Raquel Varela, historiadora, professora e, nos últimos 11 anos comentadora na RTP, foi dispensada pela nova Direção de Informação da estação pública de televisão. No seu Facebook comenta essa decisão.
Como é público, a nova Direção de Informação da RTP decidiu não continuar a contar comigo nos programas de debate semanal. Quero, ao final destes 11 anos, deixar aqui algumas notas que serão, espero, sinceras e delicadas.
Quero agradecer a quem me convidou, a quem esteve na organização e na produção, dos jornalistas aos técnicos de som, imagem, produção, realização, maquilhagem, cabeleireiro, um trabalho imenso e essencial. Fui acarinhada por tantos.
Quero agradecer aos amigos, colegas, camaradas (gosto desta palavra) com quem discuti semanalmente os temas, e a muitas outras dezenas de pessoas a quem, consoante os assuntos, telefonei, com quem me reuni para aprofundar saberes que nenhum indivíduo sozinho domina.
Vivi anos em países “nórdicos” onde a sinceridade não é vista como má educação. São países mais adultos e com uma esfera pública mais desenvolvida. Em Portugal, o desacordo frontal é mal visto (a não ser nos programas sobre futebol) e rapidamente se passa de debater ideias a acusar e insultar pessoas. Em suma, as pessoas fogem ao debate porque acham que assim evitam conflitos ou porque assim fomos habituados à força por décadas de ditadura. Mas o que acontece é que a violência verbal, a desconfiança, a coscuvilhice se instalam nessa ausência de debatermos frontalmente as divergências.
A minha saída do comentário semanal da RTP não se deve certamente a audiências, já que em todos os programas onde estive elas subiram. Há, porém, muitos programas sem grandes audiências que são excelentes, outros com grandes audiências que são uma desgraça para o nível geral de educação do país (desqualificam-no e embrutecem-no) e alguns com boas audiências que são bons ou excelentes. Saio por uma escolha política – todas as escolhas são políticas, e devemos falar abertamente delas.
Há um quadro de mudança política no país. Está no poder um Governo da AD, com o apoio da IL, com influência crescente do partido fascista Chega. Há uma situação mundial de degradação do modo de vida e do debate de ideias. O Presidente dos EUA comunica por tweets e memes, e disse querer transformar Gaza num resort. Por cá, o presidente do Chega lidera uma organização racista que usa a mentira como arma política de eleição, e a internet está cheia de perfis falsos que reproduzem a propaganda do Chega. A União Europeia corta o orçamento para a saúde, para a educação, para a agricultura para produzir drones carros e aviões de combate, munições para matar, amputar e dizimar o género humano, a primeira pátria a que pertenço.
Pautei-me todos estes anos por uma defesa intransigente da liberdade de expressão. Mesmo contra um centro-esquerda capitulador, moralista e descafeinado. Aquilo a que hoje se assiste é, porém, de enorme gravidade. Tenho vinte anos de carreira como historiadora e professora. Se afirmo que o Chega é fascista não é para produzir efeito mediático. Sou cuidadosa com os conceitos. Estamos a viver a legitimação do irracionalismo, do culto do Estado, da punição, da violência verbal (e física) contra os percebidos como mais fracos e da mentira como “opinião”. Que o Estado tenha legalizado isto é uma coisa, que eu como historiadora o aceitasse seria uma rutura ética com o meu trabalho.
A minha saída de comentadora da RTP fragiliza ainda mais a esfera pública. Não por mim, pois ninguém é insubstituível. Mas porque as vozes como a minha não representam mais uma “opinião”. Reflectem um modo de pensar a sociedade em que vivemos, com demonstração de argumentos e critério de verdade – errando, também -, que discorda abertamente dos grandes mantras da opinião publicada: a inevitabilidade do capitalismo, e da guerra, a naturalização do sofrimento e assédio contra quem trabalha. Defendi a Democracia sem adjetivos, que só pode ser de base, participativa, e a auto-organização dos cidadãos, plenos no uso da Razão, independente do Estado.
A voz pública é uma necessidade. Deve ser séria e diversa. É-o cada vez menos. E é isso que tem levado, também, à quebra de audiências – a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos, da mesma falta de imaginação ou de vontade para repensar a sociedade. O que produzimos? Para quem produzimos? Como produzimos? Estas questões, que são centrais para a humanidade, quase nunca são feitas, fagocitadas por uma comunicação ligeira e ideologicamente homogénea.
Estive, por vezes sozinha como comentadora, ao lado das primeiras greves dos estivadores, da greve cirúrgica dos enfermeiros, da paralisação dos camionistas e da greve dos trabalhadores da AutoEuropa contra o trabalho ao domingo, todos alvo de campanhas mediáticas que pareciam verdades indiscutíveis na altura e mentiras descaradas dias depois. E estive, com poucos mais comentadores, ao lado das greves dos professores, médicos, maquinistas, transportes em geral, sustentando o que para mim é óbvio – se há alguém capaz de parar esta deriva para a guerra e para a morte são os trabalhadores organizados.
Nos últimos anos, nunca saí de casa sem que viessem ter comigo pessoas para falar, agradecer, apoiar, conversar. Recebi carinho e afeto, abraços, nos cafés, nos aviões, nas filas de serviços apinhados, nas escolas, entre as empregadas de limpeza de jardins e trabalhadores da ferrovia, motoristas e professores, enfermeiros e médicos. Tudo isso me ajudou a conhecer um país decente, que existe, embora muitas vezes sem voz. Muito obrigado a todas e a cada uma dessas pessoas. Ajudaram-me muito a crescer e a ter força para continuar.
Há um Portugal sentado e outro de pé. O de pé é quem vive do trabalho, e que todos os dias assegura a produção e a reprodução da nossa vida. É nesse país, dos que trabalham, que me revejo e ao qual procurei dar voz. Se fui um pouco voz desse Portugal ignorado, valeu a pena.
Continuarei a fazer ouvir a minha voz e ideias, a defender os trabalhadores e os seus direitos, a dar aulas públicas e conferências, cursos, documentários, livros, a lutar por um outro país assente no bem comum, na igualdade real, na democracia do povo e na liberdade.
Até breve
Raquel Varela







