos e simultaneamente apoiar os jovens imigrantes que aqui queiram criar família. Vêm procurar trabalho e geralmente são jovens em idade fértil.

“Temos visto a imigração de um ponto de vista utilitário para a economia, mas é preciso olhar para o seu papel na demografia. O impacto das chegadas faz-se sentir em locais onde há mais necessidade de mão de obra e isso obriga a repensar planos para esses lugares, porque estas famílias precisam de habitação e de escolas para os filhos.” (Pedro Góis, professor de Economia da Universidade de Coimbra)

Só assim conseguiremos inverter o declínio natural da população portuguesa (mais óbitos do que nascimentos).

A redução drástica da natalidade empobrece os países e tira-lhes vitalida

Carlos Jesus

Licenciado em Sociologia. Mestre e Doutorando em Ecologia Humana

Email: carlos.jesus@campus.fcsh.unl.pt

Facebook: Eu combato o Desperdício Alimentar

 

 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

    Related Posts

    Diário de Bordo – Grécia | Dias 5, 6 e 7

    Creta dia 5 Dia de Natal, e saída de manhã cedo, para explorar a parte oeste da ilha. Afinal há muita coisa aberta, e foi fácil tomar o pequeno-almoço.  Primeira…

    Alheira à Brás

    Esta semana Tó Cruz e Ana Fialho, na sua crónica dos domingos “Arroz ou massa? Rem de ser batatas” trazem-nos uma receita com alheira: Alheira à Brás. Vai precisar de:…

    Publicidade

    Diário de Bordo – Grécia | Dias 5, 6 e 7

    Diário de Bordo – Grécia | Dias 5, 6 e 7

    Diário de Odivelas Compacto- 74

    Diário de Odivelas Compacto- 74

    Junta da Pontinha lembra que viaturas em cima dos passeios limitam as ações de limpeza

    Junta da Pontinha lembra que viaturas em cima dos passeios limitam as ações de limpeza

    Dia Europeu da Terapia da Fala: Dar Voz, Autonomia e Ligação ao Mundo

    Dia Europeu da Terapia da Fala: Dar Voz, Autonomia e Ligação ao Mundo

    Workshop Gestão do tempo e do stress para os exames nacionais

    Workshop Gestão do tempo e do stress para os exames nacionais

    Ações de sensibilização sobre prevenção de doenças nas escolas do concelho

    Ações de sensibilização sobre prevenção de doenças nas escolas do concelho